Minha vida em analogias musicais

Este é o meu último post escrito aqui no Geek Musical. Ainda preciso aceitar o fato de que dentro de algumas semanas não terei mais o compromisso de falar ou escrever sobre qualquer tema musical. O que dizer num momento como esse? Eu poderia fazer o velho feijão com arroz e elencar os números dos site ou falar de nossas idiossincrasias. Mas tudo isso já foi feito em algum momento de nossa história.

Outro dia, fazendo um inventário dos meus posts por aqui, lembrei deste texto, postado na véspera do último Natal. Nele, fiz um balanço do catastrófico ano de 2014 usando uma letra do Van Halen como gancho. É a pegada que pretendo resgatar aqui, pois essa foi apenas uma das várias analogias musicais que enxerguei nesses anos mais recentes de minha vida. Analogias que não pude dividir com ninguém, pois não havia geeks musicais por perto em tais oportunidades. Divido-as agora com vocês, que entendem o valor de um grande show, de um grande disco, ou mesmo de uma grande letra.

A primeira analogia que me passou pela cabeça aconteceu há cerca de dez anos, em meus primeiros trabalhos sociais junto ao IBS. Atuando em comunidades carentes pelo interior do Brasil ― onde sempre fomos recebidos com festa ―, tive uma ideia do que é estar com uma banda em turnê. O contexto e as dimensões são outras, sim, mas havia paralelos. O lado positivo era ver a transformação ocorrendo e a resposta calorosa do público. Embora fosse estranho vir gente pedir autógrafos e querendo tirar fotos com você, era apenas uma manifestação de carinho e gratidão. No lado negativo, observei que alguns problemas eram muito parecidos com os enfrentados por bandas na estrada. Afinal, estamos falando de pessoas com diferentes personalidades. E tome stress, dificuldades de relacionamento, estafa física e mental (isso sem falar dos inerentes problemas logísticos). Claro que tudo era compensado no final de cada jornada, com o dever cumprido e todos voltando felizes para casa.

O trabalho diário também rende boas metáforas. Já trabalhei em empresas e já vivi de frilas. É uma sensação completamente diferente. Ser funcionário de uma empresa é como estar numa banda e fazer parte de uma grande engrenagem, enquanto que nos frilas é como estar em carreira solo, cavando um showzinho aqui, outro ali, a procura de espaço e reconhecimento. Ambos tem seus prós e contras. Nos frilas, a grana é curta, mas há mais liberdade e tempo. Numa empresa, temos segurança financeira, mas é preciso fazer concessões (no caso de ter ficado pouco tempo numa empresa, encare como um teste para entrar numa banda que não deu certo).

Outra analogia vem dos dois livros de charges políticas que publiquei. O primeiro livro saiu em 2006 de forma independente, num molde parecido com o “faça você mesmo”. Senti-me lançando o disco de estreia por um selo independente (fundado por mim mesmo). Se há algo que aprendi nessa primeira empreitada pelo ramo editorial é que a impressão é a parte fácil. A grande dificuldade é a distribuição, pois o desafio é chegar no maior número de praças possíveis. E lá fui eu, com caixas e mais caixas de livros no porta-malas, em busca de distribuidores interessados. Já o segundo livro, lançado em 2014, havia uma editora, e a sensação era a mesma de ter uma gravadora por trás, te apoiando e ajudando a promover o lançamento (além, claro, de não ter todo aquele trabalho burocrático e braçal).

Como muitos aqui já sabem, a política fez parte da minha vida até 2014. Dessa forma, não pude deixar de notar como as tais “jornadas de junho de 2013” me pareceram um grande Woodstock. Tudo bem que as manifestações não foram nada pacíficas, como foi o histórico festival de 1969. A conexão que faço aqui é que, em ambos os casos, todos os sonhos ali compartilhados caíram por terra pouco depois. Se o “paz e amor” dos hippies morreu junto com Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison, o “não é só pelos 20 centavos” foi rifado por muito menos do que valia. Primeiro com o pachequismo/viralatismo que inebriou nossa brava gente durante a “copa das copas” e, mais tarde, nas eleições, ao reeleger praticamente todos os políticos que um ano antes encontravam-se acuados.

Depois desse débâcle moral, percebi que eu precisava mudar de rota e comecei a forjar minha entrada no mundo futebolístico fazendo charges para a ESPN. Não demorou muito e em janeiro desse ano, as ameaças que recebi por causa daquela fatídica charge podem ter sido tão violentas quanto a reação dos fãs xiitas do Metallica quando a banda lançou Load. Talvez tenha faltado abraço na infância desses brucutus, vai saber…

Para fechar, a última analogia é sobre este fim. Em março de 2012 morria o grande Millôr Fernandes. Meses depois, em outubro, morria o próprio Jornal da Tarde e, com ele, meu blog de charges Trágico e Cômico. Coincidência ou não, em 2015 Chris Squire nos deixou a poucos meses do fim do Geek Musical. Não existe nada que ligue Millôr e Squire nesse mundo, mas para mim eles estão juntos, pois representaram marcos em minha vida. Ambos, cada um à sua maneira, me causaram grande impacto, me inspiraram de diferentes formas e deixaram este mundo às vésperas do encerramento de dois projetos dos quais me orgulho muito.

Naquele post do Natal de 2014, eu prometia a mim mesmo que 2015 seria diferente. E de uma certa forma, já foi. Um ano de muitas lições, reflexões e conclusões. Política, futebol e música já fazem parte do meu repertório. Agora preciso me reinventar em outro ofício. Não sei se vou me juntar a outra banda, se vou seguir carreira solo ou se vou eu mesmo montar uma nova banda. Sei que, tanto para mim quanto para o camarada Rafael Fernandes, é o momento de sonhar tudo de novo. Que esses novos tempos nos tragam bons ventos e boas músicas.

Aos geeks musicais que nos acompanham aqui, garanto que voltarei a falar/escrever sobre música algum dia. Só não sei dizer neste momento quando, como, onde e em que contexto isso ocorrerá. Por enquanto, deixo aqui um salve a todos vocês que, como eu, veem a música como uma nobre arte, e não como um “entretenimento” rebolativo e alienante.

This is what we all are. We are the strongest people on earth. We are THE LAST IN LINE.
Ronnie James Dio (Evil or Divine, 2002)

2 Responses to “Minha vida em analogias musicais”

  1. Mel disse:

    Belo texto, Diogo!
    Engraçado como também sempre fiz analogias musicais no meu caminho.
    É assim mesmo, música toma uma parte importante da vida e acabamos fazendo associações.
    Esse espaço vai fazer falta, e se voltar a escrever não esqueça de avisar os Geeks do orkut.
    \,,/
    Mel

    • Diogo Salles disse:

      Mel,

      A vida de um geek musical será sempre uma discografia. Terá momentos inspirados, outros nem tanto e terá momentos de reinvenção – como agora, no meu caso.

      O dia que eu voltar a falar de música, todos vcs saberão!

      bjs
      Diogo