Meus últimos devaneios escritos no Geek Musical

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Quem acompanha o site já deve saber que encerraremos as atividades em breve. Este é meu último texto escrito – ficando faltando, apenas, minha participação no Tungcast #100. Ou seja, este artigo é marcante. E é duplamente importante: agora no começo de novembro são completados 10 anos da publicação do meu primeiro texto no Digestivo Cultural. E quem é atento ao Geek Musical sabe o quanto o Digestivo é importante para nós.

Por ser um texto que encerra um ciclo, preferi escrever tópicos distintos, que contemplam algumas questões que estão na minha cabeça há algum tempo. Conto com a colaboração dos leitores para avançarmos nessas questões.

Música como linguagem
Numa reportagem do jornal Valor Econômico, com o título “Por causa de você”, Jaques Morelenbaum afirmou: “música é discurso”. Essa definição faz muito sentido. Não estamos falando de discurso no sentido político ou ideológico, nem de algo egocêntrico e de cima pra baixo. Estamos falando sobre discurso no sentido de apresentar uma ideia. E, que Morebenbaum me permita, avanço na questão: se música é discurso, podemos nos expressar em diferentes linguagens. E, por isso, fica difícil olhar para uma linguagem com a interpretação de uma outra. Mas podemos, sim, afirmar que uma linguagem é mais complexa, bem elaborada e sutil que outra. Tom Jobim e Joe Satriani (gosto de ambos) falam linguagem opostas – Jobim, inclusive, torcia o nariz para o rock. Portanto, não cabe falar de Satriani com o ouvido de Jobim – é preciso adequar o discurso, contextualizar. Porém, ao mesmo tempo, não tenho dúvidas de que o conceito, vocabulário, construções e intenções do maestro soberano estão absurdamente acima do guitarrista norte americano. E é possível gostar e passear por essas e outras linguagens – afinal, você não usa numa entrevista de emprego o mesmo linguajar ou discurso que usa com seus amigos num churrasco, certo? (Dica: se usa, está fazendo errado).

Os ouvintes de música ainda estão abertos às propostas dos músicos?
No seguinte sentido: os artistas lançavam suas músicas, os fãs ouviam, tentavam absorver, entender e se expressar a respeito do que sentiram ao ouvir. Nos últimos anos, parece que há uma preferência pelo mais do mesmo. Ou, no seu extremo oposto, pela crítica cínica e imediata, que acha tudo ruim antes mesmo de absorver o conteúdo com calma, entendendo aos poucos. Do jeito que as pessoas andam irritadiças e intolerantes com as diferenças; num momento em que todos querem direitos, mas não deveres; quando se confunde civilidade com a infantilização do “eu quero”, a impressão é que em poucos anos alguém vai processar um artista por lançar um disco “não bom o suficiente”. Ou entrar no Procon por um setlist de show sem sua música favorita. Será que é um exagero? Talvez. É provável que nunca cheguemos lá. Mas é algo a se pensar.  Adicionemos a tudo isso a pressa para consumir toda a informação possível no menor período de tempo, fica a pergunta: estamos tolerantes o suficiente para primeiro ouvir com atenção e absorver o que está oferecido numa música e num disco, compreender o contexto e a proposta, para só depois fazer uma avaliação?

Um item adicional nessa questão: sem dúvida nenhuma os geeks musicais querem ouvir coisas novas. Não à toa temos recomendações de Amazons e Spotifys da vida que nos mostram bandas que não conhecemos. Mas, aqui, um detalhe: essas recomendações se baseiam no que já ouvimos. Assim como nosso cérebro está mais atento ao que estamos acostumados a ouvir. E chego aqui no meu ponto: será que estamos REALMENTE abertos a algo completamente novo, que desafie o conhecido, o confortável?

Para onde vai o jornalismo/análise musical?
Spoiler: esse tema estará no Tungcast #100, mas já adianto algo aqui. A experiência de Geek Musical/Tungcast comprovou, novamente, algo que é claro: quando você opta por conteúdos mais longos, tentando fazer análises mais profundas você tem diferentes retornos. Um lado é que as pessoas que acompanham o fazem de forma mais permanente, entendem a proposta e participam mais. O outro é que você fica à margem da internet em geral, já que a maioria das pessoas quer conteúdos rápidos, no estilo meme de internet. E, por favor, não vejam isso como reclamação, lamentação, nem juízo de valor. É apenas uma constatação do tipo de informação que as pessoas, de uma maneira geral, querem. E daí vem a pergunta: para onde vai o jornalismo ou, mais ainda, a análise musical? Se estamos o tempo todo ligados no Spotify, se clicamos em novos links a cada 5 segundos, se estamos viciados em absorver apenas informações de manchetes? Alguém consegue responder?

“A arte é a busca da perfeição”
Antes de acabar, deixo uma maravilhosa citação de Jaques Morelenbaum, do mesmo artigo acima, e que tem relação com um texto que escrevi:

“…A tristeza inspira, torna a arte muito mais necessária. Dentro da beleza e da alegria não tem necessidade de arte. A arte é a busca da perfeição. Busca arredondar o que está torto, a harmonia, a estética, o gosto.”

E, enfim…
Por fim, deixo aqui meu agradecimento a todos que participaram de alguma forma aqui do site – seja com posts, comentários, leituras ou audições. E um agradecimento mais que especial para meu camarada Diogo Salles por esses seis anos e meio. Muita música para vocês!

3 Responses to “Meus últimos devaneios escritos no Geek Musical”

  1. Helisandro disse:

    Fala Rafael.

    Vou citar o que geralmente ocorre comigo. Hoje tem-se acesso á tantas bandas/artistas, que está cada vez mais difícil dar a devida atenção aos albúns. A impressão que tenho, é que se um albúm não agrada de primeira, partirei para o próximo as vezes sem dar uma segunda chance.

    Antigamente quando contava o dinheiro para comprar o cd nosso de cada mês, ouvia aquele albúm de todas as maneiras possíveis, acompanhava as letras, esmiussava o que a capa representava.

    Vejo que hoje com a internet tem dois pontos. O ponto positivo de se ter acesso aos mais diversos conteúdos, seja aquela banda grega com nome difícil, ou os primeiros albúns da sua banda preferida que só era visto em revistas, ou num acervo de colecionador. E o ponto negativo que é a sobrecarga de informação que temos e impede de apreciarmos com a atenção devida, tendo uma audição superficial.

    Enfim, não sei se isso ocorre com vocês também. Mas comigo tem essa mistura de satisfação/frustração, feliz por conhecer cada vez músicas novas e triste por muitas vezes não conseguir dar a atenção que muitos albúns merecem.

    Abraço Moçada.

    • Rafael Fernandes disse:

      Obrigado pelo comentário, Helisandro.

      Concordo com você, minha sensação é exatamente à mesma, esse conflito. Mas tb acho que cabe a nós começarmos a filtrar melhor o que ouvimos e organizarmos nosso tempo, pra também não ficarmos reféns do descarte automático.

      Abs

  2. Vitor disse:

    Parabéns aos amigos, pelo trabalho longo, profundo e de alto nível.