Herbert Vianna

No fim dos anos 80, começo dos 90, os nomes do rock nacional incensados de maneira geral eram Renato Russo, Cazuza e Lobão. Por terem se destacado com boas letras e canções marcantes. Mas, talvez, ainda mais por motivos comportamentais: por serem contestadores, provocadores, carismáticos… Nomes como Roberto Frejat e Herbert Vianna eram deixados de lado, por serem mais supostamente “caretas”. E, por isso mesmo, acredito que não tiveram seu valor inteiramente apreciado. Meu ídolo dessa turma sempre foi Herbert Vianna. E exatamente por esse lado “careta”. Um cara sem nenhum atrativo em particular: não é galã, não é grande cantor, é discreto, não tem nenhum talento mais, digamos, “óbvio”. Não tinha esse perfil “maluco”, nem outsider. Um cara classe média, um nerd, quase loser, com certa dificuldade social na juventude, que precisa trabalhar e se esforçar muito para se destacar. Que preferia ficar tocando guitarra a ir a praia; que, sem precisar ser virtuoso, achava importante estudar um instrumento com mais afinco. Herbert era alguém que eu poderia ser.

Longe de ser um gênio, Herbert é – exceto na voz – extremamente competente nas suas principais atividades: compositor, guitarrista e band leader. E, por isso, subestimado. Diz a lenda que Cazuza teria dito para Herbert que gostaria de ter escrito o lado B do disco Bora Bora. E isso diz muito: mostra como Vianna já naquela época (o disco é do começo de 1988) apresentava sensibilidade e contundência em suas letras, para além do óbvio. Seu lado composicional, aliás, passou por diversas fases. Nos dois primeiros álbuns d’Os Paralamas do Sucesso, Cinema Mudo (1983) e o clássico O Passo do Lui (1984), temos o Herbert jovem, com problemas mais banais. Em Selvagem (1986), além da forte guinada para o reggae e sons latinos, temos o lado contestador e social.

Bora Bora (1988) mostra o Herbert confessional, exposto e visceral, resultado das frustrações do término do namoro com Paula Toller – o que, a julgar pelas letras, quase afundou emocionalmente o cantor. E, mais do que isso, mostra o quanto era capaz de compôr pérolas, tanto musical quanto liricamente. O exemplo clássico: “Quase Um Segundo”, linda canção que tem versos como “Eu queria ver no escuro do mundo, onde está tudo o que você quer/ Pra me transformar no que te agrada (…) Será que você ainda pensa em mim?”. Ou letras com fortes tintas emocionais, como em “Uns Dias”: “Eu chorava de amor e não porque sofria (…) Eu tive fora uns dias / Eu te odiei uns dias / Eu quis te matar”. Em Big Bang (1989), um bom disco, mas pouco comentado, já está mais maduro. Um Paralamas e um Herbert procurando o equilíbrio. E, na minha visão, é o álbum em que o grupo consolida de fato seu som: a combinação de rock, pop, reggae e ritmos brasileiros. Tudo isso com marca própria.

A partir de Os Grãos (1991) temos a fase adulta. Esse disco reflete uma mudança na vida de Herbert – conheceu e casou-se com Lucy, seu grande amor. É um momento mais sereno e reflexivo, com músicas como a excepcional  “Sábado” e “O Rouxinol e a rosa”. Severino (1993) é o experimento. Não apenas sonoro, mas o uso de letras que não necessariamente falam dos sentimentos, mas mais da observação de mundo. E também, o início do uso do jogo de palavras abstratas, que ficaria evidente dois anos depois, no hit “Uma Brasileira”, influência de Carlinhos Brown (detalhe: nessa canção a letra é de Herbert e a música de Brown). A partir de então, temos um Herbert equilibrado. Sem a urgência de Selvagem, sem os experimentalismos de Severino e sem o excesso de sentimento de Bora Bora. Ele mistura um pouco disso tudo, mas mais focado em buscar boas canções pop, que contenham bons achados nas músicas, arranjos e letras. Como provam Nove Luas (1996) e Hey Na Na (1998)- provavelmente ambos os discos sejam o auge da maturidade artística de Herbert.

Longo Caminho (2002) é a reconstrução: músicas de antes do acidente juntadas para, mais do que manter a banda em ação, ajudar o músico na sua recuperação. Hoje (2005), um disco menor, foi responsável por mostrar que ele poderia, sim, continuar compondo. Temos lampejos do hitmaker, como “Na Pista” e “De Perto”. “2A”, apenas de ter uma letra bizarra, tem boas melodias. É, mais do que tudo, um espaço para ele exercer uma espécie de catarse de toda a tragédia que passou. Ou, para usar uma expressão do próprio Herbert, um espaço para seus “vômitos emocionais”.

Brasil Afora (2009) tem várias músicas de outros autores – o que pode apontar uma maior dificuldade em compor em quantidade. Por outro lado, temos uma evolução clara na composição em relação ao disco anterior. “Meu sonho”, a abertura, é ótima música. “Palhaço”, em parceria com Bi e Barone, retoma uma maior variação de acordes e uso de jogo de palavras que ele tão bem estava explorando antes do acidente. Os acordes do refrão de “Tempero Zen” também retomam certos toques de sofisticação que o músico explorava antes do acidente.

Herbert gravou, ainda, quatro discos-solo, com sonoridades mais intimistas. Neles podemos ver outras facetas do compositor, embora sua marca autoral esteja lá. Uma nota interessante é que esses discos evidenciam o quanto João Barone e Bi Ribeiro são vitais para o som dos Paralamas. Embora as intenções harmônicas e melódicas dos discos solos lembrem o trio – o que é natural, pois Herbert é o principal compositor – a pegada, timbres e arranjos são bem diferentes. Ê Batumaré foi registrado no home studio de Herbert. Gravar em casa pode soar banal hoje, mas devemos lembrar que o disco foi lançado em 1992 e gravado em um gravador analógico de quatro canais. Um arrojo lançar algo assim naquele momento. Ali vemos um Herbert mais experimental e é possível dizer, sem medo de errar, que esse disco é a semente do som e intenções do disco seguinte dos Paralamas, Severino, citado mais acima.

O segundo disco solo de Herbert, Santorini Blues, de 1997, é basicamente acústico e traz um clima leve e desprendido, para curtir. Já o terceiro, O Som do Sim, de 2000, é mais arrojado e bem produzido: cada faixa traz um produtor diferente e participações especiais. Destaque para a ótima “Mr. Scarecrow”, com a saudosa Cássia Eller. Seu quarto mais recente disco, Victoria, de 2012, é um registro interessante: Herbert canta músicas de sua autoria que ele nunca antes havia gravado – haviam sido registradas por outros artistas, em geral mulheres. Lá vemos hits como “A lua que eu te dei”, “Se eu não te amasse tanto assim” ambas gravadas por Ivete Sangalo e “Só pra te mostrar”, gravada por Daniela Mercury. Outro detalhe do álbum é que os tons das músicas respeitam mais o timbre natural do músico, mais grave, sem os excessos das músicas de começo de carreira dos Paralamas. O conjunto desses quatro lançamentos reforça que Herbert está longe de ser um compositor comum: é um grande criador pop. A capacidade de Herbert fazer canções marcantes é incontestável: de “Meu Erro” e “Óculos” a “Ela Disse Adeus” e “Cuide Bem do Seu Amor”. E precisamos lembrar, ainda, do Herbert guitarrista, de riffs como “Selvagem” e “O Calibre” e incontáveis grandes solos, como “Lanterna dos Afogados”, “Caleidoscópio”, “Romance Ideal” e “Vital E Sua Moto – Vesão 90”.

É inacreditável a evolução de Herbert após o acidente. Me lembro das apresentações logo seguintes à volta do grupo. O canto tímido, hesitante… Com dificuldade de tocar… Como não poderia deixar de ser, depois do grave acidente – que o deixou com muitas sequelas. Quase um ano depois da volta, vi ao vivo um show da tour do álbum Longo Caminho. Era outro Herbert: mais confiante, fazendo solos com a desenvoltura de antes. E no Rock In Rio de 2015, então, é de chorar: um frontman colocando a galera no bolso – graças a um punhado de hits incontestáveis. A trajetória de Herbert Vianna é inspiradora. Da construção de um geek musical até o líder de banda conhecido continentalmente. E sua impressionante reconstrução, de uma tragédia à volta à forma como músico, depois de muita superação.

Veja o show completo d’Os Paralamas do Sucesso no Rock In Rio de 2015:

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