Unknown Pleasures diverte e entristece fãs do Joy Division

> por Luiz Augusto Lima

Na edição brasileira de Unknown Pleasures, biografia do Joy Division escrita por Peter Hook (ex-baixista da banda e, posteriormente, do New Order), o prefácio é assinado pelo guitarrista Edgard Scandurra. No final de seu texto introdutório, diz esperar que o livro inspire os jovens a “baixarem as correias de seus baixos, aumentarem o volume dos instrumentos de suas bandas e tentarem, mais uma vez, transformar o mundo do rock e da música de forma geral”.

A versão de Peter Hook para a trajetória do Joy Division e de seu mítico líder Ian Curtis é mesmo inspiradora. Porém, é preciso desconfiar se, nos dias atuais, os jovens estão dispostos a oferecer um ingrediente fundamental para transformar uma banda de garagem em fonte de inspiração para milhões de adolescentes: sofrimento. E sofrimento é o que não faltou na estrada desta banda do noroeste da Inglaterra, formada em Manchester na esteira do movimento punk.

Não desanime. Unknown Pleasures não é um livro pesado. A maioria dos sofrimentos enfrentados pela banda é narrada por Hook com um estilo tipicamente britânico: cheio de sarcasmo e ironia, tornando o relato realmente saboroso do começo ao fim. A fome e o frio, os “roadies” rebeldes que largavam a aparelhagem no palco e caíam na farra, o “bullying” e a empáfia de bandas veteranas, as brigas com os skinheads da plateia, a van desconfortável, o show sem público, as diferenças de personalidade… Tudo isso deixa cicatrizes que servem para forjar uma boa banda, tanto no palco quanto no estúdio. Funcionou muito bem para o Joy Division e, mais tarde, para o New Order.

Ciente de que a regrinha “no pain, no gain” vale para a boa música, em pelo menos dois trechos do livro Hook ironiza os mimos da geração atual. Primeiro, ao ridicularizar bandas que participam de “reality shows” em busca da fama. Depois, ao comparar a situação de penúria dele e dos colegas de Joy Division no final dos anos 70 com a dos pseudo-roqueiros atuais, que estão sempre, segundo ele, “cercados de amigas da Kate Moss”. Cá entre nós, ele tem boa dose de razão.

A dor de Ian Curtis

Há, é claro, outra cicatriz nesta história, mais profunda e de uma dor intermitente: o suicídio de Ian Curtis aos 23 anos, em maio de 1980. Vocalista, letrista e líder da banda, Curtis deu cabo da própria vida com a corda do varal de casa, um dia antes de o JD partir para a tão sonhada turnê nos Estados Unidos. Trinta e cinco anos depois, amigos, familiares, fãs e jornalistas ainda tentam desvendar a alma de Ian na esperança de entender os motivos que o levaram ao ato extremo.

No livro, Peter Hook apresenta sua versão para os fatos e, por diversas vezes, abandona seu estilo sarcástico. É como se quisesse pedir desculpas por não ter, ao lado de parceiros da banda e empresários, notado a degradação física e psicológica de Curtis a tempo de evitar a tragédia. O líder da banda convivia com ataques epilépticos cada vez mais frequentes (inclusive no palco) que o obrigavam a tomar remédios causadores de diversos efeitos colaterais. Ao mesmo tempo, via sua vida pessoal entrar no olho de um furacão.

Este é o lado mais amargo e ao mesmo tempo rico do livro. A narrativa de Hook consegue nos transportar para aqueles dias caóticos a ponto de, em certos trechos, ficarmos com vontade de pular para dentro das páginas e berrar: “Será que vocês não estão vendo que este cara não está mais aguentando a pressão?”. O baixista/escritor parece adivinhar esta sensação do leitor e desabafa: “Eu me sentia culpado porque acreditei em Ian quando ele dizia que tudo estava bem (…) nunca me dei ao trabalho de ouvir suas letras, ou a ele, e pensar ‘Ele precisa mesmo de ajuda’.”

Aqui é importante citar duas outras obras importantes sobre Ian Curtis e o Joy Division que merecem comparação com Unknown Pleasures. Tocando a Distância, livro escrito por Deborah Curtis, viúva de Ian, e o filme Control, do diretor holandês Anton Corbjn – inspirado nos relatos de Deborah. Ambos descrevem um Ian Curtis complexo. Rebelde e intelectualizado, romântico e mulherengo, cheio de energia e entregue a períodos de pura depressão. Peter Hook, por sua vez, tem o mérito de nos apresentar um até então desconhecido Curtis.

Segundo Hook, o líder do Joy Division tinha a capacidade de adotar diferentes facetas, de acordo com as pessoas e o ambiente, mostrando um Curtis distante de Deborah e entregue às tentações. “Esse era o NOSSO Ian”, resume o autor, reivindicando respeito com a dor dele e dos outros integrantes da banda. Afinal de contas, eles perderam um amigo.

Hook conclui que Ian Curtis entrou em uma espécie de curto-circuito ao não conseguir mais administrar estas diferentes personalidades em meio à pressão de liderar a banda e de controlar a epilepsia. À época do suicídio, o vocalista estava às voltas com o iminente divórcio (ele e Deborah já tinham uma filha, Natalie, então com apenas 1 ano) e o relacionamento com a jornalista belga Annik Honoré. Os ataques epilépticos e o respectivo tratamento o desgastavam ao extremo (segundo Hook, os medicamentos deixaram Ian impotente). O líder da banda precisava de repouso, de uma dieta equilibrada, de maiores intervalos entre os shows. Mas ninguém ao seu redor parecia ter tempo – e interesse – de se lembrar disso.

Uma banda fundamental


Joy Division, da esq. para a dir.: Stephen Morris, Peter Hook, Ian Curtis e Bernard Sumner

Peter Hook escreveu o livro em 2012, quando já estava rompido com seus ex-colegas de Joy Division e New Order. O foco de seu atrito sempre foi o amigo de infância, o guitarrista Bernard Sumner. Embora cutuque seu desafeto em diversos trechos da obra, o autor tem o mérito de reconhecer as qualidades musicais e a importância criativa do ex-colega. Sumner, de fato, sempre foi mais próximo de Ian Curtis do que Hook, o que gera um ciúme quase indisfarçável no baixista. O baterista Stephen Morris, o último a entrar na banda, recebe exatamente o mesmo tratamento – até por ter se aliado a Bernard Sumner.

Os ex-Joy Division podem até se odiar hoje em dia, mas o legado que construíram ao lado de Ian Curtis é de encher o coração de qualquer amante do rock. Desde o mítico show dos Sex Pistols em Manchester, em 1976 (que os impeliu a formar uma banda) até o suicídio de Curtis, quatro anos depois, o quarteto protagonizou a redefinição da música punk, fazendo a cama para todas as bandas pós-punk britânicas deitarem e rolarem ao longo da década seguinte.

Coragem e rebeldia foram os principais combustíveis do quarteto, que sempre preferiu a independência a se render ao “mainstream”. O livro de Hook narra como eles optaram por seguir independentes em Manchester e esnobar Londres, mesmo que isso significasse menos dinheiro e fama. Tudo isso por confiarem em outro maluco fundamental, o jornalista e empresário Tony Wilson, fundador do selo Factory. A importância de Wilson está bem documentada em outro bom filme sobre a época: A Festa Nunca Termina (24 Hour Party People).

Pela Factory, o Joy Division gravou seus dois únicos (ótimos) álbuns: Unknown Pleasures (sim, o mesmo título do livro), de 1979, e Closer, de 1980, fora os singles de sucesso, como o hino “Love Will Tear Us Apart”.

Ler a obra de Peter Hook é mergulhar de cabeça neste mundo maluco e apaixonante, do qual nem todos saíram com vida e nem todas as amizades resistiram. Resta saber se outras gerações terão a coragem de ser inconsequentes como foram Curtis, Hook, Ian e Morris para, como deseja Edgard Scandurra, mudar a história do rock.

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