Fora do Tom – as memórias de Sting

“O Rebeca é um pequeno clube noturno no centro de Birmingham. Aparentemente os promotores fizeram o suficiente para reunir uma multidão naquele que, para a gente, será um show decisivo. Sabemos o quanto está em jogo nessa noite e precisamos desesperadamente de um empurrãozinho em nosso moral. Stewart e eu espiamos do camarim a multidão cada vez maior no clube, com a sombria expressão de dois condenados no corredor da morte. Subimos ao palco, as luzes se acendem e conseguimos nos livrar da falta de confiança e do desânimo: após os primeiros oito compassos já tocamos com a potência implacável de um bate-estacas de dez toneladas. Stewart e eu martelamos colcheias como turbinas numa praça de máquinas, enquanto Andy dispara uma rajada após outra de riffs tremulantes em sua guitarra. Minha voz se eleva acima disso tudo como um grito rouco de ave de rapina. A multidão, a princípio hesitante, começa a ir à loucura. O frenesi é total. Vamos embora depois de três bis. Sabemos que finalmente algo raro veio à tona. Sei, talvez pela primeira vez, que encontrei um carro-chefe para minhas canções. Venceremos. Vai levar um tempo, mas agora tenho certeza disso.”
Sting, descrevendo o primeiro show do Police com Andy Summers em 1977
(Fora do Tom, p. 288)

A vida de Gordon Mathew Sumner, vulgo Sting, é fartamente conhecida e documentada em jornais, revistas, livros, filmes e documentários. Ao contrário dos coronéis de nossa MPB, Sting sabe muito bem, como quase toda figura pública, que sua história já não lhe pertence há um bom tempo. Restou a ele contar a outra parte dessa história. A parte que pertence apenas a ele e às pessoas de seu círculo é o gancho de Fora do Tom (Cosac Naify, 2006, 350 págs.).

Curiosamente, a narrativa começa em 1987 aqui, no Rio de Janeiro, onde Sting fazia a turnê para promover o álbum …Nothing Like The Sun. Certa noite, ele sua mulher Trudie resolvem sair do conforto do Copacabana Palace para participar de um culto religioso do Santo Daime, provocando-lhe “visões profundas e extraordinárias”. A partir daí Sting entra num flashback e mergulha em suas memórias mais inóspitas, fazendo de seus pais fantasmas onipresentes na história. Vasculhando suas origens, ele desenrola a trama da infância até a formação do Police e o estouro do single “Roxanne” em 1978.

A infância de Sting, na minúscula e gélida Wallsend, nos arrebaldes de Newcastle, é marcada pela relação entre seus pais, tão ou mais gélida que a cidade. Enquanto Sting descobria o valor do trabalho ajudando o pai na entrega de leite todas as manhãs, a mãe descobria a vida adúltera com o jovem ajudante na leiteria. Sting descreve sem censura a vez em que flagrou uma das traições da mãe, nos fundos da casa e, mais adiante, as futuras idas e vindas entre ela e seu pai traído. É no meio dessa espiral de sentimentos contraditórios (particularmente em relação à mãe) que o menino começa a usar a música como rota de fuga.

Sempre pontuando suas observações com referências literárias, analogias pomposas e metáforas sofisticadas, Fora do Tom entrega de onde veio a fama de intelectual esnobe de Sting. Ao construir um muro de erudição entre ele e seus pais iletrados, jamais conseguiu se livrar desse cacoete. Adicione isso àquele tom formal, típico dos ingleses, e você tem a receita para os ataques pessoais e maldizeres de parte da imprensa cultural.

Em pequenas tramas paralelas, bem mais amenas, Sting discorre sobre seus primeiros amores, sua vida em Newcastle e o show que viu do Jimi Hendrix Experience aos 16 anos (Hendrix seria o primeiro negro que ele viu na vida). Mas a história decola mesmo com as turnês com o Last Exit, banda local onde ele teve sua formação musical. Entre cachês diminutos de turnês em hotéis, teatros e cruzeiros, um grande momento é quando a banda perde seu guitarrista e se vê pela primeira vez como um trio. É ali que, segundo ele, essa experiência iria prepará-lo para o futuro com o Police:

“Muitas de minhas melhores apresentações foram realizadas em condições menos do que perfeitas, ou até adversas. Ao tocar como um trio eu iria aprender a valorizar o espaço e a limpidez entre as frequências musicais, que bandas maiores não podem deixar de preencher.”

Outra curiosidade é ver Sting desmontando o mito de que ele sempre foi o “líder” da banda, descrevendo o baterista Stewart Copeland como o motor principal em seus primeiros dias. O nome, o som, o visual, a ideologia, tudo foi ideia de Copeland, que era muito mais autoconfiante (e talvez delirante). Esse cenário serviu muito bem a Sting que, nessa época, acabara de se mudar para Londres com a mulher e um filho recém-nascido e ainda vivia debaixo de uma nuvem de incertezas e inseguranças.

É nesse período que podemos descobrir mais sobre os obscuros dias de Henry Padovani como primeiro guitarrista do Police. Tosco e sem formação musical, ele era o único que preenchia os pré-requisitos para fazer do Police a banda punk idealizada por Copeland. Quando conhecem Andy Summers, numa dessas jam sessions despretensiosas que muda a vida das pessoas, fica claro que ele era o homem certo e que o punk não passaria de um devaneio para a banda. Nos primeiros dias o arranjo foi inclui-lo na banda tornando-a um quarteto, mas bastou um show para Summers dar o ultimato: “ou ele ou eu”. Com Padovani fora, Sting fica confiante, mas Copeland ainda está cético. Depois do show de Birmingham (descrito na abertura desse texto), todas as dúvidas foram varridas do mapa. O resto é a história que conhecemos.

Voltando à política do Police, poderia até não haver a figura do líder, mas aquilo também estava longe de ser uma democracia estável. Era uma habitat com três machos-alfa, uma tribo com três caciques. Todos queriam impor sua visão — e cada um acabava puxando para um lado, formando esse triângulo de tensões. Sting era o compositor principal e a dura discussão sobre os royalties começou logo no primeiro disco, onde só duas músicas foram escritas em parceria. De qualquer forma, levou seis anos e cinco álbuns para o clima de ditadura ficar insustentável e o regime ruir.

No final do livro, Sting volta a falar das últimas amarguras da vida de seus pais antes de morrerem de câncer em 1987 (ela em junho, ele em novembro), fechando o círculo, como que numa “história dentro da história”. Além de muito bem escrito, Fora do Tom traz bons relatos sobre lugares que visitou e pessoas que conheceu. Mas acima de tudo, é uma fonte preciosa de cultura musical e uma ótima investigação sobre a gênese de uma das maiores bandas da história do rock.

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