Streaming sob a ótica Geek Musical

Loja de discos antiga

(fonte)

Nos últimos anos, o streaming tem se consolidado como o modelo de consumo de música e filmes. Desde a ascensão do YouTube, os downloads e os ofertas de entretenimento engessadas (como TV a cabo) estão ficando para trás. A ordem dos últimos anos é o conteúdo sob demanda (o que você quiser, na hora que quiser) em streaming (acesso pela nuvem, através da internet). Os números comprovam: em 2013 foi divulgado que o Netflix e o YouTube eram responsáveis por metade do tráfego de internet nos EUA. Isso gerou mais uma nova corrida desenfreada pela conquista de mercados, com executivos rezando para o streaming “salvar” a indústria. Na música isso fica claro, com aumento significativo de ofertas de serviços, como Spotify, Deezer, Rdio, Tidal, entre outros. Os gigantes também entraram no jogo com o Google Play Music e o Apple Music.

E começam a aparecer os problemas. Muitos músicos alardeiam uma suposta baixa remuneração recebida desses serviços. Taylor Swift já reclamou do Spotify e da Apple. Thom Yorke, do Radiohead, também chiou. Jay Z resolveu ir para a arena de outra forma e comprou o Tidal. Há quem critique o uso do streaming pela banalização da arte: com o excesso de conteúdo a preços baixos, o valor da música cairia. Mas para mim, algo fica muito claro: a briga entre artistas e esses serviços é a mesma da época das gravadoras – uma  disputa por CONTROLE. Cada um dos lados quer o controle do que lança, como lança e qual a remuneração recebida. Vocês lembram de quando os artistas e fãs reclamavam da baixa remuneração ao artistas, proporcionalmente ao preço cobrado por um CD? Então, a história é a mesma…só mudou a tecnologia! Por isso, proponho uma mudança de visão sobre o streaming: do mercado para nós, geeks musicais.

Pela ótica geek musical

Boa parte das críticas ao streaming e das lamentações sobre a queda da indústria musical – sim, ainda há lamentações – vem de quem oferta: músicos e businessmen. Ok, estão na dele. Afinal, esse é seu trabalho. O curioso é que pouco se fala da perspectiva do consumidor. A agenda e a pauta partem sempre da visão dos donos da bola. Mas e nós, os amantes da música – os geeks musicais? O fato é que o cenário, hoje, é muito favorável para quem ouve: acesso rápido a milhões de música por um preço baixo. Ainda que exista saudosismo em relação à compra de discos, eu não trocaria meu Spotify, nem o You Tube, por ter que comprar um pedaço de plástico por R$ 30,00 – e talvez me arrepender depois. Eu entendo perfeitamente o outro lado – em especial os músicos. Também sei que há o risco da banalização da música desestimular a produção de músicas interessantes. Mas precisamos começar a pensar que, finalmente, os consumidores começam a ter mais opções. Mais ainda: que estamos sendo mais respeitados, ainda que por uma ruptura dos padrões de mercado e não por inovação de quem já estava no comando.

Sempre falamos de queda de receitas de gravadoras; de selos e lojas fechando, etc. Mas quase nunca comentamos a partir da ótica dos fãs: de como éramos desrespeitados. Muitas vezes fomos obrigados a comprar um disco só por 3 ou 4 faixas (e olhe lá). Ou tínhamos que comprar discos com trabalho artístico duvidoso, pois não ouvíamos antes. Éramos forçados, por falta de alternativa, a comprar produtos ruins – como vinis mais finos que caixa de pizza e caixas de plástico com poucos atrativos – os CDs. Ficávamos na mão de gravadoras que não relançavam discos fora de catálogo – ou de piratas que relançavam “versões alternativas” caras. Era difícil e caro achar álbuns raros. Era penoso achar alguns discos que, por pouco apelo de vendas, eram comercializados em raríssimas lojas. Precisávamos esperar dias, às vezes meses, por um disco novo – seja por problemas de distribuição ou porque as gravadoras atrasavam lançamentos em alguns países. Ou seja: tínhamos restrições absurdas de compra. Agora, em poucos cliques, podemos ouvir músicas que só sonhávamos outrora.

Muito se fala, também, sobre a relação escassez x abundância: o excesso de músicas disponíveis, hoje, supostamente tiraria o valor da música. Não é uma abordagem inválida. Porém, mantendo essa linha de raciocínio, poderíamos afirmar que no formato anterior da indústria havia um excesso de escassez (dicotomia de linguagem proposital): tínhamos à disposição apenas os discos mais “vendáveis” e apenas em um formato fechado – do álbum. Mais do que isso: além da escassez, era um panorama de forte restrição: ou compre o álbum, ou não tenha nada. A primeira quebra desse paradigma veio, claro, com o Napster. Embora eticamente bastante duvidoso, o formato de compartilhamento de arquivos trucidou o formato álbum como padrão único e imutável: podíamos achar só as músicas que queríamos. E, mais, poderíamos – como podemos, agora – conhecer artistas e álbuns sem precisar compra-los. E é assim que os geeks musicais se comportam: não queremos comprar tudo, muitas vezes queremos apenas conhecer. Querer ouvir algumas poucas vezes, mas não precisar ter em casa. No formato anterior da indústria, isso não era possível.

O streaming é, ainda, um misto de mix tape com rádio, MTV e loja de discos: você pode ir conhecendo, tateando novos estilos ou pesquisando artistas novos. Muitas das músicas que ouvimos tem prazo de validade: ouvimos algumas vezes, ou durante uma época, e depois deixamos de lado. Para boa parte de nossas audições, não precisamos possuir nada. Necessitamos, apenas, de algumas audições. Assim nasceram muitas das “mix tapes” nas saudosas (mentira, não são saudosas) fitas k7: uma coleção de músicas que representava uma fase. Ou uma coletânea de músicas de audição eventual, que não compensavam a aquisição de um disco. E, no fim das contas, com a volta dos vinis, com a continuidade dos CDs – ainda que ambos em nichos – e as ofertas de streaming, temos o melhor dos cenários para quem é obcecado por música. Resumindo em uma frase: se o streaming ainda é duvidoso para músicos, é um paraíso para nós, geeks musicais.

5 Responses to “Streaming sob a ótica Geek Musical”

  1. Hoje somos imensamente privilegiados com a oportunidade de ouvir praticamente tudo o que quisermos. A situação nunca foi tão boa para os ouvintes, mas a maioria, presa numa nostalgia cega, não valoriza. Vive numa amargura sem fundamento. Raramente eu vejo alguém comemorando as vantagens de hoje, porque as pessoas só sabem reclamar de tudo relativo ao presente e idealizar o passado. A verdade é que o modelo antigo não prestava, era extremamente restritivo e limitado. A música não chegava até nós.

  2. André disse:

    Só reclama da remuneração os artistas grandes, que sempre fizeram música com o mesmo “valor de troca” de sempre e presos às burocracias de grandes gravadoras (por isso o argumento do Tidal no lançamento – ao botar Beyoncé, Madonna e Jack White num mesmo palco pra dizer q “agora eles serão devidamente remunerados” – foi meio vergonha alheia. É o mesmíssimo cenário de quando o Metallica chiou do Napster). Os independentes tão é feliz da vida com tanto canal disponível para mostrarem as caras ao lado dos grandes. É o mesmo q ta acontecendo com o cinema e com a cultura pop como um todo. Perde-se o valor de posse, ganha-se o de acesso. Consegue se dar bem nesse cenário os artistas que conseguem oferecer um valor agregado ao q produzem, com shows, videos, relacionamento direto com o seu público.
    O que me preocupa desse cenário (e da tecnologia em geral) é a centralização desse acesso nas mãos de poucos. Um Netflix ou Spotify parecem um oásis de conteúdo, mas ainda operam através de acordos com as distribuidoras que funcionam à moda antiga – baseada em pagamento de royalties/direitos autorais e isso, paradoxalmente, limita o nosso acesso. Apenas temos a falsa ilusão de q, através deles, temos acesso a tudo (perdi as contas de quantos discos não acho no Spotify). E isso ainda é um sistema muito retrógrado. Doa a quem doer, direitos autorais são um empecilho à evolução tenológica e à democratização da informação, e é questão de tempo até q ele deixe de existir por completo. Tanto q o Netflix tá entrando com tudo em conteúdo exclusivo e aos poucos largando essa coisa de ‘filmes dos outros’ pra lá.

  3. “Artistas” milionários que vivem reclamando por não serem pagos são uma desgraça para a humanidade. Não sei como alguém consegue se tornar tão mimado, ganancioso e fora da realidade, a ponto de se achar vítima da sociedade por não ganhar mais milhões do que já ganha.

    Sobre direitos autorais eu também concordo. Além dos álbuns que a gente não encontra no Spotify, e não são poucos, a gente passa pela situação de perder um álbum que vinha ouvido. Ele simplesmente desaparece. Fora que os serviços de streaming vivem estrangulados com pagamentos de royalties, que mal chegam aos artistas, ficam nas gravadoras. Realmente precisamos ir mais longe no rompimento com o modelo anterior.

  4. Diogo Salles disse:

    Concordo com tudo o que foi dito aqui, mas discordo em relação ao direito autoral. Vejam, eu lancei um livro de charges, portanto eu e a editora detemos os direitos sobre a obra. E se algum gaiato pegar uma charge para fazer proselitismo em seu blog/rede social? Não pensem que isso é raro, porque não é.

    Quando eu trabalhava no JT, o que tinha de gente canibalizando os meus posts era uma barbaridade. Sou a favor da abertura de conteúdo online sem restrições, mas esse canibalismo trabalha contra a abertura. Eu sempre libero meus trabalhos para repostagem, mas desde que sem alterações e sempre citando a fonte. O problema é que a galera ou é escrota ou é sem noção.

    Imagina no seu caso, André, que tem o projeto Cellardoor: e se aparecer um zé mané qualquer, montar uma banda chamada Cellarwindow e começar a te plagiar descaradamente? Entende o problema? Esse buraco é bem mais embaixo.

    O problema não é o direito autoral em si, mas sim os intermediários que existem entre o autor e o público.

    Enfim, é um bom debate.

    abs a todos
    Diogo

  5. Os direitos autorais deveriam servir para oferecer alguma proteção aos autores, ao mesmo tempo permitindo que o público tenha acesso ao conteúdo. Mas o processo se torna tão burocrático, caro e engessado, que o conteúdo pode ficar praticamente inacessível. Ou, por causa da internet, ficar facilmente acessível apenas por vias ilegais, em que não há respeito algum pelos direitos que as regras rígidas pretendiam proteger em primeiro lugar.

    No caso da música, as regras nem foram criadas pelo bem dos artistas, e sim das gravadoras, que fizeram e fazem lobby para aprovação de leis favoráveis aos seus interesses. Por isso algo precisa mudar. Não necessariamente acabar com direitos autorais, mas flexibilizar de alguma forma, tornar o processo mais inteligente. Porque usuário de streaming baixando música de graça por estar indisponível no serviço, graças aos direitos autorais, é contraproducente para o próprio artista. É ruim também para o público que quer consumir o conteúdo legalmente e acaba sendo prejudicando.