‘Com o Yes, minhas prioridades mudaram’, diz Billy Sherwood

Billy Sherwood é aquele tipo de músico difícil de definir. Compositor, vocalista, guitarrista, baixista, produtor, engenheiro de som… são tantas facetas, tantas bandas, tantos projetos musicais e tantos discos que, para não confundir o leitor, convém ir direto ao ponto principal. Sherwood teve uma passagem importante pelo Yes nos anos 90 e agora retornou à banda diante de uma circunstância trágica. Se em toda a carreira do Yes, Rick Wakeman era sempre o primeiro a pular fora do barco quando as coisas não iam bem, Chris Squire era sempre o último. Não entregou as armas nem mesmo quando a banda foi dada como encerrada em 1980. Ele só deixaria de acreditar no Yes no dia em que estivesse morto. E esse dia chegou em junho de 2015. Porém, antes de partir, Squire teve tempo de apontar seu sucessor. Assim, aos 50 anos, Billy Sherwood assumiu o posto de seu ídolo-mestre-amigo e tornou esta a nova missão de sua vida. Os fãs valorizaram o gesto, entendendo que era a escolha óbvia dentro da “Family Tree” do Yes. Fez tanto sentido quanto ver Jason Bonham assumindo o lugar do pai no Led Zeppelin.

No dia 7 de agosto de 2015, pela primeira vez em 47 anos de história, o Yes subiu ao palco sem o seu fundador. Nesta nova turnê, o show começa com o famoso baixo Rickenbacker de Squire sozinho no palco sob um feixe de luz. Ao som de “Onward”, fotos do baixista repassam sua vida no telão, levando o público do delírio às lágrimas. Está dada a senha para mais um noite de Yes Music. Endorser da marca Spector, Sherwood não chega perto do Rickenbacker, não apenas por reverência, mas também por questão de gosto. “Acredite ou não, por mais fã de Squire que eu seja, nunca me senti confortável tocando com o Rickenbacker, por uma questão ergonômica”, diz ele.

Não vai ter Rickenbacker, mas vai ter Yes — e por um bom tempo. Quem garante isso é o novo-velho membro da banda. Em entrevista exclusiva ao Geek Musical, Billy Sherwood falou de de sua carreira, de seus últimos momentos ao lado de Squire e de seu passado e futuro no Yes.

Eu li isso outro dia num fórum no Facebook: “Billy Sherwood não é o homem certo para assumir o lugar do Squire. Ele é o único homem para assumir o lugar do Squire.” A que você atribui essa recepção tão calorosa dos fãs?
Eu acho que o fato de que o Chris ter me entregado pessoalmente sua posição soou verdadeiro para os fãs. Chris sabia que eu era um fã incondicional e que meus sentimentos eram os melhores em relação ao Yes. Esse espírito transcendeu para os fãs. Estou honrado e surpreso com as boas vibrações que estou recebendo.

Squire é uma influência tão enraizada no seu estilo de tocar que parece que os fãs não aceitarão outro baixista na banda. Isso vai influenciar sua decisão de se tornar ou não um membro permanente da banda?
Assim que Chris me fez esse pedido, minhas prioridades mudaram. Eu tenho muita coisa acontecendo na minha carreira, trabalhando com vários músicos diferentes mas, de novo, o Yes sempre foi a minha paixão por toda a vida. Antes de eu conhecê-los, durante o tempo em que fui um membro, depois que deixei a banda e agora em meu retorno. Então, para mim essa decisão já está tomada. A menos que haja algo que os caras não estejam me dizendo, eu continuo aqui (risos).

Como foi seu contato com Squire depois de saber sobre sua saúde? Sobre o que vocês falaram nos últimos dias? Ele disse algum tipo de adeus na última ligação?
Chris permaneceu otimista durante toda sua luta contra o câncer. E esse otimismo era sempre focado no Yes, na música e nos fãs. Falamos muito sobre o futuro da banda. Ele foi inflexível sobre a continuidade e a prosperidade do Yes. Nenhum de nós jamais esperava perdê-lo, mas a realidade da situação foi terrível. Eu acho que, olhando em retrospecto, eu estava em negação, e Chris estava apenas encarando seu destino de frente. Nós nunca chegamos a dizer “adeus” um ao outro porque não achávamos que o fim estava tão próximo. Eu falei com ele uma semana antes de morrer e ele estava de ótimo humor. Dias depois recebi uma mensagem dizendo que ele tinha poucos dias de vida. Não houve tempo para o adeus, da forma como aconteceu.

Qual é o maior desafio nesta turnê para você, do ponto de vista do músico? Que música você aponta como seu “momento Chris Squire” favorito no show?
Para mim, “Going For The One”. Ainda estou encontrando a melhor maneira de tocá-la. Tocar essas linhas de baixo e cantar ao mesmo tempo é um grande desafio. Como sempre gostei de desafios, estou achando ótimo.

Alguns fãs têm dito que a banda tem tocando as músicas em um andamento mais lento nos últimos anos. Você sentiu alguma diferença em relação aos anos 90?
Nós abordamos essa questão do tempo nos ensaios e acertamos tudo. Há uma grande energia acontecendo no palco. Alan está tocando muito bem, a banda soa excelente, os grooves, tudo está onde deveria estar.

Voltando ao seu início no Yes, houve rumores de que você iria substituir Jon Anderson em 1990. O que aconteceu naquela época? E como você se juntou oficialmente à banda, mais tarde, em 1997?
Foi quando que eu conheci os caras. Eles estavam testando vocalistas nessa época porque Jon estava com o ABWH. Todo mundo queria que eu fosse o novo vocalista. A banda, os advogados, os managers. O único que não queria era eu (risos). Entrei como membro permanente em virtude da gravação de Open Your Eyes, que ocorreu no meu estúdio em Los Angeles. Quando o registro foi concluído, todo mundo olhou para mim e disse: “bem, acho que você está nessa com a gente.”


O novo Yes, da esq. para a dir.: Billy Sherwood, Jon Davison, Steve Howe, Alan White e Geoff Downes

Open Your Eyes é visto hoje como “O álbum Billy Sherwood” na discografia do Yes. É verdade que este era para ser um álbum do Conspiracy? O que aconteceu naquela época e por que você deixou a banda após a turnê The Ladder?
Essa lenda ainda circula muito, mas isso não é verdade. A única canção que veio de Chris e eu como Conspiracy foi a faixa-título. Todo o resto foi composto no estúdio naquele período de tempo e todos participaram na elaboração do álbum. Deixei a banda por várias razões. Principalmente porque, na época, eu sentia que eu já tinha feito tudo que podia para ajudar a banda e eles estavam claramente indo para outra direção, retomando um formato clássico de tocar ao vivo. Eu estava interessado em procurar coisas novas, então aquele parecia ser o momento certo para sair e voltar para o meu mundo, que é o estúdio.

Você está lançando um novo álbum solo chamado Archived e outro de parcerias, chamado Citizen, que foi o último registro de Chris Squire em estúdio. Conte-nos sobre esses lançamentos.
Em Archived toquei todos os instrumentos e gravei todos os vocais. O disco estará disponível em meu site muito em breve. Já o Citizen traz uma série de músicos convidados e tem o último overdub que fiz do Chris. Nunca imaginei que fosse dizer isso, mas é verdade: ao mesmo tempo que é uma honra incrível, isso me deixa muito triste. É a história da minha vida ali.

O Circa soa como uma sequência para o seu trabalho no Yes, no World Trade e no Conspiracy. Como funciona essa parceria com Tony Kaye no processo criativo e quando o próximo álbum será lançado?
Tony Kaye e eu temos uma longa história juntos. É uma relação simbiótica musical natural, muito além da amizade. É claro que há similaridades com o Yes, dado o nosso passado musical, mas isso nunca foi programado. Nós apenas vamos compondo as músicas e elas têm um apelo que remete ao Yes. Dito isso, o Circa lançou grandes álbuns e nós teremos um novo lançamento no próximo ano chamado Silent Resolve. Será bem “proggy”, com apenas quatro músicas em todo o álbum. Os fãs vão ficar muito satisfeitos. Acho que qualquer pessoa que ama rock progressivo vai gostar. E o fato de eu ter voltado ao Yes não significa que o Circa vai parar. Estamos muitos animados com o futuro.

Para fechar: você considera gravar um novo álbum com o Yes após a turnê europeia em 2016?
Eu estou aqui, banda parece feliz, de modo que a resposta à sua pergunta, em uma palavra — e com o perdão do trocadilho —, é “YES”!!!!!

* agradecimento: Omar Fares

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Chris Squire (* 4/3/1948 – † 27/6/2015)

Ouça os Tungcast’s Yes
Vol.1 – 1968-1980
Vol.2 – 1983-2015

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