Por que tanta restrição com quem ganha dinheiro com música?

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Uma das coisas que eu mais tenho dificuldade de entender é quando um músico é criticado por ganhar dinheiro com música – caso o trabalho não passe pelo crivo de “integridade artística” de meia dúzia de corneteiros. Pode parecer estranho e patético, mas esse tipo de reclamação ainda ocorre – e muito. E vem de longe: quando escrevi sobre o livro de Cesar Camargo Mariano – um dos melhores e mais íntegros artistas do país – citei que ele foi criticado quando ganhou dinheiro com publicidade. E, vejam, sequer foi por ganância: ele realmente precisava. E, mesmo assim, teve que ouvir reclamações diretas ou indiretas. Cesar não deixou de ser Cesar, ao contrário. Pelo menos deu ao desespero um respiro para continuar levando a vida com um pouco de tranquilidade. Depois das contas estabilizadas, pôde voltar a produzir artisticamente, nos entregando diversos grandes discos de lá até aqui. Só para citar um deles, Samambaia – ao lado de Helio Delmiro, um dos mais lendários discos de música instrumental, foi lançado alguns poucos anos depois desse imbróglio. Aqui temos a primeira dificuldade que os cínicos tem ao avaliar a situação de alguém que precisa gerar receitas pela música: Arte x Profissão.

Essa relação nem sempre é simples, mas uma coisa para mim fica muito clara: nunca podemos esquecer que quando alguém vive de música significa que essa é sua profissão. De novo: pode parecer ridículo destacar uma obviedade, mas há quem se esqueça disso. E se música é sua principal atividade remunerada, é daí que vem seu sustento. Dessa forma, nem sempre a arte vai prevalecer. Ou seja: se em determinado momento a criação pura e simples não paga as contas, os músicos precisam procurar alternativas. E elas podem ser publicidade, dar aulas, acompanhar artistas, montar bandas covers, etc. Há quem prefira ficar dependendo de editais relacionados a leis de incentivo à cultura. Como se isso desse uma “aura” de desapego. Mas a transação é a mesma: receber dinheiro em troca de um produto cultural. Enfim, é preciso lutar contra o decréscimo na conta corrente, algo que todos nós – incluindo os músicos – precisamos enfrentar.

Um caso recente e famoso foi do Tom Zé narrando um comercial de refrigerante. Por isso, ele foi achincalhado nas redes sociais e, dizem, acabou doando o valor recebido. Veja a que ponto pode chegar a toxina do cinismo: um artista de quase 80 anos, que levou sua vida e carreira dignamente, poderia receber um cachê por um trabalho – não foi doação, conchavo, muito menos roubo – e deixar sua vida um pouco mais tranquila. Tom Zé trabalhou a vida inteira à margem do mercado e com um conceito artístico crítico. Acho que ele adquiriu o direito de deturpar ligeiramente suas crenças para uma vida mais segura. O curioso é que Tom Zé foi, por toda a vida, qualquer coisa – menos vendido. Se expõe pouco, não está no oba-oba, não é de esquemas. Enquanto alguns de seus contemporâneos se apropriam da máquina cultural, se juntam numa turminha de protegidos e intocáveis, ele se mantém longe de tudo. E justo ele é condenado, enquanto os outros são aplaudidos a cada opinião proferida.

Artista e músicos não são deuses, nem resposta para os descaminhos da humanidade. Sim, têm importante papel para a sociedade, mas são trabalhadores como qualquer um de nós. Todo artista faz, constantemente, algum tipo de concessão. É ingenuidade ou desconhecimento achar o contrário. Pode ser fazer entrevistas duvidosas para conseguir divulgação, gravar num estúdio longe do ideal por falta de verba, tocar em locais com pouca estrutura porque é o que existe no momento, aceitar um contrato duvidoso num momento de baixa. E tantas outras. E tudo isso afeta seu conteúdo artístico. O artista que não faz nenhuma concessão morre de fome, ou melhor, mal nasce – porque ninguém vai conhece-lo. Claro: o que faz muitas, vira uma caricatura – mais próximo de um produto de consumo qualquer do que um artista de fato. Mas concessões, gostemos ou não, fazem parte da vida adulta.

Qual o problema em ganhar dinheiro com outras atividades senão o trabalho autoral? Qual é o erro de fato? Na verdade, nenhum. É apenas um conceito fraco, baseado em pura idealização, de meia dúzia de xereteiros, que estão longe da vida real do artista – não pagam suas contas e sabe-se lá se pagam por algum produto daqueles de quem reclamam.

Não há nada de deturpado em procurar outras formas de receitas no mercado da música. Errado é roubar. Condenável é ficar chorando as mágoas porque a vida é dura sem tomar nenhuma atitude. Duvidoso é se acomodar em leis de incentivo. Vergonha é o que deviam sentir as pessoas que no alto de sua ignorância arrogante acham errada uma mera transação comercial: dinheiro em troca de trabalho. Covardia é a de pessoas longe da realidade dos artistas, sentadas à frente de um computador, muitas vezes frustradas, sem nada a oferecer exigirem algo sob o duvidoso argumento de “integridade artística”. Além de hipocrisia: como se nas suas próprias vidas não fizessem concessões piores que aquelas de quem criticam.

De onde veio essa pureza inexorável da arte? Compositores clássicos criavam com frequência peças encomendadas; artistas desde sempre fizeram shows patrocinados, ou em casas patrocinadas. Os Beatles tocavam covers no início de carreira. Jimmy Page era músico de estúdio antes de fundar o Led Zeppelin. A relação gravadora-artista é e sempre foi puramente comercial. A compra de um CD ou de um ingresso show são transações comerciais como outras quaisquer. Leis de incentivo envolvem dinheiro e pressupõem patrocínio de uma empresa.

Esses conceitos de “pureza” artística se apoiam em preceitos rasos, preguiçosos e convenientes. Utopias às custas dos outros e distantes da realidade. Há quem viva passeando por nuvens imaginárias, achando que só o que vale na vida são ideias, conceitos. Isso acaba desvalorizando a realidade dos trabalhos, sempre muito mais crua e dura. E esse tipo de concepção, que está apenas na cabeça e não na vida real, pode ser uma vaidade que cega para as coisas mais simples. Sendo assim, a única conclusão que tiro da pergunta deste texto é a seguinte: é muito fácil ter ideologia com a vida dos outros.

One Response to “Por que tanta restrição com quem ganha dinheiro com música?”

  1. caio disse:

    Muito bom texto! triste em saber que num mundo como nosso precisa-se de dinheiro para sobreviver e ninguem valoriza, gasta, consome, soh idealiza a arte.