O que a morte de Chris Squire pode ensinar aos sertanejos

Existe uma frase, atribuída a Einstein, que diz o seguinte: “insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes”. Não há lugar no mundo que se encaixe melhor nessa definição do que o Brasil. A ignorância em relação à própria história assola nosso país em todas as esferas: política, cultural, futebolística, musical, religiosa, comportamental. Para citar um exemplo: aqui o mesmo sujeito que num dia levanta um cartaz contra a corrupção, no outro, tenta se livrar de pontos da carteira de motorista mediante a pagamento de terceiros. Na cabeça de nosso cidadão-médio, só é desonesto quem desvia dinheiro público de estatais.

Neste ultimo mês tivemos mais uma evidência de que o meio musical segue firme em sua insanidade coletiva. No final de junho, gerou perplexidade a repercussão da morte do sertanejo Cristiano Araújo. Não pela morte em si, mas pelo fato de Araújo ter recebido tratamento de herói nacional, como se fosse um Ayrton Senna. É fato que o sertanejo em questão não passava de um ilustre desconhecido fora de seu nicho, e Zeca Camargo destacou isso numa coluna do Jornal da Dez da Globo News.

Os desdobramentos seguiram a velha cartilha brasileira de clichês. Sertanejos reagiram a seu modo característico, com artistas viralizando protestinho engajadinho nas redes sociais, e com o fã-clube vomitando sua bile na cara de Zeca Camargo. O mal estar repercutiu nos corredores da Globo e o jornalista soltou uma nota pedindo desculpas pelo mal entendido. Até ali, tudo bem. Era apenas o Brasil sendo Brasil.

Acontece que vinte dias depois a suposta tese de Einstein foi subvertida, sinalizando uma mudança de ventos. Para pior, claro. A família de Cristiano Araújo entrou com um processo contra Zeca Camargo por danos morais e o ameaçou a “nunca mais emitir opiniões preconceituosas sobre a cultura e a música sertanejas, sob pena de multa de R$ 50 mil”. Para fechar, afirmam que o dinheiro que esperam arrancar do jornalista seja usado para criar o “Fundo de Apoio à Musica Sertaneja”, seja lá o que isso signifique.

Que os sertanejos nunca reagiram bem a críticas, já sabíamos. Que eles apelam para a demagogia barata e se escoram na muleta do preconceito, também já sabíamos. A novidade é que agora eles estão atacando seus críticos juridicamente e cerceando opiniões. Sim: cerceamento, censura, ou como queira chamar. O que eles estão fazendo agora é tão contra a liberdade de expressão quanto os coronéis da MPB exigindo autorização para biografá-los.

Analisemos as palavras de Zeca Camargo, para tentar encontrar as tais ofensas reclamadas pelos sertanejos: 1) há alguma mentira em afirmar que Cristiano Araújo é “ao mesmo tempo tão famoso e tão desconhecido”?; 2) há alguma dúvida de que “de uma hora para outra, fãs e pessoas que não faziam ideia de quem era Cristiano Araújo partiram para o abraço coletivo, já que funerais públicos tem algo purificador”?; 3) há alguma ofensa em comparar os novos ídolos sertanejos à “modinha” dos livros de colorir e que estes “são fenômenos que empobrecem a cultura brasileira”? Qualquer leigo pode perceber que os advogados da família Araújo terão sérias dificuldades em provar a acusação de danos morais.

Numa infeliz coincidência, três dias depois da morte do sertanejo, Chris Squire pôs o universo do rock de luto ao sucumbir à leucemia. Então vamos propor um exercício aqui: e se a mídia brasileira fizesse uma cobertura espetacularizada e sensacionalista da morte de Squire? Seria plausível que os sertanejos se perguntassem “quem era esse tal de Squire”? Seria possível dizer que muitas pessoas que nunca ouviram Yes na vida partissem para um abraço coletivo em homenagem ao baixista? Seria ofensivo dizer que o rock progressivo era só uma modinha dos anos 70 e que é um fenômeno distante da cultura brasileira? Ok, perguntas retóricas. Eis a grande questão: faria algum sentido a família de Squire ou mesmo um fã de Yes processar alguém por dizer essas palavras? Fica aí a reflexão.

O que é arte, num sentido mais amplo? É inspirar, provocar sensações, reações e reflexões nas pessoas. As artes mais transgressoras tentam nos mostrar a vida sob uma perspectiva diferente, ampliando ou alternando os sentidos. A riqueza cultural da música sertaneja ficou para trás, nas raízes e realidades do Brasil Profundo, na sonoridade da viola caipira. Quando o sertanejo se fundiu à música pop, na virada dos anos 80/90, se tornou um gênero pasteurizado, venal e pobre tanto lírica, quanto musicalmente. A degradação final aconteceu através da infantilização do “universitário” e de derivações torpes, como o “tech-nejo”.

Zeca Camargo não ofendeu ninguém. Apenas expôs os sertanejos à dura realidade e confirmou que o ranço autoritário de nossa classe artística não conhece limites. E isso tudo, claro, sob a conivência e covardia dos bacharéis da inteligentsia que, amedrontados pelo politicamente correto, não se deram nem ao trabalho de estender a mão ao colega jornalista (honestidade intelectual: a gente não vê por aqui).

O fato é que a nossa insanidade coletiva está perigosamente perto de um ponto de involução, onde o simples ato de criticar a música sertaneja pode se tornar crime. Independente do que aconteça, aqui do lado geek musical da força, repudiamos qualquer tentativa de cerceamento de opinião, continuamos a lamentar a ausência de Chris Squire e, principalmente, nos damos o direito de continuar não sabendo quem é Cristiano Araújo.

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14 Responses to “O que a morte de Chris Squire pode ensinar aos sertanejos”

  1. Ricardo Petrone disse:

    Tocou bem no ponto. Saiu somente uma chamada de alguns segundos no Fantastico e só… Lamentalvel!

  2. Diogo
    Ótimo texto!
    Parabéns!

  3. Sérgio Nogueira disse:

    E só saiu porque o Yes participou do Rock In Rio no qual a Globo tinha um largo envolvimento. Essa participação foi destacada na rapidíssima notícia sobre a passagem de Chris Squire.

  4. mauricio disse:

    As palavras certas para um sentimento de muitas pessoas.

    Na realidade é possível ” fazer um artista ” , vamos promover as artes, creio assim teremos chance de contar com mais mentes pensantes
    Abraço.

    parabéns texto bem legal

  5. Breno Rupf disse:

    cara, que texto!! meus parabéns!

  6. Seu texto possui muitas virtudes. Quando o debate é musical, deveria ser a musica democrática, deveria todos os artistas se submeter naturalmente a aplausos ou vaias. Opinar é um direito e a replica a este direito uma consequência. A trágica morte de ambos artistas talvez tenha sido um momento inoportuno de se expressar, uma vez que cada um sentirá a dor de forma passional e não racional. Quanto ao zeca… acho que não se brilha o ouro tirando o brilho da prata. Eu diria, que foi indelicado o assunto sob um funeral. As palavras dele faria melhor sentido fora do cortejo. Porque como diz o sabio, não é o que você fala, mas o que o outro entende.

  7. Paty disse:

    Rs …. Os sertanejos não se ofendem com pouca coisa, afinal esse texto enorme prova isso(sem alardes por aqui) .. A indignação com Zeca Camargo é pelo fato dele ser reporter , portanto não pode ter opiniões vazias assim como a sua, afinal uma pessoa que viaja por todo mundo, não pode dizer as coisas q disse, e não é pq estão tirando o direito dele se expressar da forma que queira, e sim pq ele tem obrigacaaaoo de ser bem informado. Se ele não gosta do estilo ou algo parecido, OK, mas o que nos não entendemos,é pq as pessoas tem tanto problema com artista que prezam pela família e o RESPEITO, talvez se ele fosse um viciado como os ídolos dele ( assim citou na sua liberdade de expressão rs) teria mais valor … Um formador de opinião não pode se dar ao luxo de viver numa bolha. Nós, pessoas comuns, podemos nos restringir aquele ou aquele outro mundo. Se morre um ídolo do rock (q eu não conheça) obviamente perderia algumas horas do meu tempo investigando o pq daquela comoção e multidão. Mas se ao invez disso, eu como profissional, gravo um video falando tamanha asneira ( ofendendo quem é fã), vou me retratar,erro o nome rs, ultrapassa o limite do absurdo, o limite da falta de RESPEITO…

    Muito ajuda quem pouco atrapalha
    Zeca rasga seu diploma, ou volte a oferecer dinheiro pra quem come olho de cabra.

  8. Renato BT disse:

    Parabéns pelo excelente texto Diego! Até que enfim li (lemos) um texto com valores reais! Obrigado!

  9. NoMeansNo disse:

    Não dou a mínima para o Camargo. Esse sujeito não significa absolutamente nada pra mim assim como o tal fulano sertanejo que morreu. Só que assim mesmo meu conselho seria para o tal Camargo parar de jogar pérola pra porco. Evidenciar qualquer coisa que deve ser de fato evidenciada nesse pseudo país de gente estúpida é o mesmo que isso: jogar pérola pra porco. Aliás, um pouco pior. Porcos não falam merda, não processam e nem são tão estúpidos quanto gente no geral. E ainda são bem mais úteis, obviamente. A propósito: ninguém achou mesmo que “alguém iria dar moral” (atenção para as aspas pelo amor de Deus…) para a morte do Squire, né?!? Né possível…

  10. Daniel disse:

    Quanto ao processo, não é necessário estranhar: da mesma forma que numa democracia a livre opinião é importante, o poder judiciário deve deixar as portas abertas para a livre apreciação de qualquer lesão oi ameaça de direito.

    Portanto, não tem nada de mais os familiares entrarem na via judicial, já que ele está sempre aberto para atender quem bate às portas.

  11. Helder disse:

    Acho uma tolice tudo isso, cristiano araujo, squire os dois foram exelentes musicos e com certeza a musica perde muito com a morte deles, , só não aceito uma minoria de pessoas que se dizem roqueiros, acharem que sao donos da verdade, que sao deixado de lado pela sociedade isso e besteira , cristoano araujo pra mim foi um talento nato dessa geração de sertanejos assim como squire tbm so que vcs diveriam aprender oq e realmente música nao se focarem em apenas um estilo musical pois no meio sertanejo muitos gostam de rock axe pagode musica e isso, parem de querer conparar sobre quem foi ou quem nao foi viva a música como um todo e pra alguns idiotas que se acham melhor do as outras pessoas pro conta de um estilo musical so tenho uma coisa a dizer aprendam a conversa oq e a musica bando de leigos…

  12. arinan vaz disse:

    sou goiano e não fazia a menor ideia de quem e o ilustre falecido(cristiano não sei das quantas).

  13. julio cesar disse:

    Texto maravilhoso, falou a verdade nua e crua!