Hendrix Hits London: por dentro da exposição

Qualquer pessoa que já leu sobre Jimi Hendrix conhece a história: Chas Chandler (baixista do Animals) o vê num show nos EUA e resolve levá-lo para passar uma temporada em Londres. Afinal, era lá que estava a vanguarda musical dos anos 60 e Hendrix poderia fazer uma imersão na cultura londrina. Todos sabemos o resultado final dessa jornada, ocorrida entre setembro de 1966 a junho de 1967: Hendrix ganharia o mundo e se tornaria o guitarrista mais revolucionário da historia do rock. Mas o que aconteceu nesses nove meses em Londres?

Esse foi o mote da exposição Hear My Train A Comin’ – Hendrix Hits London, que passa por São Paulo. Retratar não só o período, tão crucial na carreira do gênio da guitarra, mas também resgatar a memorabilia e os fatos históricos que ajudaram a moldá-lo para o sucesso. O preço do ingresso pareceu salgado a princípio, mas o resultado não decepcionou. Além de itens raros e objetos de culto dos fãs, há todo um trabalho de curadoria, produção e iluminação que fazem jus ao investimento.

Como a exposição é visual — e estamos a poucos dias do encerramento —, vou tentar mostrar um pouco do que vi, separando por assunto.

Os compactos e álbuns de Hendrix

Aqui podemos ver as várias versões do compacto “Hey Joe”, que foi lançado em 16 de dezembro de 1966 e levou cerca de dois meses para estourar. Já “Purple Haze”, lançada em março do ano seguinte, estourou em apenas seis dias e alcançou a terceira posição. À esquerda, temos as duas versões (inglesa e americana) da capa do primeiro álbum Are You Experienced, que seria lançado no Reino Unido em maio de 1967.

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As roupas

Na seção “Hendrix Jackets”, podemos ver algumas de suas extravagantes vestimentas. À esquerda e ao centro, temos algumas dessas roupas, que foram feitas sob medida. À direita, temos a curiosa “Map Jacket”, usada por Mitch Mitchell nos primeiros shows do Experience.

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Os equipamentos

Para quem gosta de equipamentos, chamam atenção os pedais de Hendrix, como o Octavio, o Fuzz Face e o seu inconfundível Vox-Wah, usados entre 1967 e 68. Além disso, temos a radiola comprada por Mitch Mitchell e instrumentos originais do Experience, como o Fender Jazz Bass e o amplificador Sunn 2000S de Noel Redding.

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A formação musical

Aos musicólogos que se perguntavam quais discos Hendrix mais gostava de ouvir, a seção com a coleção pessoal do músico traz algumas respostas. Blues, rock, folk, jazz, R&B e até clássico. Aqui temos amostras de Muddy Waters, Cream, Johnny Cash, Beatles, The Mothers of Invention, Albert King, Elmore James e o guru de George Harrison, o indiano Ravi Shankar. Mas o ouvido de Hendrix também ia atrás de gente como Jimmy Reed, Chet Atkins, B.B.King, Howlin’ Wolf, Eddie Cochran e, principalmente, Bob Dylan.

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Os encontros

Uma das missões de Chas Chandler nesse período era colocar Hendrix dentro do circuito artístico londrino, onde ele pôde conhecer a “nata” musical e se tornar conhecido. À esquerda, com o baixista Noel Redding, pouco depois de se juntar ao Experience, e à direita, os encontros com Brian Jones (foto acima) e Eric Clapton (Hendrix fez uma jam com o Cream de deixou todos perplexos).

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Documentário e audiovisual

Por todas as seções temos tablets onde pode-se navegar pelos acontecimentos da vida do músico, com matérias de jornal, vídeos com depoimentos e shows. Ao fundo, uma sala decorada ao estilo “Flower Power”, onde um documentário legendado passa em loop. Mais para frente, o “Mixing Interaction”, onde o público podia ouvir uma música isolando os instrumentos e vozes por meio de um mixer.

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O que disseram dele na imprensa

Pelas matérias destacadas nos murais, percebe-se como a simples presença de Hendrix deixava os fãs eletrificados, a imprensa embasbacada e os outros músicos aturdidos. Entre tantos exemplos, fiquemos com essa matéria cujo título são as aspas de Eric Clapton: “Estão todos obcecados com Hendrix”. Desperta curiosidade o fato de o Cream à época estar gravando o clássico Disraeli Gears. Dentro da matéria, Clapton continua: “Estar neste país neste momento tem me deixado para baixo. Se qualquer pessoa ousar tocar um fraseado blues, será acusado de copiar Jimi Hendrix.”

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A guitarra de Woodstock

Este, obviamente, era o item mais cobiçado de toda a exposição. A guitarra que Hendrix usou no dia 18 de agosto de 1969, no festival de Woodstock. Com toda a simbologia que esse instrumento carrega, tive de aguardar alguns minutos até que pudesse me aproximar e observar todas a marcas em sua pintura e madeira do braço. Uma relíquia de valor incalculável.

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Timeline e o mapa do Reino Unido

Nesta ala, pode-se fazer um estudo geográfico dos lugares no mapa do Reino Unido onde Hendrix fez mais de 120 shows ao longo do período em que lá esteve, com cada show devidamente datado. Logo ao lado, ocupando toda a parede, uma timeline completa de sua trajetória, dividida em blocos e traçando uma linha paralela com fatos históricos do mundo.

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A guitarra da despedida

Segundo a descrição, Hendrix pintou esta guitarra em 4 de junho de 1967, para comemorar seu último show em Londres, antes de partir para o Monterey Pop. Na parte de trás, ele pintou um poema tirado da letra de “Love or Confusion”, em uma alusão à sua guitarra como um sacrifício de amor.

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A volta para casa

O lendário show no Monterey Pop, Califórnia, em 18 de junho de 1967 seria um divisor de águas para Hendrix, pois se situa historicamente entre sua estadia em Londres e o estouro comercial nos EUA. A partir desse dia, o mundo musical seria outro. O único pedaço que restou da guitarra incendiada e destruída nesse show é sem dúvida o item que mais me emocionou em toda a exposição. Afinal, a primeira vez que vi Jimi Hendrix na vida aconteceu 24 anos depois, num especial sobre o Monterey Pop na TV.

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