Chris Squire (* 4/3/1948 – † 27/6/2015)

Assim que foi anunciada a morte de Chris Squire, meu primeiro impulso foi escrever sobre o quanto ele foi inovador e influente na cena musical. Depois, pensei em discorrer sobre os seus discos clássicos e suas linhas de baixo mais famosas. Mas não tive forças. Melhor assim. Teria sido um texto absolutamente redundante. Qualquer musicólogo mais versado está farto de saber da importância de Squire no mundo musical e na cena prog. O fato é que desde que Ronnie James Dio nos deixou, eu não me sentia tão triste pela morte de um músico.

Dez dias depois, já refeito do baque, estou aqui para falar da importância que Christopher Russell Edward Squire teve na minha vida de geek musical. Afinal, é disso que se trata este site desde que foi lançado. Música é, acima de tudo, memória afetiva. E para mim o Yes é seminal nesse aspecto, porque foi o primeiro grande show que testemunhei. No dia 16 de setembro de 1994 meu mundo seria outro após ver os mestres do prog porem o velho Olympia abaixo. Claro que, aos 18 anos, eu estava numa idade impressionável, mas ainda hoje, vendo os vídeos dessa turnê, percebo o quanto esse show foi crucial na minha formação musical.

Por anos, lamentei que Talk (disco e turnê) não tenham recebido a atenção que mereciam. Seguindo a velha tradição do Yes, é um disco extremamente difícil de se reproduzir ao vivo. Não apenas pela questão tecnológica, que era inovadora para a época, mas também pelos arranjos e harmonias vocais. Por isso não tive nenhuma dúvida ao incluir esse álbum no especial “Discos subestimados” aqui no Tungcast. Essa fase em que Trevor Rabin esteve na banda pode até ter perdido aquele caráter sinfônico que fez a fama da banda nos anos 70, mas ganhou outras qualidades. A maior delas, penso, foi no aspecto vocal. É nítida a influência dos Beatles e dos Beach Boys nessa técnica de usar vozes como instrumentos, mas o Yes a elevou a outro patamar.

Voltando ao show de 1994, além de ser a primeira vez que eu via meus ídolos em carne e osso, havia o fator novidade no ar. Por todo o setlist, desde a introdução instrumental de “Perpetual Change” até o medley “Roundabout/Purple Haze”, minha catarse foi absoluta. A presença de palco de todos me impressionou, mas Squire tinha algo de intimidador. E provocador: em “Heart of the Sunrise”, ele demorou deliberadamente para entrar com a sua linha de baixo e recebeu do público todos os mimos a que tinha direito. Entre uma música e outra, lembro de vê-lo tomar pelo menos umas duas ou três doses de uísque caubói, sempre brindando à nossa saúde. Aprendi naquele dia que a Yes Music é, antes de tudo, uma grande celebração. E o meu souvenir dessa noite foi a camiseta da turnê, que guardo até hoje.

Desse dia em diante, aqueles caras que subiram ao palco seriam os meus heróis. E o Yes seria a banda que eu mais veria ao vivo. Cinco vezes, ao todo. Além de 1994, fui em dois shows da turnê de 1998 (Open Your Eyes), um na de 1999 (The Ladder) e outro agora em 2013. Adivinha quem estava no palco em todas essas ocasiões? Sim, além de Alan White, Squire foi o músico que mais vi tocar ao vivo.

A personalidade de Chris Squire pode ser vista sob vários ângulos. Com os fãs ele sempre foi muito simpático e atencioso. Fora desse universo, o que se sabia é que, além de bom de copo, ele possuía um senso de humor seco, sarcástico e sem rodeios. Entre os companheiros de banda, havia uma relação de profundo respeito. Jon Anderson, seu parceiro desde o dia 1, deu uma boa pista ao afirmar que Squire se dizia o Darth Vader para o seu Obiwan. Sugere um contraponto, criando aquela tensão, tão necessária às grandes parcerias da história do rock.

Com Steve Howe e Rick Wakeman a relação parecia ser mais profissional. Já Trevor Rabin disse em diferentes oportunidades o quanto Squire o fazia rir a ponto de doer a barriga. Era admirável a interação entre os dois no palco. Havia claramente uma relação de irmãos ali, e Rabin assumia sem constrangimentos o papel do caçula. Com Billy Sherwood ia além. Era uma relação paternal, de mestre-pupilo (há uma diferença de 17 anos entre os dois).

Passadas as condolências, uma tradição entre os fãs já foi reestabelecida: a dos boatos e especulações. Dessa vez o tema em pauta é o futuro do Yes. Antes de entrarmos nesse labirinto, convém dar uma olhada no post que Billy Sherwood escreveu em seu Facebook:

“Chris asked me at that point to step in and play with Yes while he dealt with his health issue. This was very difficult to hear… because I knew how heartbreaking it must have been for him to not be well enough to go out. I explained to him that because of my love for him and Yes music of course I would do it, but under the understanding that he would be returning to the band as soon as he had fully recovered. He agreed… (…)

Chris said to me, ‘play the music, be yourself and make me proud’. It’s my true desire now live up to his wishes. He will forever live on in my heart and I will miss him terribly.”

Muitos viram nessa mensagem a senha de uma nova vida para o Yes. Segundo essa interpretação, Squire teria apontado Billy Sherwood como seu sucessor definitivo e assim tudo se resolve facilmente. Na prática, todo mundo sabe que não é tão simples. Se existe algo que aprendemos sobre o Yes é que tudo nessa banda é extremamente complexo. Vai depender muito de como eles vão lidar com essa mudança. As turnês de 2015/16 já estão agendadas e devem transcorrer sem atropelos, pois Sherwood é um “team player” e já bem conhecido dos fãs. Mas seguir gravando discos e fazendo turnês de divulgação é outra história.

A saída de Jon Anderson já foi bastante traumática e deflagrou discussões fratricidas entre os fãs. Embora Jon Davison seja competente no palco, sua primeira aventura em estúdio não foi lá muito bem sucedida, mas há quem aposte que Sherwood possa dar um novo gás nas composições. O fato é que, sem Anderson — e agora sem Squire —, o núcleo original do Yes foi desfeito. Mais do que o homem que tomava todas as decisões e fazia essa máquina andar, Squire era a personificação de tudo o que o Yes representou até hoje. Steve Howe passa a ser agora o “dono da marca” e todas as decisões deverão passar pelo seu crivo (e ai de quem questionar).

Nesse sentido, o formato de turnês comemorativas e discos tocados na íntegra deve ser o caminho, pois é o que eles vêm fazendo nos últimos anos com relativo sucesso. A turnê americana em 2015 e a turnê europeia em 2016 servirão de termômetro para definir o futuro da banda. E mesmo que eles resolvam encerrar as atividades ao final dessa jornada, a Yes Music continua viva, pois todos os integrantes remanescentes possuem seus projetos paralelos e poderão tocar as músicas em seus próprios shows. Quanto a isso, os fãs podem ficar tranquilos.

Chris Squire não está mais entre nós e aquele Yes que conhecemos entra para a posteridade, mas a imagem que vou guardar para sempre é a que vi em todos os cinco shows em que estive — especialmente o de 21 anos atrás.

Obrigado por tudo, Big Fish.

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One Response to “Chris Squire (* 4/3/1948 – † 27/6/2015)”

  1. Vanderlei dos Reis disse:

    Concordo em genero, numero e grau!
    E viva Chris!
    Vamos eternizar o seu legado!
    Long Life Of Yes!