Top 5 – Discos polêmicos de Miles Davis

Todo artista ou banda possui aquilo que chamamos de “disco polêmico”, onde o artista (ou banda) ousou pisar num território proibido pelos fãs xiitas. Miles Davis não tinha um disco polêmico. Miles Davis era a polêmica. Durante sua carreira, colecionou rótulos lisonjeiros como “Picasso do Jazz”, “Rei do Cool” ou simplesmente “Lenda do Jazz”. Por outro lado, colecionou inimigos e desafetos, especialmente entre os puristas do jazz, por subverter a ordem. De minha parte, penso que existe música boa e ruim em praticamente todos os gêneros musicais. A diferença é puramente de abordagem, que pode ser venal, tosca e popularesca ou pode ser sofisticada, ousada ou simplesmente válida. Miles Davis se encaixa nesse segundo grupo. Conseguiu trazer uma abordagem interessante em todos gêneros que ousou entrar. Honestamente, não conheço nenhum artista que tenha levado tão a sério o conceito de “arte pela arte” — e para mim, só isso já é uma demonstração de coragem e caráter do ponto de vista artístico. Portanto, para horror dos puristas, enumero aqui minhas 5 polêmicas preferidas d’O Cara.

1) Bitches Brew (1969)

Miles Davis foi o responsável por três grandes revoluções no jazz. A primeira ocorreu em 1949, quando deflagrou o cool jazz com Birth of the Cool. A segunda (e maior) revolução ocorreu em 1959, ao introduzir o jazz modal no mítico Kind of Blue, considerado o melhor disco de todos os tempos (não só de jazz, caso perguntem). E, para manter a tradição, dez anos depois, influenciado pelo rock (especialmente por Jimi Hendrix e Sly & The Family Stone), Davis lançou sua terceira revolução sonora. E foi aí que as polêmicas começaram para valer. O então jovem Wynton Marsalis, notório purista do jazz, disse que Davis era “um velho tentando parecer jovem”. Davis não deixou barato, dizendo que Marsalis era “um jovem querendo parecer velho” Polêmicas à parte, o jazz-rock eletrificado e caótico de Bitches Brew seguia e ampliava a trilha aberta em In a Silent Way seis meses antes, se tornando um dos marcos inaugurais do que convencionou a chamar de fusion. Esteticamente, forçou todos os limites da improvisação e conseguiu se encaixar dentro do contexto libertário e lisérgico do final dos anos 60. A banda que Miles montou era um verdadeiro esquadrão, com Wayne Shorter no saxofone, Chick Corea no piano e John Mclaughlin na guitarra (este último citado entre os meus preferidos fora do espectro do rock), entre outros figurões.
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2) A Tribute To Jack Johnson (1971)

Também conhecido apenas como Jack Johnson, o conceito do disco é de servir de soundtrack para o filme em homenagem ao boxeador americano, o primeiro negro campeão dos pesos pesados no início do século e constante vítima de racismo. A proposta aqui era desenvolver dois temas e expandi-los ao limite da criatividade. John McLaughlin e Chick Corea agora ganhavam a companhia de Herbie Hancock e Billy Cobham, futuro baterista do Mahavisnu Orchestra. Com suas linhas de baixo marcadas em seus quase 27 minutos, “Right Off” mostrava que, além do rock, havia outra fonte de inspiração onde Miles Davis beberia pelos anos seguintes: o funk. Já “Yesternow” seguia por uma linha mais climática e misteriosa, mas não menos inspirada. O resultado geral é um disco menos difícil, menos áspero, mais suingado e agradável de ouvir do que Bitches Brew. Não foi tão bem sucedido comercialmente quanto o clássico de 1969 — talvez por não ter sido tão inovador —, mas rendeu algumas ótimas críticas. O tempo se encarregou do resto e hoje o disco é cultuado dentro e fora da indústria musical e cultural.
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3) Tutu (1986)

Em entrevista, o baixista Marcus Miller sintetizou em poucas palavras os sentimentos dúbios que esse disco despertou: “o curioso de Tutu é que foi um álbum onde as pessoas realmente tomaram partido. Ou diziam ‘cara, é genial, mudou a minha vida!’ ou ‘é a pior coisa que já ouvi na minha vida, você acabou com a carreira do Miles Davis!’ ” O fato é que Tutu faturou o Grammy de melhor performance instrumental e, décadas depois, é considerado por muitos um “Sketches of Spain pós-moderno”. Seguindo uma trilha mais soft rock, o disco foi trabalhando em cima de bases pré-programadas, muito em voga na época. Marcus Miller explica o making of: “eu programei e toquei todos os instrumentos em Tutu, menos um, que é exatamente o instrumento que define todo o disco: o trompete”. Com participação do percussionista Paulinho da Costa, começava ali também as homenagens de Miles a ícones anti-apartheid na África do Sul. O arcebispo Desmond Tutu serviu de inspiração para o título do álbum e “Full Nelson” era uma homenagem a Mandela. Apesar de toda a estética datada, Miles mais uma vez mostrava que sabia encaixar notas em cima de qualquer tipo de som e provava que sua arte transcendia qualquer gênero musical.
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4) You’re Under Arrest (1985)

Introdução de Miles à sua fase new wave, multicolorida, arranjos pop e loops de bateria. Ele já tinha insinuado esse caminho em Decoy (1984), mas ali a base do som era de levadas funkeadas de baixo. Aqui a intenção era enveredar para o pop sem olhar para trás. As versões de “Human Nature”, de Michael Jackson e de “Time After Time”, de Cindi Lauper, reforçam essas intenções, aproximando Miles do mainstream. A faixa de abertura “One Phone Call/ Street Scenes” é a deixa, com vozes de prisão gravadas em diferentes línguas (na versão em francês a voz é de ninguém menos que Sting). Mas o que dá o tom dessa nova fase de Miles é o medley “MD 1/ Something’s On Your Mind/ MD 2″, onde a base da música é construída em teclados climáticos. E temos “Ms. Morrisine”, carregada daqueles sintetizadores que definem a expressão “o som dos anos 80”. O resultado era esperado: foi apedrejado sem dó pelos críticos, jazzófilos e puristas que, claro, consideraram o álbum um insulto.
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5) Doo-bop (1992)

Depois de fundir o jazz com rock, com o funk, com o R&B, com o pop e até com o new wave, o que restava? O hip-hop. Mas os vocais falados gritados, cheios de palavrões gírias e as bases simplórias em loop seriam uma barreira para Miles Davis? De modo algum. Esta acabaria sendo a ultima incursão de Miles na polêmica e também no estúdio. A parceria com o rapper e produtor Easy Mo Bee ainda estava se construindo, quando a lenda do jazz morreu em 28 de setembro de 1991 aos 65 anos. Doo-Bop foi lançado no ano seguinte e, apesar de soar claramente inacabado, tem momentos interessantes e arrebanhou mais um Grammy, dessa vez de melhor performance instrumental de R&B. Destaquei-o no especial Discos de 1992, mas vale o registro aqui, pois considero esse o ato final da coragem de Miles Davis. Algumas músicas ficaram datadas, mas outras envelheceram bem. A melhor delas é “Doo-bop Song”, com uma levada suingada (retrabalhada em cima de “Summer Madness”, do Kool & The Gang) e uma letra onde “os mano” rimam em cima da genialidade do grande jazzista. Por fim, esse epitáfio deixou uma questão interessante: quem no mundo, além de Miles Davis, poderia transformar um jazz-rap ostentação em algo cool?

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