A Different Kind of Truth – Van Halen (2012)

Em fevereiro de 1978, Eddie Van Halen colocou a cena roqueira abaixo com a peça instrumental “Eruption”, introduzindo uma nova técnica de tocar. Era o primeiro e autointitulado álbum do Van Halen, que explodiu como lava incandescente e jogou a banda no mapa do rock. Fama e fortuna vieram e, com isso, muitas brigas. A banda ainda sobreviveria à traumática saída do vocalista David Lee Roth em 1985, mas no fim dos anos 90 veio o declínio. Desde então, o vulcão entrou em estado de hibernação.

Roth tentou voltar à banda em 1996 e 2000 e Sammy Hagar, o segundo vocalista, tentou em 2004. Mas todas as tentativas de reviver os dias de glória malograram, pois os ressentimentos sempre falavam mais alto. Quando anunciaram nova reunião com Roth em 2007, a desconfiança era tanta que chegaram a questionar até se eles conseguiriam terminar a turnê. Com ou sem turnê, a energia e a força criativa da banda já eram dadas como mortas e faziam parte do passado. A fonte parecia ter secado e o tão prometido álbum de inéditas não passava de um sonho distante. A saída era faturar em cima de turnês caça-níqueis, coletâneas e do respeitável catálogo da banda, que vendeu mais de 80 milhões de discos só nos EUA.

Como a indústria dos boatos sempre acompanhou o Van Halen, finda a turnê em 2008 (sim, eles conseguiram terminá-la), começou a circular a informação de havia planos para um disco de inéditas. Mas foi só em 2011 que o boato ganhou força (e as polêmicas também). E, tal qual o Guns N’ Roses, o Van Halen acaba de lançar o seu Chinese Democracy, intitulado A Different Kind of Truth. Lá se vão 14 anos desde o último de inéditas e 28 anos desde o último gravado com David Lee Roth. No dia em que o disco começou a circular pela internet, o grito dos fãs explodiu em uníssono: “o Van Halen está de volta aos primórdios”.

As seções de gravação do novo álbum nos conduzem de volta ao ano de 1977, quando o Van Halen — ainda uma banda iniciante em busca de um contrato —, grava uma demo com 25 músicas nos estúdios da Warner. Conhecido como Van Halen Zero, este se tornaria o bootleg mais cultuado pelos fãs, pois suas músicas deram origem à maioria do material oficialmente lançado nos dois primeiros álbuns. Mas ainda havia mais joias a resgatar no fundo desse baú, e essa foi a motivação por trás das gravações de A Different Kind of Truth.

She’s the Woman” e “Big River” são duas músicas dessa demo que ressurgem quase intactas. Já a veloz “Outta Space” segue a mesma métrica de sua original, chamada “Let’s Get Rockin’”. Mesma coisa para “Beats Workin’”, que refaz o rastro deixado em “Put out the Lights”, num clima de rock n’ roll festeiro que sempre caracterizou a banda. Havia mais: fragmentos do que se tornou o single “Tattoo” foram pinçados de “Down in Flames”. A história de “Bullethead” é ainda mais curiosa, pois a música aparece nas primeiras apresentações ao vivo da banda em clubes de Los Angeles, mas nunca havia sido registrada em estúdio. Outra é “Blood And Fire”, que originalmente se chamava “Ripley” e vem de uma verve mais pop, registrada em demos de 1984.

Mas há músicas totalmente novas, como a explosiva “China Town” e a esperta “The Trouble With Never”. “You And Your Blues” segue mais a linha mais pop-rock melódico, que a banda explorou muito nos anos 80. Já em “Stay Frosty” eles fazem outro mergulho nos anos 70, recriando a dinâmica de “Ice Cream Man”, com a voz e o violão de Roth puxando uma locomotiva hard blues. E em “Honeybabysweetiedoll” e “As Is”, Eddie Van Halen flerta com o metal e não economiza notas em seus solos.

E assim o Van Halen renasce das cinzas. Depois de duas décadas adormecido, o vulcão entrou em erupção mais uma vez. Eddie Van Halen ressurge como um assombro. Livre do alcoolismo e do câncer, ele se mostra em impressionante forma, faminto como há muito tempo não se via. E com a cabeça no lugar, ele finalmente pôde colocar todo o seu arsenal de guitarras a serviço de seu extenso vocabulário musical, mostrando porque é uma lenda do hard rock.

David Lee Roth, por sua vez, volta falastrão e verborrágico como sempre, com suas letras irônicas e cheias de gírias das ruas — além das velhas excentricidades, numa mistura bem humorada de gritos com vocais guturais a la Barry White. Mas a maior dúvida pairava em torno do jovem Wolfgang Van Halen. Herdeiro do clã, foi içado de forma discutível à condição de baixista da banda pelas mãos de seu pai Eddie. Alguns fãs torceram o nariz e pediram a volta de Michael Anthony, mas o garoto de 20 anos mostrou personalidade, com linhas de baixo nervosas que deram um novo groove à banda.

Aproveitando-se desse sentimento nostálgico, a banda fez um resgate histórico de sua biografia tentando reencontrar a crueza e a agressividade que tanto os impulsionou na juventude. Há quem diga que tal sentimento não combine com estes senhores cinquentões, mas o fato é que essa retomada era uma cobrança antiga dos fãs e da crítica — pedido que sempre fora negado pela banda. Dessa forma, o Van Halen não só uniu os hard rockers da velha e da nova guarda, como também combinou duas gerações de músicos dentro da banda.

* matéria originalmente publicada no Jornal da Tarde em 11/02/2012

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