Falling Into Infinity, Dream Theater (1997)

Falling Into Infinity

O lançamento de Falling Into Infinity, um dos mais controversos discos do Dream Theater, ocorreu há quase 18 anos, em 23 de setembro de 1997. Foi pouco depois de sua primeira apresentação no Brasil, no dia 11, que já contou com várias músicas do álbum. É também o primeiro – e único – registro de estúdio completo com Derek Sherinian nos teclados – ele chegou a gravar a música “A Change of Seasons” no EP homônimo. Pela primeira vez o grupo sofreu interferência da gravadora: as músicas deveriam buscar uma linha mais pop. Apelaram até para o hitmaker Desmond Child (Bon Jovi, Aerosmith, Kiss, Joss Stone, Kelly Clarkson, etc.) na co-autoria de “You Not Me”.

Os anos finais da década de 90 foram cruéis com os músicos: com muitas mudanças nas gravadoras, incluindo compras e vendas diversas, os executivos de sua confiança sumiram de uma hora para outra. Assim, os resultados financeiros de curto prazo começaram a prevalecer sobre a criação. Por isso, o baterista e então líder Mike Portnoy até cogitou sair da banda, sendo persuadido pelo guitarrista John Petrucci a continuar ao menos para a turnê de divulgação do álbum. Acabou ficando. Ironicamente, sua saída veio a acontecer anos depois por motivos pessoais.

Mas nada como o tempo para aparar arestas. Sem todo esse drama, hoje o disco pode ser considerado até mesmo subestimado. Em primeiro lugar, tem o melhor acabamento sonoro de toda a carreira da banda – méritos para o produtor e engenheiro de som Kevin Shirley. Os instrumentos estão todos muito bem equalizados – nada está a mais ou a menos – dando consistência às músicas e ao álbum. Os timbres também foram muito bem escolhidos: os instrumentos estão bem definidos, ao mesmo tempo em que soam “quentes”. Além disso, Shirley deu uma “amansada” no som metal do grupo. Ainda que possa ter desagradado alguns fãs, o resultado é uma sonoridade mais bonita e melhor equilibrada do que registros anteriores e os demais lançados até hoje.

A abertura é brilhante, com “New Millenium”, um dos melhores momentos do grupo – já comentei anteriormente sobre essa música. Em seguida vem a “polêmica” “You Not Me”, pois, como já foi citado, teve a mão de Desmond Child. Sua influência pode ser notada no refrão, bastante melódico, feito para grudar na cabeça. O resultado não é ruim; ao contrário, considero melhor e mais destacada do que a versão demo. Apesar disso, tem a reprovação de muitos fãs e soa meio fora de contexto no álbum, que é mais sóbrio. Fechando a primeira trinca do disco, temos “Peruvian Skies”, uma mistura de balada sombria com Metallica. É um ótimo registro, que mescla muito bem diferentes climas. Porém, uma ironia: também tem um refrão direto e marcante, mas que não sofreu com a ira dos fãs como a música anterior.

“Hollow Years” é uma das escorregadas do disco, que gerou gritaria de alguns fãs. E é, de fato, uma balada boba, melosa e genérica. Mas, aqui, temos mais uma ironia: o Dream Theater fez músicas tão ou mais bobas em discos seguintes, quando tiveram total liberdade, sem a tal “pressão” da gravadora. Temos como exemplos: “Through Her Eyes” do disco seguinte, Scenes From A Memory, e “The Answer Lies Within”, do Octavarium. A dupla seguinte, “Burning My Soul” e “Hell’s Kitchen” também está envolta numa polêmica: originalmente foram criadas como uma só música, com “Hell’s Kitchen” sendo um interlúdio instrumental de “Burning My Soul”. Porém, foram separadas para o disco. E, assim como “You Not Me”, acho que as versões finais superam, e muito, as demos. “Hell’s Kitchen” é uma música muito bonita – e, por que não, subestimada – que merecia estar destacada, como está no disco. Além disso, o trecho final épico – ausente na versão demo – é brilhante. Já “Burning My Soul” se tornou um bom rock, direto e reto, mas sem perder a veia progressiva do grupo.

“Lines In The Sand” é como uma continuação de “Hell’s Kitchen” e faz jus à tradição progressiva do Dream Theater, além de ser mais focada em grooves, nem tanto em metal. É cheia de passagens, tem ótimos licks e um ótimo refrão – com a participação de Doug Pinnick, da banda King’s X. Já “Take Away My Pain” é uma música importante para John Petrucci, pois foi feita em homenagem aos últimos dias de vida de seu pai. É comovente acompanhar a letra com a música sabendo desse fato. Por isso, faz sentido ao disco, já que musicalmente não é um grande achado.

“Just Let Me Breathe” é uma grande música. Um progressivo no melhor sentido do termo, uma música precisa, sem “sobras”. É de tirar o fôlego, pois quase não há pausas em sua chuva de licks. Destaque para os duelos de guitarra e teclado. “Anna Lee” é outra balada, com um estilo meio Elton John. Vale como registro de como a banda pode passear por diferentes estilos. Porém, poderia facilmente virar uma sobra de estúdio, para ser lançada em alguma edição especial. Não é ruim, mas pelo excesso de baladas no disco, parece demais. Mas justiça seja feita: comparando entre as baladas, é mais interessante do que “Hollow Years” e “Take Away My Pain”, exatamente por ter um clima diferente do que a banda já tinha feito até então.

Voltando ao tema “subestimados”, chegamos a mais uma música que poderia entrar nessa classificação: “Trial Of Tears”, que encerra o disco de forma primorosa. Com pouco mais de 13 minutos e dividida em três partes, é um dos grandes épicos do Dream Theater. Elegante e dinâmica, mostra a capacidade do grupo em mostrar criatividade e virtuosismo sem precisar ser óbvio, sem “jogar” muitas notas em nossos ouvidos. E, por muito tempo, foi a última letra de John Myung – que só voltou a colaborar liricamente após a saída de Mike Portnoy.

Ao fim da audição, percebemos que o grande problema do disco talvez seja o excesso de baladas e uma música – “You Not Me” – que soa um pouco deslocada. Enfim, um disco que peca pela falta de foco, pela tentativa de atirar para todos os lados. Mas, se tirarmos esses excessos, temos grandes músicas que mostram um grupo maduro e criativo, trazendo boa variedade de sons. Fica aqui uma sugestão de tracklist alternativo para comprovar esse fato:

1) New Millenium
2) Just Let Me Breathe
3) Peruvian Skies
4) Burning My Soul
5) Hell’s Kitchen
6) Lines In The Sand
7) Uma balada à sua escolha – a minha é “Anna Lee”
8 ) Trial Of Tears

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