Top 5 – Músicas pessimistas de Sting

A música provoca diversas reações no ser humano. Para a maioria, ela serve apenas para divertir. Alguns até chegam a usar essa diversão momentânea como fuga da realidade. O Brasil certamente é o berço esplêndido das micaretas, dos bailes funk, dos hits de verão. Mas há um outro lado, onde a música pode ser objeto de apreciação, estudo e reflexão. Sting é um artista que integra essa segunda categoria, portanto se encaixa perfeitamente na proposta deste site. Algumas de suas letras são bastante profundas, falam de temas complexos, como política, guerra, pobreza, solidão, perdas. O tom varia. Vai do reflexivo, passa pelo crítico e chega ao melancólico. Para este descrente incorrigível que vos escreve, cabe destacar os cinco momentos mais pessimistas (e brilhantes) do ex-líder do Police.

1) “History Will Teach Us Nothing” – …Nothing Like the Sun (1987)

 

Já falei desse disco aqui, mas não falei o bastante dessa música, que é uma das pérolas escondidas no álbum. Além do belo arranjo, da levada “up-tempo” e de diversas sutilezas sonoras, a letra é simplesmente primorosa, onde Sting escreve o seu tratado contra as mazelas do mundo. Começa nas ideologias ultrapassadas (“Se buscarmos consolo nas prisões de um passado distante/ A segurança dos sistemas humanos, nos dizem, sempre irá durar/ Emoções são a vela e a fé cega é o mastro/ Sem o sopro da verdadeira liberdade não chegaremos a lugar algum”), passa pela religião (“Se Deus está morto e um ator o interpreta/ Suas palavras de medo encontrarão um lugar em nossos corações”) e chega nos poderosos (“Nossa história escrita é um catálogo de crimes/ Os sórdidos e os poderosos, os arquitetos do tempo”). O cenário é sombrio e assustadoramente real, sintetizando o quanto as sociedades buscam sua salvação em crenças palpavelmente falsas, traindo seus princípios e entregando-os a ideologias vis e falsos profetas. No fim, chega-se à conclusão de que a história que aprendemos em livros varia de acordo com a ideologia da fonte.
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2) “Driven To Tears” – Zenyatta Mondatta (1980)

 

Clássico dos tempos de Police, que Sting escreveu na estrada. Então com 29 anos, ele ainda não era o ativista político que se revelaria mais tarde, mas já dava seus primeiros passos nessa direção. Sair em turnê mundial faz as pessoas verem in loco algumas barbaridades que parecem distantes em fotos ou na TV. Chegar ao hotel 5 estrelas depois de ver a pobreza extrema pela janela da limusine mexe com a cabeça de qualquer pessoa sensata. O fato é que tem muita gente morrendo pelos mais variados motivos. Todos inexplicáveis, quando não estúpidos. Fome, religião, guerra, política, corrupção. O menu é farto e o apetite dos coiotes é grande. Entre tantas perguntas contidas na letra, esta aqui é a chave: o que eu tenho a ver com tudo isso? E a resposta parece um tanto resignada: “Minha confortável existência é reduzida a uma festa superficial e sem sentido/ Parece que quando algum inocente morre, tudo o que podemos lhes oferecer é uma página em alguma revista”. Não, não estou sugerindo que você, leitor, deva se sentir responsável por todas as desgraças do mundo. Puxando para o contexto do Brasil, o ponto é: se você não cumpre o seu papel mínimo de cidadão (sem malandragens, sem “jeitinhos”), então você é parte do problema, e não da solução. Agora, se isso já não nos leva mais às lágrimas (como diz o título), é porque fomos lobotomizados por essa rotina, encarando-a como normal. E qualquer semelhança com aquele maroto “ah, mas todo mundo faz”, “ah, ele rouba mas faz” ou “as coisas no Brasil são assim mesmo” não é mera coincidência.
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3) “If You Love Somebody Set Them Free” – The Dream of the Blue Turtles (1985)

 

Essa música foi o carro-chefe da primeira empreitada solo de Sting depois do fim do Police. Disposto a se distanciar de tudo o que conquistara com a banda, ele deixou seu baixo de lado, pegou a guitarra, montou o Blue Turtles, banda de jazzistas renomados, e deu um polimento mais sofisticado ao seu som. Junto ao pop e ao jazz, adicionou um leve toque de soul, a la Motown, à melodia “free, free, set them free”. Sting declarou diversas vezes que compôs essa música com a intenção de criar um antídoto para “Every Breath You Take”. Segundo ele, o mega-hit do Police foi mal interpretado pelo público, que o entendeu como uma canção de amor incondicional. Na verdade Sting falava das motivações torpes do amor, como a vigilância obsessiva aos níveis da paranoia. “É uma canção sinistra e perversa”, disse à BBC. O antídoto veio dois anos depois e o título é autoexplicativo: se você ama uma pessoa, liberte-a. Mais para frente enfatiza: “você não pode controlar um coração independente”. A intenção era falar sobre um amor que respeita a liberdade do outro, sem aprisioná-lo. Só que, de novo, o público viu de outra forma e achou a ideia meio contraditória, pois sugeria o fim de qualquer relacionamento sério. Interpretações à parte, o fato é que este é um de seus maiores clássicos em carreira solo.
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4) “They Dance Alone (Cueca Solo)” – …Nothing Like the Sun (1987)

 

Em tempos de gente indo às ruas pedir “intervenção militar”, cabe uma análise sobre essa estilingada contra a ditadura ocorrida no Chile entre 1973 e 1990. A letra fala de mães chilenas que perderam seus maridos e filhos durante o regime militar e dançam sozinhas a “Cueca” (dança típica). Ao contrário da maioria das músicas que ouvimos ― onde cada um pode encaixar no contexto que melhor lhe convém ―, dessa vez havia um alvo: o ditador Augusto Pinochet. “Ei, Sr. Pinochet/ Você semeou uma colheita amarga/ É dinheiro estrangeiro que te sustenta/ Um dia esse dinheiro vai acabar/ Sem salários para seus torturadores/ Sem orçamento para suas armas/ Você consegue imaginar sua própria mãe dançando com o filho invisível?”. Os fins dos anos 80 eram tempos de usar a música como veículo para atacar regimes autoritários. Depois do Live Aid em 1985, festivais de música foram transformados em grandes atos políticos. Artistas Contra o Apartheid, Concerto da Anistia Internacional iam aparecendo em paralelo às músicas lançadas nos álbuns. Enquanto a ditadura militar chilena era abalroada por Sting e U2, o regime racista da África do Sul recebia “homenagens” que começaram em Peter Gabriel e terminaram no Simple Minds. O cerco ia se fechando, até que a queda do Muro de Berlim em novembro de 1989 desencadeou o efeito dominó. Então fica o lembrete: por pior que um país esteja, a ditadura não é e nunca será a saída.
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5) “If I Ever Lose My Faith In You” – Ten Summoner’s Tales (1993)

 

Essa é uma letra pessimista, mas que tenta ver o lado otimista da vida. Ao mesmo tempo em que assente diante da descrença generalizada, clama pela crença ao próximo. O conceito é formulado logo no primeiro verso: “Você pode dizer que perdi minha fé na ciência e no progresso/ Você pode dizer que perdi minha crença na igreja sagrada”. Aí vem o refrão para rebater: “mas… Se um dia eu perder minha fé em você/ Não haverá mais nada a fazer”. Mais à frente, um sopro de esperança: “Posso estar perdido dentro das mentiras que nos contam/ Mas toda vez que fecho meus olhos, vejo seu rosto”. Num documentário sobre os efeitos da música no cérebro humano, essa canção foi usada como exemplo para mostrar de que forma uma combinação criteriosa de notas pode causar boas sensações em nossos ouvidos e mentes. Sting certamente tem bom gosto para escolher e concatenar notas que nos soem agradáveis, mas para além da música, há também uma boa reflexão: se perdermos a fé em religiões, instituições e ideologias, em que (ou em quem) resta acreditar? Por enquanto, a única resposta que encontrei a essa pergunta foi: em nós mesmos.

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