A grande notícia do rock em 2015 só depende de uma sogra

> por Blog Purpendicular

Após quase 20 anos tocando craviola na banda da patroa, o genial e genioso guitarrista Ritchie Blackmore está ensaiando uma volta à eletricidade. Até agora, tudo o que se sabe a respeito é que ele quer voltar e que está falando com ex-colegas para isso.

Tudo depende da relação entre alguns dos melhores músicos do mundo e a sogra do guitarrista, que calha de ser sua empresária. Todo contato de Blackmore com o mundo externo passa por Carole Stevens, avó dos fofos filhos do homem de preto. Em se tratando de senhores de outra geração, mais acostumados a formar banda depois de encher a cara em bar de strip, é uma situação um tanto complicada. Na banda atual, Blackmore anda tão apagado que você não pode piscar caso queira vê-lo em clipes como este.

A grande cartada do sujeito que lava a louça do castelo da Candice para voltar a ser Blackmore foi a tentativa de uma volta estrelada de três quintos da terceira formação do Deep Purple, com David Coverdale (cantor e dono do Whitesnake) e Glenn Hughes (baixo e voz, atualmente em vários projetos colaborativos). O baterista Ian Paice está ocupado em outra banda, e o tecladista Jon Lord provavelmente tem ensaiado muito com Jimi Hendrix.

Houve discrepâncias de expectativas, porém. Aparentemente, Hughes queria uma banda, Coverdale queria uma turnê e Blackmore queria um megashow como o da reunião do Led Zeppelin na O2 Arena, em 2007. Hughes há anos deixa claro que quer uma chance de aproveitar direito, com a sabedoria da maturidade cara-limpa, a oportunidade que ajudou a estragar há quatro décadas numa das maiores bandas dos anos 70. Coverdale tem o Whitesnake, que ainda é uma marca forte em festivais ainda que sua voz já não seja mais a mesma. Já Blackmore… é um sujeito complicado.

As dicas de que Blackmore está quase pronto para voltar ao rock vêm desde 2011, quando um jornalista sueco o entrevistou em sua casa e ouviu som de guitarras vindo do estúdio doméstico do mestre, que desconversou.

Quando Jon Lord morreu em 2012, houve uma série de desencontros. Primeiro, pela manhã, a empresária de Blackmore (a sogra) soltou uma nota dizendo que a família lamentava a perda do músico, mas pedia para não ser incomodada. À tarde, uma nova nota veio, em que Blackmore lamentava a pena de seu grande amigo e companheiro favorito de jantares. É o mesmo tom carinhoso que Blackmore usou para falar de Lord à BBC naquela semana. Mais tarde, Blackmore gravou a música “Carry on Jon” em homenagem ao tecladista.

Logo depois, telefonemas transatlânticos começaram. Volta e meia Hughes e Coverdale tuitavam fotos antigas dos dois juntos se chamando de “unrighteous brothers” e fazendo piadas de tiozões adolescentes. Volta e meia saía um elogio a Blackmore. Por essa época, Coverdale disse que mandou um salve ao guitarrista.

Em 2013, no dia do lançamento do disco Now What?!, do Deep Purple, Blackmore processou os ex-colegas liderados por Ian Gillan para usar o nome da banda que fundou. Perdeu. Isso pode ou não ter a ver com o projeto. Mais fácil que tivesse a ver, e que a derrota judicial tenha sido um fator atrapalhante. O novo disco do Purple, por seu lado, foi um sucesso de crítica e vendas.

No ano passado, alguns cantores que trabalharam com Blackmore no passado disseram ter sido contactados para um projeto misterioso. Até Ian Gillan, que não fala com Blackmore há 21 anos, disse em entrevista que recebeu contato do lado de Blackmore e que não tem mais mágoa nenhuma do antigo colega.

Em sua autobiografia, Ian Gillan conta que Blackmore o visitou no Natal de 1978 para sondá-lo para cantar no Rainbow. Gillan tocava em faculdades com sua banda e curtia muito. Blackmore lhe disse que ele deveria estar era tocando nos grandes estádios. A conversa terminou em uma garrafa seca de Black Label e uma canja de Blackmore tocando “Lucille” com a banda de Gillan.

No ano passado, antes de o Deep Purple vir ao Brasil, perguntei a Gillan se ele retribuiu a gentileza de dizer a Blackmore que ele deveria estar tocando nos grandes estádios. Ele riu e respondeu: “não, não conversamos sobre música, e nem foi direto com ele o contato, foi com pessoas da parte dele”. Provavelmente a sogra, de quem Gillan andou falando mal alguns anos antes numa entrevista.

Em abril de 2014, Coverdale e Blackmore foram as ausências mais sentidas do show beneficiente em homenagem a Jon Lord no Royal Albert Hall, reunindo vários dos músicos que fizeram parte da vida do maestro. A empresária de Blackmore (a sogra) soltou uma nota um tanto agressiva dizendo que Blackmore não participaria. Coverdale ficou quieto. Em sua ausência, o show teve Bruce Dickinson fazendo um poderoso dueto de “Burn” com Glenn Hughes.

Durante todo esse House of Cards, o Whitesnake perdeu seu guitarrista Doug Aldrich em maio de 2014. Aldrich saiu dizendo: “Se o David me dissesse que queria voltar a qualquer um dos seus guitarristas do passado, eu absolutamente respeitaria e apreciaria tudo o que fizemos juntos”. Aparentemente, ele se referia ao rumor de que Coverdale queria reformar o Whitesnake na formação dos anos 80, com John Sykes, que compôs “Still of the Night” e “Is This Love”.

Chega o início de 2015 e o que Coverdale anuncia é um disco de versões do Deep Purple para (não resisto ao trocadilho) fazer cover dele mesmo. O The Purple Album sai em maio, e já estão no ar “Stormbringer”, “Burn” e “Lay Down, Stay Down”. Os fãs do Whitesnake adoraram. Os fãs do Deep Purple, nem tanto.

Nas entrevistas relacionadas ao novo álbum, Coverdale diz que o projeto surgiu a partir das conversas falhas dele com Blackmore. Durante as tratativas, ele foi ouvir os discos velhos e pensou em novos arranjos, que são os que estão no álbum.

Em entrevista à revista Classic Rock, Coverdale deu sua versão do carrossel todo:

“Depois de várias discussões com a empresária de Ritchie [a sogra do guitarrista], senti que não compartilhava da visão deles sobre o projeto. Sinceramente desejei o melhor a eles e respeitosamente fui embora. Não esqueça que eu só estava fazendo contato pra expressar minha tristeza com a perda de Jon, e queria fazer as pazes com o Ritchie. Mas, devo dizer, eu inicialmente fiquei empolgado com as possibilidades. Junto com milhões de outros, eu adoraria ouvir o Ritchie tocar rock na guitarra elétrica de novo. Ele podia sacudir a Terra!”

Então, não rolou o Purple. Mas Blackmore ainda tem uma outra carta na manga para um retorno em grande estilo: o Rainbow. Seria ocioso imaginar o quanto seria fascinante uma volta do Rainbow com Ronnie James Dio e Cozy Powell, mas esses estão provavelmente ensaiando com Jon Lord e Jimi Hendrix. Houve tratativas para isso no final dos anos 90 e começo dos 2000, mas a vida interveio.

Resta a outra fase do Rainbow, mais comercial, com o vocalista Joe Lynn Turner, que topa tudo. Canta com competência muita coisa do Deep Purple (ele adora lembrar que esteve lá) e é coautor de alguns dos maiores sucessos de FM do Rainbow. Mas tem a língua mais ágil do que as cordas vocais.

Nesta semana, Turner tocou em Londres com sua banda solo e disse no palco que existe uma proposta milionária da Live Nation para o Rainbow voltar, com ele e Blackmore, ainda neste ano. “Ele tá doido pra fazer um rock, e vamos nos reunir na primavera. O Ritchie está realmente, realmente, pronto pra fazer rock. Ele ainda tem as manhas. Só não sei se vai ser uma reunião do Rainbow ou um monte de remakes, mas tá rolando. Tivemos acordos multimilionários marcados com a Live Nation. Pra começar, uma turnê de 60 dias, com filme em HD e 3D, tudo isso – e depois tem que fechar um disco.”

A banda incluiria os baixistas Jimmy Bain e Bob Daisley, segundo Turner. O problema: ninguém, dentre os que foram procurados por Blackmore, falou exatamente com ele, e sim com sua sogra empresária. De quem Gillan tinha bronca, com quem Coverdale não conseguiu acordo financeiro e a quem Turner, pelo jeito, detesta. “A menos que a mulher ou a sogra do Blackmore se meta. Ela me deixa maluco. Mas pode rolar, é provável”, disse Turner.

Se a boca grande de Turner vai azedar também o plano B de Blackmore é algo a acompanhar nos próximos meses. Um disco solo e instrumental, infelizmente, não parece estar nos planos.

O que vai sair, ninguém sabe. De qualquer maneira, mesmo que Blackmore chame Bryan Adams para cantar “Parabéns pra Você”, sua volta ao rock será a grande notícia de 2015.

Ouça os podcasts especiais Deep Purple
Tungcast#051: Deep Purple (vol.1) – 1968-1976
Tungcast#052: Deep Purple (vol.2) – 1984-2012

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