Nem Sting salvou os ringtones

“A excitação dos machos é monotemática. Até hoje supõe que bater uma é anular a chance de sexo no dia. Sua masturbação não é um aperitivo, uma preliminar, mas aceitação do fracasso. É como um desabafo, algo como ‘não deu para aguentar’. Nenhum adulto confessa com orgulho para sua namorada ou esposa: bati uma punheta. Tem receio de receber um olhar piedoso, de seguro-desemprego. (…) É um processo semelhante quando escolhemos uma música como aviso de chamada do celular. Nunca mais teremos condições de apreciá-la, apesar de ser nossa balada favorita. Os ringtones matam a leveza imaginária da canção. O toque lembrará agora trabalho, prazo, incomodação, urgência. Ao ouvir os acordes no rádio, mergulharemos no terror, tentando localizar o aparelho. O que me faz crer que a punheta do homem é seu ringtone do sexo.”

Fabrício Carpinejar, no livro Ai Meu Deus, Ai Meu Jesus – Crônicas de amor e sexo

Passei um tempo tentando decifrar o mistério por trás dos ringtones, sem nunca ter chegado a uma conclusão digna de nota. Mas Carpinejar matou a questão. Não vou nem incluir aqui aquelas versões midi que simulam toscamente músicas de sucesso. Fiquemos apenas com quem decidiu baixar sua música favorita como toque de celular.

Primeiro tentei me imaginar colocando o riff de “Owner of a Lonely Heart”, “Mean Street” ou “Burn” como toque do meu celular. Logo começaram a me surgir coceiras e brotoejas imaginárias. Não é só questão de perder a apreciação do riff, como sugeriu Carpinejar. É de como essas belíssimas construções de guitarra passassem a ser objeto de ódio. Explico: eu odeio telefones. Mais do que a Marilena Chauí odeia a classe média.

E se odeio telefones, por consequência, odeio também celulares. São um mal necessário. E não só por me alertarem de prazos, cobranças e outras chatices do cotidiano, mas porque eles significam interrupção, coisa com a qual eu nunca soube lidar num nível aceitável. Mas não seria uma maneira de atenuar esse momento inoportuno com uma música bacana?, você pode perguntar. Aí está o problema: não existe nada que atenue uma interrupção vinda pelo telefone. E tudo o que estiver associado a isso não será agradável.

Por isso eu sempre serei um fã e militante do iPod, em detrimentos os iPhones e smartphones da vida. O iPhone representa o mesmo caos de nossas mesas de trabalho, mas com o charme da portabilidade. Imagine a seguinte situação: o sujeito está ouvindo um Close To The Edge em seu iPhone e, subitamente, surge um riff de guitarra embolando tudo, porque algum infeliz decidiu te ligar na hora errada. Eu não conseguiria perdoar a pessoa que ligou, embora ela não tivesse nenhuma culpa disso. Seria como alguém chegar na minha sala e tirar a agulha de meu vinil, riscando-o violentamente. Já com o iPod não ocorre nada disso. O iPod é um dispositivo que atende a um nicho específico: o dos geeks musicais. Por isso devemos louvar Steve Jobs por pensar num aparelho que nos contente exclusivamente. Ele próprio, como grande fã de Beatles e Bob Dylan, não se separou de seu iPod até os últimos dias de vida.

Simplesmente não quero dividir minhas pesquisas e audições musicais com ligações telefônicas, redes sociais, fotos, torpedos, Whatsapp, nada disso. E muito menos quero jogar meus riffs favoritos na lata do lixo para posar de moderno. Os riffs continuam em toda a parte: no meu iPod, no meu computador, no meu som, na minha vitrola. Já os ringtones de celulares podem ser qualquer coisa, pois são e continuarão sendo uma chateação.

Apesar de tudo, recentemente houve um tentativa louvável de salvar os ringtones, onde o apresentador Jimmy Fallon parece ter tido uma epifania em seu talk-show. Tendo ninguém menos do que Sting como convidado, sugeriu ao líder o The Police que cantasse as melodias de alguns ringtones e nomeou as obras como “Stingtones”. O resultado é absolutamente sensacional, mas não só não solucionou o meu problema, como criou outro. Agora, além de não ter baixado o Stingtone como toque do meu celular, não consigo parar de ver o vídeo abaixo reiteradas vezes.

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