A Vida É Doce, Lobão (1999)

Lobão - A Vida É Doce

Durante toda sua carreira, Lobão teve que conviver com uma sina: uma mera alusão ao seu nome trazia a lembrança da palavra “polêmica”. E, para piorar, mais recentemente ele tem passeado politicamente em uma caricatura da direta: uma direita neurótica, que se degladia com uma esquerda não menos adoecida. Dessa forma, a porção musical de Lobão – o que ele faz de melhor – acaba sendo deixada de lado. É por isso que hoje escrevo sobre um dos seus grandes discos, um clássico: A Vida É Doce, de 1999.

Como não podia deixar de ser, o álbum trouxe duas “polêmicas”: o músico burlou o esquema de gravadoras ao lançar um disco exclusivamente em bancas de jornal e foi pioneiro na numeração de discos – algo que se tornaria lei anos depois. Foi um disco independente e, por isso, pode ser considerado um sucesso: além de ter vendido bem, recolocou Lobão na mídia, pelos motivos certos: boa música. E isso é o que não falta no álbum.

Em A Vida É Doce, Lobão está afiado lirica e musicalmente. A abertura é poderosa. “El Desdichado II” mostra bem o que será o álbum: a união de uma certa crueza com belos arranjos e melodias. Além, claro, das ótimas letras: “Eu sou nada e é isso que me convém”. “Universo Paralelo” vem em seguida e mostra um lado mais viajante , sendo um dos destaques do disco. “Pra Onde Você Vai” é ótima, uma balada mid-tempo. “Tão Menina” soa um pouco fora do contexto: exagera nos ritmos eletrônicos, talvez um eco do disco anterior, “Noite” (1998).

A música seguinte é a faixa título e é um dos grandes momentos da carreira de Lobão: hipnótica, melódica e climática. É, também, uma grande letra, interpretada com um misto de fúria e displicência, exatamente o que a música pede: “E de repente o telefone toca e é você do outro lado me ligando, devolvendo minha insônia, minhas bobagens (…) me perdoa daquela expressão pré fabricada, de tédio, tão canastrona, que nunca funcionou nem funciona”. Tudo isso acompanhado por batidas eletrônicas, baixo seco, uma guitarra de fundo e samplers de cordas.

O título “Uma Delicada Forma de Calor” faz jus ao que a música entrega. Com participação de Zeca Baleiro é uma balada bem construída, mais leve do que o resto do disco, mas sem destoar. “Tão perto, Tão Longe” vai um tom acima: poderia ser uma balada, mas o arranjo vai por caminhos mais intensos. Já “Ipanema No Ar”é uma espécie de bossa-nova-torta.

A música seguinte é outro destaque do disco e mais uma prova de que Lobão é um grande compositor de baladas: “Vou Te Levar”. É uma música feita para sua mulher, Regina Lopes. Diz a lenda que ela teria dito para ele algo como “Eu te amo mais que você me ama”. Lobão, então, teria feito essa música para responder a essa afirmação. E é, de fato, uma grande música de amor, uma balada clássica – no melhor sentido do termo.

“Mais uma vez” vai na linha de “Tão perto, tão longe”: tem ar de balada, mas o arranjo acerta ao dar mais corpo, mais densidade à canção. E, como por todo o disco, a letra é certeira: “Às vezes é melhor sorrir, imaginar (…) E tratar as sombras com ternura, o medo com ternura e esperar (…) Às vezes é melhor perder o controle e desabar / E quebrar todas as promessas e atacar!”. Depois, uma música instrumental: a cinematográfica e sofisticada “Amanhecendo na Lagoa”. Assim se encerra mais um ótimo registro de Lobão, de grande destaque em sua discografia. Se você torce o nariz ao ouvir o nome dele, pense duas vezes. Deixe a discordância de opiniões apenas no mundo das ideias e vá fundo em sua obra musical. Certamente há muitas pérolas por achar.

2 Responses to “A Vida É Doce, Lobão (1999)”

  1. Marcell Alves disse:

    Realmente, é um grande disco. Fico feliz de ter sido relembrado aqui no Geek Musical.

    Pra mim o Lobão é um dos grandes letristas da música nacional.

  2. Iago Barros disse:

    Infelizmente só conhecia esse lobão polêmico e caricaturizado.
    vou dar uma chance a esse disco e veremos o que sairá.

    Até mais.