Top 5: Filmes sobre música

Olhando as listas que fizemos até agora no Top 5, vi que ficou faltando uma lista de filmes sobre música. Sim, já listamos nossos soundtracks favoritos, mas faltava falar dos filmes propriamente. Filmes onde a música não ocupa um espaço escuro no background (e que precisa de ouvidos geeks para se fazer ouvir). Estou falando de filmes onde a música fica nos holofotes, servindo de fio condutor do enredo ― ou até mesmo fazendo o papel de antagonista. Eis os filmes que ganharam 5 estrelas deste geek musical.

1) Quase Famosos (2000), de Cameron Crowe

Magnum opus da carreira do diretor e, a meu ver, também de toda a cinematografia roqueira já feita. Por ter vivido os tempos áureos da cobertura jornalística do rock, Cameron Crowe construiu um roteiro autobiográfico em cima de tudo o que viveu e absorveu nos tempos em que foi repórter de publicações como Rolling Stone e Creem. A banda fictícia Stillwater toma emprestado fragmentos de Allman Brothers Band, Eagles, The Who e Led Zeppelin, numa história muito bem amarrada, que ainda conta com personagens reais da crítica musical, como Ben Fong Torres e Lester Bangs. Apesar de ter levado o Oscar de roteiro original, é sabido que várias passagens do filme são reais ― ainda que em contextos diferentes. Trilha sonora de primeiríssima categoria, e belo film score de Nancy Wilson (da banda Heart), esposa do diretor à época. A cena em que a banda canta “Tiny Dancer” dentro do ônibus é pura poesia. Capaz de arrancar lágrimas dos “trues” mais incautos.

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2) Isto é Spinal Tap (1984), de Rob Reiner

Com o argumento de fazer um documentário sobre uma banda fictícia, o filme satirizou de maneira selvagem não só as bandas como toda a cena roqueira dos anos 80. Os pastiches ― sonoros e estéticos ―, são esmigalhados por um humor corrosivo que conta a história de uma banda lutando contra sua própria decadência. Os solos megalomaníacos, as brigas, os egos inflados, tudo é levado aos estertores da caricatura e rende ótimas piadas. Em vez de causar um silêncio constrangedor na cena roqueira real, músicos de todas as linhagens vestiram a carapuça e entraram na brincadeira. Jon Anderson disse que viu o seu Yes ali em vários momentos. Tony Iommi lembrou do cenário Stonehenge e dos anões na turnê do Black Sabbath. Ozzy Osbourne e The Edge (U2) disseram que o filme era tão real que nem chegaram a rir dele. Spinal Tap se tornou clássico instantâneo e, com o tempo, cult. O sucesso foi tanto que os atores Michael McKean e Christopher Guest descobriram que podiam faturar com isso e chegaram a fazer alguns shows e lançar discos com a banda, que deixou de ser fictícia (mais ou menos na linha do que o Massacration faria aqui no Brasil, anos depois). O que não se sabe é se eles cometeram os mesmos erros e excessos das bandas que satirizaram no filme ― o que não seria ruim, pois poderia render outro filme.

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3) Escola de Rock (2003), de Richard Linklater

Outra comédia saborosa, principalmente para quem gosta de citações a grandes bandas. A Escola de Rock realmente existe e fica nos EUA, mas ao contrário do que todos pensam, ela nasceu cinco anos antes do filme. Tudo o que o roteirista Mike White (o verdadeiro Ned Schneebly no filme) era criar o palco ideal para Jack Black interpretar a si mesmo. Difícil imaginar outra pessoa para o papel do maluco Dewey Finn. As crianças também foram muito bem escaladas e a forma como a banda é montada é um espetáculo à parte. Gostei muito do critério adotado pelo na distribuição de “lições de casa”: Axis Bold As Love (Hendrix) para o guitarrista, 2112 (Rush) para o baterista, Fragile (Yes) para o tecladista. Não tinha como dar errado. Dá pra rir bastante com o falso professor doutrinando seus alunos e cobrando conhecimentos sobre Led Zeppelin, AC/DC, Black Sabbath e Motorhead. É um pouco do que sinto quando vejo analfabetos musicais falando sobre “aquela música da Shakira… Back In Black”. Outro ponto importante é que o filme desmistifica o “sexo, drogas e rock n’ roll” sem soar moralista com a molecada ― e, por tabela, com alguns marmanjos, que ainda acham que estamos em 1986. A esse pessoal, o filme usa o AC/DC como antídoto: it’s a long way to the top, if you wanna rock n’ roll.

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4) Alta Fidelidade (2000), de Stephen Frears

Baseado no livro homônimo do britânico Nick Hornby, pode-se dizer que, em Alta Fidelidade, o geekismo musical é o centro da roda. Somos nós lá, eu e você, retratados no filme, discutindo discos, fazendo listas (como faço agora), teorizando e poetizando sobre a arte de fazer (e ouvir) música. Todos os atropelos da vida pessoal do dono da decadente loja de vinis Rob Gordon possuem uma trilha sonora adequada. Em meio à sua “crise dos 30” ele tenta fazer um balanço de músicas, discos, shows e mulheres que mexeram ― e ainda mexem ― com o seu coração. Ninguém melhor do que John Cusack para interpretar esse tipo de personagem, que filosofa junto com o espectador. Bruce Springsteen faz uma ponta e Jack Black empresta sua veia cômica ao filme, que também conta com o indefectível Todd Louiso, no papel de Dick, aquele tipo de geek que dá até medo (ou pena, dependendo da perspectiva). A grande ironia de ver esse filme hoje ― o livro foi escrito em 1995 ― é que o mercado de vinis está completamente revigorado e conta hoje com um cenário bastante forte, com feiras regulares e reedições luxuosas de discos em 180g. Portanto, quem quiser se embrenhar no mercado de vinis, encontrará um cenário bem menos hostil do que Rob Gordon.

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5) A Encruzilhada (1986), de Walter Hill

O filme tem como base um dos mitos mais famosos da música: o de que o bluseiro Robert Johnson teria vendido sua alma ao diabo numa encruzilhada para triunfar no mundo da música. Mito ou não, o fato é que Johnson seria umas das influências mais citadas entre guitarristas do calibre de Eric Clapton e Jimmy Page. Apesar de toda a estética datada dos anos 80 ― um tanto distante das raízes do blues ―, o filme faz um belo exercício de imaginação pegando carona na lenda, onde o jovem Eugene Martone (Ralph Macchio) sai em busca da música perdida de Johnson, contando com a ajuda do bluseiro Willie Brown (Joe Seneca). Destaque para a trilha sonora de Ry Cooder, que vagueia pelo blues com elegância, e para o duelo final de guitarras, onde ninguém menos que Steve Vai faz o papel do guitarrista demoníaco. Aos que ainda perguntam, não, Macchio não tocou no duelo final. Foi treinado e assessorado pelo próprio Vai, por Cooder e por Arlen Roth (este último não creditado). Para colecionadores, Steve Vai lançou em CD todas as suas colaborações musicais em filmes e esse duelo, intitulado “Eugene’s Trick Bag”, não poderia ficar de fora.

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Tungcast#059: Soundtracks (vol.1)
Tungcast#081: Soundtracks (vol.2)

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