Scratch My Back, Peter Gabriel (2010)

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Peter Gabriel (ex-Genesis) lançou em 2010 seu oitavo disco solo, Scratch My Back. Foi uma proposta interessante: fazer covers de outros artistas a partir de arranjos apenas com orquestra e, claro, voz. A ideia original era ousada, de lançar um álbum duplo. Um dos álbuns seria este: a interpretação de Gabriel para essas músicas de outros artistas; no outro álbum, os artistas retribuiriam a homenagem, com reinterpretações de músicas de Peter Gabriel. O projeto acabou não sendo lançado inteiro em 2010; o “pacote completo”, com essa segunda parte foi lançada apenas em 2013 sob a alcunha de  Scratch My Back / And I’ll Scratch Yours – e teve alguns desfalques, como Radiohead, que não quis participar. Mas, aqui, falamos de Scratch My Back. Embora não seja uma novidade, é uma estética ousada usar apenas orquestra para interpretar músicas pop: a chance de ficar tedioso, ou apenas pretensioso, é grande. Peter Gabriel, apesar de alcançar resultados irregulares durante o disco, consegue um saldo positivo ao final. Seguem as minhas favoritas:

“Heros”, David Bowie. A primeira do disco é um clássico do camaleão Bowie e foi quase que completamente reinterpretada. Mas Peter Gabriel fez uma versão brilhante: o arranjo vai crescendo com muita competência. E podemos ver, logo de cara, o que vem pelo disco: interpretações vocais arrebatadoras de Gabriel.

“Mirrorball”, Elbow. A versão original, de uma banda britânica pouco conhecida – Elbow – é ótima, também. Mas Peter Gabriel conseguiu ir além. É uma faixa com um arranjo original e letras que prezam pelo afeto. É uma carinhosa música de amor. A versão encorpou essa ideia num fez um arranjo inteligente, variando entre momentos suaves, outros com adornos e o auge no final, como se fosse o êxtase de uma paixão.

“Listening Wind”, Talking Heads. O arranjo original tem aquela sonoridade robótica e hipnótica, típica do Talking Heads. Peter Gabriel opta por dar mais dramaticidade e um ar misterioso, ressaltando as intenções melódicas da música. Assim como Mirrorball, consegue uma boa forma de delinear a letra no arranjo.

“My Body Is A Cage”, Arcade Fire. Em Scratch My Back o arranjo de “My Body Is A Cage”, à exceção óbvia das diferentes instrumentações, é próximo do original do Arcade Fire. Porém, acredito que Peter Gabriel conseguiu achar um tom ainda melhor para a música, mais soturno. E adicionou mais elegância, dinâmica, sutilezas e polimento, além de um final comovente. E oferece, talvez, sua melhor interpretação vocal em todo o álbum. É uma faixa arrebatadora. Que os fãs do Arcade Fire me desculpem – até porque a banda é boa e a versão original é ótima – mas Peter Gabriel fez a versão definitiva. (Curiosidade: essa faixa esteve presente na cena final do episódio 7×16, “Out Of Chute”, da série House).

“Philadelphia”, Neil Young. Música feita especialmente para o filme homônimo e faz parte da bela cena final. Assim como a canção do Arcade Fire, a intenção do arranjo é próxima à versão original. O que foi um acerto, pois respeita a dramaticidade e singeleza da gravação de Young. Mas justiça seja feita: embora Peter Gabriel tenha feito um belo trabalho, o registro original ainda é imbatível.

“Street Spirit (Fade Out)”, Radiohead. Diz a lenda que o Radiohead sequer ouviu a versão de Peter Gabriel e esnobou a participação no I’ll Scratch Yours. O que importa é que Peter Gabriel fez mais um excelente trabalho, terminando muito bem o álbum. A faixa preza pela delicadeza e investe nas sutilezas. Primeiro, temos apenas voz e piano – é preciso muita coragem e recursos para enfrentar uma interpretação dessa forma. Depois, entram as cordas, sem exageros e respeitando o clima denso da faixa.

A seguir, o tracklist completo, com os artistas originais:

1. “Heroes”, David Bowie
2. “The Boy in the Bubble”, Paul Simon
3. “Mirrorball”, Elbow
4. “Flume”, Bon Iver
5. “Listening Wind”, Talking Heads
6. “The Power of the Heart”, Lou Reed
7. “My Body Is a Cage”, Arcade Fire
8. “The Book of Love”, The Magnetic Fields
9. “I Think It’s Going to Rain Today”, Randy Newman
10. “Après moi”, Regina Spektor
11. “Philadelphia”, Neil Young
12. “Street Spirit (Fade Out)”, Radiohead

Ouça a versão de Peter Gabriel para “My Body Is A Cage”, do Arcade Fire:

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