Dez clichês do rock

A partir dos anos 1980, com a chegada da MTV, a indústria de entretenimento montou uma azeitada máquina para faturar em cima de subprodutos que surfavam na new wave, no glam metal e em outros subgêneros da ocasião. De lá para cá, o jogo das gravadoras caiu, mas a indústria do hype segue firme e máquina de clichês continua se reinventando. Ao pesquisar para esta lista, constatei que muita gente boa já recorreu as essas muletas retóricas. É como se os medíocres puxassem os bons para baixo. Mas, fazer o quê, né? (nossa, que clichê horrível). Bom, vamos aos piores momentos dos nossos poetas de botequim:

1) “I want/need your love” – esse é o primeiro clichê que aparece na cabeça de um artista sem nenhuma inspiração. Curioso é que a desculpa para tanta preguiça de pensar em algo diferente costuma ser “precisamos de singles”. E no fim esse tipo de poesia rasa acaba sendo a única chance dos “One Hit Wonders” de acertar o alvo.

2) “Everything is gonna be alright” – essa é fácil de explicar: o cara fez merda, não sabe o que fazer para resolver e se sai com essa de “tudo vai dar certo”. Sejamos francos, empurrar com a barriga e manter o otimismo é uma solução que todo mundo usa no cotidiano, né? Por isso a identificação com o público é tão imediata.

3) “All I want, all I need” – esse é um dos clichês mais usados em músicas de declaração de amor. O que mais dói reconhecer é que tem músicas realmente boas em que esse clichê foi enxertado. Tudo o que eu não queria e nem precisava… Que saco!

4) “My mama told me…” – Roqueiros sempre gostam de posar de fodões e arruaceiros, mas reparem como, na hora de escrever, os bebês chorões vão lá remexer as memórias de quando ainda eram filhinhos da mamãe. Deem uma mamadeira para esses bundões!

5) “Come on, baby” – no processo de composição, geralmente as letras são escritas separadamente da música. Aí quando vão juntar as duas coisas, sobram várias lacunas. Como preencher isso sem ter de quebrar demais a cabeça? Come on, baby…

6) “You know what I mean…” – essa é quando o cara escreve um negócio que nem ele sabe explicar. E se alguém perguntar o significado, eis aí uma boa oportunidade para deixar um mistério no ar e bancar o poeta “profundo”, na linha “só os fortes entenderão”.

7) “Hold on” – esse é do tipo “variações do mesmo clichê”. É “hold on to me” pra lá, “hold on to love” pra cá… Já repararam no tanto de músicas que chamam “Hold On”? E não são releituras umas das outras, não. Parece que todos tem a sua própria “Hold On” na gaveta. Desde os gênios, como Yes e Santana; passando pelos esforçados, como Tom Waits e Alabama Shakes; até os bisonhos, como Jonas Brothers e Michael Bublé.

8 ) “I woke up this morning…” – fala sério! Desde quando rockstar acorda de manhã? Se acordou antes do meio-dia, é porque a agenda de shows está vazia. E esse clichê é o pior dos dois mundos, porque, ou o cara está tentando posar de boêmio na ressaca, ou deixou escapar que acorda cedo todo dia pra comer mingau e ficar fortinho. Fucking losers!

9) “Coming back home/to you” – esse aí é o melô do roqueiro arrependido. Só que agora é o melhor dos dois mundos. Chifrou a namorada até cansar e, 500 groupies depois, chegou à conclusão de que ama a pobre coitada quer voltar para ela. Resultado: o single vira um sucesso e ela o aceita de volta (não necessariamente nesta ordem).

10) “Wash away my sins” – mais uma da lavra “senhor, eu pequei”. Porra, a graça do rock é poder fazer todas as cagadas possíveis sem olhar para trás. E melhor ainda é ser perdoado pelos fãs, pela família, por todos. Esse papo de pecado é coisa de banda gospel. Que tenham mais colhão na hora de pecar ou que larguem o rock para fundar uma igreja!

E se vocês repararem bem, dá pra reunir todos esses clichês numa mesma música.
Ficaria assim:

I woke up this morning, and my mama told me
To wash away my sins, and hold on to love
I said ‘Come on, baby, It’s gonna be alright’
I need love, you know what I mean…
It’s everything I want, everything I need
I’m coming back to you

* AVISO: se alguém tiver a pachorra de lançar esta merda, pode até ficar rico, mas vou exigir meus direitos autorais.

2 Responses to “Dez clichês do rock”

  1. André Luiz disse:

    Se for possível acrescentar mais um item à lista, um clichê incessante do rock é ter músicas com refrão preenchidos por sílabas, tais como la-la-la-la, ou na-na-na-na ou outra coisa que (não) vale. Isto também acontece no fim das músicas, quando não há mais nada a dizer e não dá mais tempo para solos instrumentais. Às vezes funciona, outras vezes apenas torna a música um chiclete já sem gosto e indigesto.

    • Diogo Salles disse:

      André, aí eu incluiria na lista de “Onomatopeias do rock”.
      Exemplos não faltam: “hey-hey”, “Sha-la-la”, “na-na-na”, além dos indefectíveis “oh, yeah” e congêneres.

      abs
      Diogo