‘Some Kind Of Monster salvou o Metallica’

Mark Eglinton é jornalista, autor de livros e foi ghost writer de Rex Brown no livro sobre sua carreira e seus conturbados dias no Pantera (confira a resenha aqui). A outra grande empreitada musical/literária de Eglinton foi a biografia de James Hetfield, líder do poderoso Metallica. O livro segue a mesma fórmula do livro sobre o Pantera. O subtítulo sugere um certo sensacionalismo, “O Lobo À Frente do Metallica”, mas é um relato muito mais voltado ao público geek do que aos polemistas de rede social. Mesmo que fique faltando entrevistas com membros da banda e gente próxima ao quarteto, Eglinton consegue preencher a narrativa com boas observações sobre o contexto musical de cada etapa da vida do personagem principal. “O Metallica é conhecido por não se envolver em projetos nos quais não tenham nenhum controle, mas sei através de fontes que eles viram o livro”, diz o autor. Tendo a infância problemática de Hetfield como ponto de partida ― primeiro com o abandono do pai, e depois com a morte da mãe ―, o jovem James canaliza todos seus sentimentos através da música. Apesar de trazer claramente a visão de um fã, Eglinton não deixa de investigar a personalidade problemática do líder do Metallica e de seus problemas com o álcool. Também não esconde do leitor sua decepção com o direcionamento musical tomado a partir do polêmico disco Load (1996), tecendo fortes opiniões sobre os momentos menos brilhantes da carreira da banda. A seguir uma conversa por e-mail com o autor.

Em seu livro, você molda James Hetfield a partir de experiências traumáticas que ele teve na infância. Você acredita que esses eventos foram o gatilho para aflorar seu talento? Conflitos e dramas pessoais são ingredientes essenciais para a genialidade?
É difícil dizer se a educação e a circunstância familiar determinam o que a pessoa vai ser. É uma questão de opinião. No caso do Hetfield ― e aqui é só uma especulação ― me parece que sua vida familiar o encorajou em sua determinação e autoconfiança, e isso certamente o ajudou em sua carreira. Do ponto de vista das letras, vemos que ele usa bastante suas referências e experiências ― a maioria delas dolorosas e desconfortáveis.

O Metallica criou uma base de fãs bastante sólida nos anos 80 ao estabelecer os padrões do thrash metal. E aí veio o Black Album, que alguns veem como o maior disco de heavy metal de todos os tempos e os fãs mais radicais o veem como uma maldição. Você vê que esse disco como uma faca de dois gumes?
Não acho que seja uma faca de dois gumes. Sou daqueles que vê esse como o maior disco de metal de todos os tempos. Não sabíamos disso na época, mas o Metallica é o tipo de banda que não atende aos desejos dos fãs quando vai gravar um disco. Eles fazem apenas o que eles querem, sem nenhuma culpa. Obviamente que tem muitos fãs que adorariam vê-los fazer álbuns de thrash exatamente iguais aos quatro primeiros, mas a fórmula ficaria desgastada. Eles tinham de seguir um caminho e, como vimos, o Black Album era a direção certa. Foi a tempestade perfeita, de estilo, som e o mais importante: timing.

Você permeia o livro com comentários fortes sobre a indústria da música e seus discos menos preferidos da banda. Como você separa informação de opinião? Você acredita que a recepção dos fãs e as vendas encerra qualquer discussão sobre um disco?
Eu diria que minhas opiniões estão geralmente alinhadas com as dos fãs. Load e Reload foram mal recebidos, mas venderam muito mais do que a maioria das bandas jamais poderiam sonhar em vender. Não que isso importe ao Metallica. Eles nunca se desculpam por mudanças de direção ― e nem deveriam. Dito isso, mesmo que encontremos boas músicas tanto em Load quanto em Reload (e eu as identifico claramente no livro), há muitas músicas fracas. Você não vê muitos fãs pedindo músicas como “Ronnie” e “The House That Jack Built” nos shows, vê? Isso explica.

Você acha que eles perderam a fome depois do imenso sucesso do Black Album? Não acha que os fãs ficaram mais chocados pelo look estilo U2 do que propriamente com o som de Load?
Eu acho que foi um pouco das duas coisas. O look era novo e o som acompanhou essa mudança. Essa foi uma combinação difícil para alguns fãs digerirem. Não acredito que eles tenham perdido a fome. Acho que eles queriam experimentar em todos os sentidos. Mas eu ficaria surpreso se eles não sentissem uma trepidação ao lançar o disco seguinte ao Black Album. Quero dizer, como você dá continuidade ao disco de maior sucesso da história do heavy metal? Além disso, lembremos que era 1996 ― um dos períodos mais difíceis para o metal ―, e ainda assim Load vendeu 680 mil cópias na primeira semana. Temos de colocar o sentido de “fracasso” em perspectiva aqui!

Se em Load a questão era a direção musical tomada, em St. Anger o problema era de se tratar de um disco desastroso até a medula. E aí fica a pergunta: se as músicas não estão funcionando, por que lançar o disco mesmo assim?
Eu – como a maioria das pessoas ― fui bastante severo com St. Anger no livro. Talvez até severo demais. Mas a produção é horrível. Eles buscaram um som mais orgânico, estilo “garagem” e simplesmente não deu certo. Algumas bases ali, com uma produção melhor, teriam dado um resultado diferente. Mas acima de tudo, esse disco foi feito por uma banda que estava se despedaçando naquela época e o resultado refletiu bem isso.

E foi das gravações desse disco que saiu o documentário Some Kind Of Monster, que gerou uma grande polêmica. Por que a banda resolveu se abrir desse jeito e de uma forma tão brutal?
Não tenho certeza de que era esse o plano inicial, mas acho que todos se deixaram levar pelo processo e perceberam que era um passo necessário para a sobrevivência da banda. Fez com que cada membro fizesse uma avaliação de uma forma que eles nunca haviam feito. Esse documentário salvou a banda, não tenho nenhuma dúvida disso. Rex Brown me disse que ele gostaria de ter visto o Pantera passar pelo mesmo processo. Expressar emoções desse jeito não é visto como uma atitude muito rock n’ roll, mas acho isso bobagem. Somos todos humanos e em algum ponto de nossas vidas precisamos encarar nossos demônios.

Sempre ficou claro que Hetfield e Lars Ulrich lideram o Metallica, mas seu livro deixa sugerido que Hetfield é o cérebro, o coração e a espinha dorsal da banda. Nos faz pensar o quanto Lars participou das composições…
Eu sempre achei que o melhor papel do Lars na banda é o de porta-voz. O episódio do Napster deixa isso explícito. Mas dizer que ele não participa muito das composições seria injusto ― ele é parte vital dessa sinergia. Por exemplo, foi decisão dele alterar o que se tornou o riff de “Enter Sandman”. Foi uma mudança sutil, mas tornou o que era uma música decente num dos maiores clássicos da história do heavy metal. Penso que essa é a sua especialidade.

Falando em Napster, esse assunto permanece incômodo tanto para a banda quanto para os fãs. Essa foi mais uma empreitada pessoal do Lars Ulrich ou a banda estava totalmente fechada com ele? Como eles (e você) veem esse episódio hoje?
Eu imagino que a banda estava toda de acordo ― mas isso é só um palpite. Como eu disse, Lars era o cara certo para enfrentar esse tipo de batalha, o que ele fez muito bem. James e Kirk tem outras habilidades e acho que estavam satisfeitos em ver Lars lutando por eles. Como vejo isso hoje? Da mesma forma vi na época: Lars estava 100% certo, defendendo os interesses da banda. Se você trabalha com música, você deve receber por isso. Toda essa polêmica foi concentrada em torno de uma coisa só: controle. O Metallica entende que deve controlar sozinho o que acontece com sua música (a discussão girava em torno da música “I Disapear”). Tenho certeza que Lars vê a questão da mesma forma hoje e ficaria surpreso se ele visse diferente. Mas, em retrospecto, acho que hoje ele teria abordado a questão de outra forma. De qualquer maneira, duvido que ele considere esse episódio algo relevante em sua carreira.

Os fãs do Metallica são dramáticos em relação a todos os aspectos da banda. Por que esse sentimento de amor e ódio extremo sempre esteve presente na história da banda? Como você vê esses votos de amor eterno do Hetfield aos fãs depois dos shows da banda?
É um fato documentado que James sempre teve dificuldade em entender o conceito de amor ― como a maioria das pessoas. Cada um vê o amor de uma forma diferente, é uma coisa bastante pessoal. James sempre foi durão e acredito que, com o passar do tempo, ele aprendeu a expressar seus sentimentos mais abertamente, não apenas através das letras. Além disso, o Metallica vendeu milhões de álbuns e lotou arenas pelo mundo, portanto é perfeitamente lógico dar esse reconhecimento e expressar gratidão com as pessoas que tornaram isso possível: os fãs. Sem fãs, bandas não existem.

James Hetfield é apontado como um dos guitarristas mais influentes do rock. Por que essas listas de guitarristas feitas por sites e revistas especializadas têm preferência pelos solistas em detrimento dos guitarristas base? O Hetfield conseguiria tocar um solo tão bem quanto o Kirk Hammett?
James é um guitarrista sem comparações. Ninguém articula riffs com tanto peso e precisão quanto ele. Nesse aspecto ele é inigualável. Se ele pode solar? Sim, ele pode ― provavelmente não com tanta destreza como o Kirk. O Kirk tende a explorar escalas incomuns enquanto que os solos do James são mais baseados em escalas de blues. Dito isso, o que lhe falta em virtuosismo, lhe sobra em emoção e pegada. É um guitarrista magnífico.

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