As Is – uma verdade diferente do Van Halen

Dois mil e catorze foi um ano melancólico. Esquizofrênico, eu diria. Afora o “coito interrompido” da Copa do Mundo e as eleições mais sujas dos últimos 25 anos, todas as pessoas com quem conversei deram o mesmo diagnóstico: foi um ano particularmente difícil no aspecto econômico. Mas não estou aqui para refletir sobre a causa, e sim sobre o efeito. Outro dia, ouvindo Van Fuckin’ Halen ao lado de outros die hards, a letra de “As Is” saltou da caixa de som e grudou na minha cabeça. Pausa dramática…

Nós, amantes de rock, tendemos sempre a prestar mais atenção na música, em detrimento da letra (o oposto do que fazem os ouvintes de MPB, por exemplo). Musicalmente, “As Is” é dinamite pura. Introdução, arranjo, solo, refrão, tudo. É uma botinada na fuça, em português castiço. Até o momento funky a la Barry White do Dave serve à música como um coringa numa canastra. Eu já tinha prestado atenção a essa letra quando o disco saiu em 2012, mas foi só agora em 2014 que eu vivi o que o David Lee Roth escreveu (guardadas as suas gigantescas proporções, é lógico). E quando a gente vive uma letra, ela ganha outro sentido.

Esse foi de longe o meu pior ano em termos financeiros desde 2005. Se por um lado meu livro Trágico e Cômico – os protestos em charges foi um sucesso editorial e gerou boa repercussão; por outro, minha saúde financeira inspira cuidados. Como costumo dizer, o dinheiro pode até não trazer felicidade, mas experimenta ficar sem dinheiro para ver a tristeza que é. Quem é artista/ilustrador/designer/escritor e ganha seus rendimentos através da economia criativa e clientelas rotativas (vulgos freelas), sabe bem do que estou falando.

Voltando à letra, neste ano, nada me soou tão verdadeiro quanto esses dois trechos:

Yesterday I was a bum and broke.
Today I am a star and broke.
In this town that’s called progress,
That’s how we do biz.

Love of the craft
Or love of the buck?
Every day down here’s a rainy day.
We don’t save up.

Ouça a música aqui:
 

No primeiro trecho, nota-se como a palavra “sucesso” pode ser relativizada sob qualquer aspecto. Já no segundo, Roth levanta a questão hamletiana de todo artista: ser idealista e autoral (sob o risco de ficar no limbo artístico e financeiro); ou ser pragmático e empreendedor (jogando com o mercado e buscando surfar a onda do momento)? A pergunta “amar a arte ou amar a grana?” é tanto retórica quanto cirúrgica, sintetizando essa dualidade, como que num haicai do Millôr Fernandes. Sem falar do delicioso cinismo em “I’ve been rich and I’ve been poor/ rich was better, totally better”. Espero ficar rico um dia para compreender essa parte.

Ouso dizer que poucos no universo do rock conhecem tão bem os altos e baixos de uma carreira artística quanto David Lee Roth. Do megaestrelato dos anos 80, ele viu sua popularidade e fortuna irem ao chão nos anos 90. Numa pesquisa que fiz para o especial Discos de 1994, lá estava o velho Dave, no ponto mais baixo de sua carreira, com o polêmico Your Filthy Little Mouth. Mas naquela oportunidade, podia-se perceber um certo ar de desespero em sua voz, ainda que o humor estivesse intacto. Já em 2012, com A Different Kind of Truth, ele consegue colocar todas essas experiências em perspectiva. E “As Is” é uma sumidade ao dissecar sarcasticamente o moedor de carne no showbiz.

Se este ano também foi ruim para você que me lê agora, experimente desopilar toda a sua frustração e toda sua raiva ouvindo “As Is” no talo. Aguente firme as reclamações de sua família. Mande o seu vizinho pastar, se for preciso. Mas ouça a música. Ouça de uma forma que você possa se sentir dando um bico em 2014 e avisando que esta merda não vai se repetir em 2015. Um feliz natal e ano novo a todos. E vida que segue.

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3 Responses to “As Is – uma verdade diferente do Van Halen”

  1. Lélio Leonardo disse:

    Nooossaaaa….ESPETACULAR MATÉRIA, ESPETACULAR TEXTO, Gostei de tudo que o autor, o qual não consegui identifica lo, escreveu, concordo com tudo no conteúdo e na forma, tanto no que se refere a letra da música quanto na realidade da vida seja de David Lee Roth no show biz americano seja na vida de qualquer um de nós simples mortais, ou em relação a realidade do ano HORRENDO do ponto de vista político e econômico que esta se terminando.
    Parabéns,
    Lélio Leonardo

  2. PAulo disse:

    Apesar do autor ser contra a briga DLR e SH ainda acho muito muito ruim o DLR. A música para mim fica parecendo um punk rock californiano quando entra no refrão…

    • Ge disse:

      Tem gente que prefere o Hagar mesmo.
      Baladas POP com rimas fáceis e repetitivas vendidos como canções “maduras” (Como Hagar pensa que suas letras são) são mais fácies de digerir mentalmente…
      DLR cansa quem tem preguiça.
      Eu acho ótimo.
      As letras e o VH com Roth separa os homens dos meninos.
      “Ain´t Talking about Love” é bem diferente de “Why can´t this be love?” mesmo.