Phil Lynott: um mito subestimado no mundo do rock

> por Luiz Augusto Lima

Phil Lynott é muito mais do que um personagem obscuro e subestimado do rock. Resumi-lo com estes adjetivos seria outra das injustiças que se comete com este personagem ímpar. O melhor caminho é tentar entender os motivos de a história do rock não relegar a este letrista de mão cheia, vocalista carismático e baixista criativo um lugar entre seus grandes ídolos.

Se você não sabe direito quem foi Phil Lynott, não se sinta culpado. Vamos às apresentações: Phil foi o criador e líder da banda Thin Lizzy. Opa, pode ser que não tenha ajudado muito, não é? O Thin Lizzy sofre exatamente da mesma obscuridade que atingiu seu fundador. Apesar de ter gravado álbuns muito bons e inspirado tanta gente que renovou a música na virada dos anos 70 para os 80, a banda ocupa uma espécie de “Série B” no campeonato mundial dos maiores grupos da história.

Para ter uma ideia, recente edição da revista Rolling Stone com os 500 maiores álbuns da história (QUINHENTOS!) não traz qualquer menção ao Thin Lizzy. Algo absolutamente inexplicável. Esqueceram a banda que renovou o orgulho irlandês ao reinventar a cantiga popular “Whiskey In The Jar” com um inesquecível riff e gravou clássicos como “The Boys Are Back In Town” e “Jailbreak”, só para citar as mais conhecidas.

Mas voltemos a falar de Lynott e de suas origens. Nascido na Inglaterra, em 1949, cria do amor clandestino entre uma garota irlandesa e um cara da então Guiana Inglesa (hoje em dia apenas Guiana), nosso personagem foi forjado com todo tipo de sentimento que dá origem a um grande poeta do rock: não foi criado pelo pai, viu a mãe sofrer um tremendo preconceito por ter tido um filho de um homem negro sem sequer ter se casado e ele próprio foi alvo de racismo por toda infância e adolescência. (Em tempo: por décadas acreditou-se que o pai de Phil fosse brasileiro, mas a nacionalidade correta foi divulgada pela própria mãe do músico há alguns anos.)

Esta aspereza teve como cenário as ruas de Dublin, na Irlanda, onde Phil foi criado. Como já podemos adivinhar ele canalizou todo este furacão para o rock´n roll e a poesia. Nosso personagem passou os anos 60 fazendo tentativas de formar uma banda relevante, e conseguiu o feito já no final da década, com o Thin Lizzy.

O rock irlandês vivia então uma efervescência, mas ainda encontrava enorme dificuldade para emplacar além mar, mesmo no Reino Unido. E foi com um desacreditado lado B de um single, gravado já após o lançamento de dois álbuns, que o Lizzy estourou. Estamos falando de “Whiskey In The Jar”, regravada décadas mais tarde pelo Metallica.

Ao longo dos anos 70, a banda lançou álbuns consistentes de hard-rock, a se destacar Nightlife (1974), Jailbreak (76) e Bad Reputation (77). O LP ao vivo Live and Dangerous, de 1978, registrou toda esta boa fase e é considerado um dos melhores álbuns “live” do rock.

O Thin Lizzy sempre teve muita pegada, sustentada é claro por músicos competentes, tais como os guitarristas Eric Bell (co-fundador da banda ao lado do baterista Brian Downey) e John Sykes (que depois iria para o Whitesnake) – isso sem falar no insuspeito talento de Lynott como baixista e vocalista.

O maior e mais prestigiado parceiro de Phil Lynott, tanto na banda quanto em carreira solo, foi o lendário guitarrista Gary Moore, morto em 2011. Moore participou de boa parte da melhor fase do Lizzy, em meados dos anos 70, e contou com Lynott como colega de um de seus maiores sucessos: “Parisienne Walkways” (1979).

As letras de Lynott falavam da turma de amigos que circulavam por Dublin, de drogas, solidão e amor. Amor por outras mulheres, pela mãe e pelas filhas. Melancólico, não teve medo de flertar com a música romântica em suas aventuras solo no começo dos anos 80.

Mas a verdade é que Phil Lynott era um homem de grupo, um cara de gangues, de bandas. Com o fim do Thin Lizzy e o fracasso de sua nova banda, a Grand Slam, acabou sucumbindo de vez ao álcool e às drogas. Morreu no dia 4 de janeiro de 1986, aos 36 anos. Anos depois, amigos, ex-colegas de banda e a mãe, Philomena, inauguraram uma estátua de Phil em Dublin, registro permanente da admiração irlandesa por aquele filho meio sul-americano.

Toda essa história explicou os motivos que levaram nosso (anti)herói a permanecer subestimado no mundo do rock? Claro que não. Afinal, não é preciso explicar Phil Lynott. Ele nasceu para ser “gauche” na vida. E ponto final. O melhor agora é escutar Thin Lizzy!

One Response to “Phil Lynott: um mito subestimado no mundo do rock”

  1. Pedro disse:

    As histórias q ele conta em suas letras são fantásticas.