20 anos sem Tom Jobim

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O dia 08/12 ficou marcado no rock como o dia dos assassinatos de John Lennon, em 1980 e do guitarrista do Pantera, Dimebag Darrell, em 2004. Mas a data também marca a morte de um dos maiores – senão o maior – músicos brasileiros: nosso maestro soberano, Antonio Carlos Jobim, que partiu em 1994, aos 67 anos. Tom tinha aquela rara capacidade – dos gênios – de compor canções complexas na teoria, mas que soam simples aos ouvidos de todos. E, como todo craque conhece os atalhos de um campo de futebol, ele conhecia os atalhos da música. Como bem explica Jaques Morelenbaum, que trabalhou com Jobim:

“Uma das marcas da genialidade de Tom era a competência para dizer muito com poucas palavras. É o predicado que todo orador deseja. Música é discurso. Ele tocava duas notas e você se emocionava, via a beleza.”

tom_jobim_antonio_brasileiroE esse é um dos alicerces de sua música: a busca da beleza – e fim. Outra característica impressionante de Jobim foi de passar por diferentes fases da música brasileira mantendo sua identidade musical intacta: sua carreira começou a emplacar do início para o meio dos anos 50, colaborando com músicas e arranjos para diversos artistas até se destacar em sua parceria com Vinícius de Morais em Orfeu da Conceição. Lançou seu primeiro disco autoral em 1963; nos anos 70 continuou lançando discos vitais, como Urubu e Matita Perê – em que seu lado ecologista ficava ainda mais evidente. Em 1987, num mercado brasileiro marcado pelo rock, lançou o belo Passarim, um disco sofisticado, como sempre. Seu último registro foi Antonio Brasileiro, gravado em vida entre o fim de 1993 e o início de 1994 e lançado poucos dias após seu falecimento.

Sua obra é fenomenal, para ser ouvida e admirada por toda a vida: seja em músicas gravadas por terceiros ou em seus discos. Nesse último caso, dos álbuns, deixo aqui alguns destaques:

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The Composer Of Desafinado, Plays – De 1963, o disco de estreia – lançado no Brasil no ano seguinte pelo lendário selo Elenco (de Aloysio de Oliveira) sob o nome de Antonio Carlos Jobim. Claus Ogerman foi o responsável pelos arranjos – algo que voltou a se repetir em álbuns seguintes. Todas as músicas são instrumentais, de um bom gosto quase inacreditável. Um disco com clima cool, altamente sofisticado em todos os sentidos. É uma chuva de clássicos: “Garota de Ipanema”, “Água de Beber”, “Insensatez”, “Corcovado”, “Samba de Uma Nota Só″, “Chega de Saudade”, etc. Indicado para quem se interessa belo lado mais bossa nova do nosso maestro.

tom_jobim_stone_flowerStone Flower – De 1970, mostra tanto o lado bossa novista de Tom quanto evidencia que é muito pouco afirmar que ele é apenas um bossa novista. A abertura, “Tereza My Love”, é uma amostra do primeiro caso. “Children’s Game” (que depois virou “Chovendo na Roseira”), “Stone Flower” e “Choro” mostram como ele passeava e conhecia muito bem grande variedade de ritmos brasileiros. Uma das minhas favoritas é a linda “Amparo” – que depois ganhou letra de Chico Buarque e Vinícius de Morais e teve seu título alterado para “Olha Maria”.

tom_jobim_matita_pereMatita Perê – De 1973, mais um que conta com arranjos de Claus Ogerman. Um clássico: abre com uma versão marcante de “Águas de Março”. A densidade e tensão da faixa-título são muito bem ressaltadas pelo arranjo de Ogerman. O disco tem ótimas faixas instrumentais, como “Tempo do Mar”, “Mantiqueira Range”, “Rancho das Nuvens” e um encerramento magistral com “Nuvens Douradas”. Mas meu destaque fica para a suíte “Crônica da Casa Assassinada”, feita originalmente para o filme “A Casa Assassinada”. Imperdível, ainda tem uma pequena pérola perdida: “Chora Coração”.

tom_jobim_passarimPassarim – De 1987, é um disco que entra na categoria “memória afetiva”, pois tocou muito na minha casa. Mas também tem grandes músicas, como a faixa título; “Borzeguim” e seu vocal final arrebatador; a elegância de “Bebel” e “Izabella”. Nesse álbum, ainda sobrou espaço para dois clássicos infalíveis de Tom: “Anos Dourados” e a obra de arte “Luiza”. Mas meu destaque fica com uma outra suíte monumental – e outro clássico: “Tema de Amor de Gabriela”, uma grande viagem por diferentes paisagens musicais.

Antonio Brasileiro – De 1994, seu último registro. Acho que acabou ficando subestimado. Pode não ser seu melhor disco, mas tem grandes momentos: “Piano Na Mangueira”, “Querida” – abertura de abertura da novela O Dono do Mundo; e duas pequenas obra primas: “Radames Y Pelé” e a bela e sofisticada “Meu amigo Radamés”. Há ainda o exemplo de como Jobim é bom até em momentos despretensiosos: “O Samba de Maria Luiza”, em dueto com sua filha. Meu destaque fica para “Pato Preto”, com citação a parte da “Suíte de Amor de Gabriela”

Esses cinco discos são apenas parte da brilhante obra de Tom Jobim. Para finalizar esse texto, só me resta um pedido. Ouçam Jobim. Muito.

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