Albert King & Stevie Ray Vaughan – In Session (1983)

Em 1983, o canal CHCH-DT, uma TV independente do Canadá resolveu promover uma série encontros musicais com artistas de blues, documentando tudo em áudio e vídeo. Uma das parcerias mais famosas (e felizes) de toda a série seria o encontro entre Albert King e Stevie Ray Vaughan. A proposta original seria gravar os dois compondo novas músicas em estúdio, mas a ideia encontrava resistências. Àquelas alturas, Albert King já não tinha mais garra nem paciência para se enfurnar no estúdio para compor. Sem falar que a carreira de Stevie Ray Vaughan estava decolando, com os lançamentos de Texas Flood e de Let’s Dance (de Bowie) naquele ano. Com a dificuldade em conciliar as agendas, o formato foi redesenhado dentro das limitações de tempo: eles tocariam músicas já conhecidas numa jam session em estúdio. O grande encontro finalmente aconteceu no dia 6 de dezembro de 1983 e só os canadenses puderam ver o programa ao vivo no canal VHF de suas TVs.

Por anos, essa jam ficou guardada apenas na memória daqueles que puderam testemunhá-la. Só veria a luz do dia em 1999, quando alguma boa alma resolveu desengavetar o material e lançá-lo em CD. Em 2013, em comemoração aos 30 anos do encontro histórico, os arquivos foram desengavetados mais uma vez para uma edição especial, que ganharia versões em DVD e vinil. A fato chegou ao meu conhecimento através de um site especializado em fetiches musicais. Por 25 dólares arrematei o pacote completo: CD, DVD e vinil.

Algumas músicas resgatadas para a versão em DVD não constam no CD. Uma delas é nada mais, nada menos que “Born Under a Bad Sign”, maior clássico do veterano guitarrista. Além dessa e de outras delícias, a jam em vídeo revelou detalhes que o áudio escondia. Pela primeira vez — e talvez única em sua carreira —, Stevie Ray Vaughan aceitava passivamente o papel do coadjuvante. Macho alfa do circuito bluseiro, Vaughan era um animal selvagem e não podia ser domado quando tinha uma guitarra nas mãos. Mas ao lado de Albert King, transformou-se no aluno mais comportado e obediente da classe, tratando o mestre com máxima reverência. Demonstrava grande interesse nas histórias da carochinha do velho Rei Alberto e ouvia cada conselho com um brilho nos olhos.

King comandou o show inteiro. Puxou as músicas, deu as deixas e incentivou o pupilo, que se esforçou para não decepcioná-lo. Parecia ser o último dia de aula. Para ambos. Mais do que mestre e discípulo, aquilo era uma conversa entre pai e filho. Do alto de seus 60 anos, King avisava ao jovem de 29 anos: “Quanto melhor você fica, mais duro precisa trabalhar.” Em outro momento vaticina: “muitos desses guitarristas novos só estão preocupados em tocar com velocidade, esquecendo de tocar com alma. Você possui ambos.” Atento aos conselhos do mestre, Vaughan entregou uma de suas performances mais suaves e contidas. Em momento algum parece ter lhe passado pela cabeça mostrar seu número mais extravagante: o de solar de costas em “Texas Flood”.

O que pouca gente sabe é que aquela não era a primeira vez que os dois tocavam juntos. Dez anos antes, num show no famoso clube Antoine’s de Austin (Texas), depois de ouvir insistentes pedidos do dono do clube, Albert King deixou um desconhecido tocar uma música. Ficou tão impressionado com o garoto magrelo que o deixou tocar pelo resto da apresentação. Aquela noite de 1973 mudou a vida de Stevie Ray Vaughan. Dez anos depois de tê-lo lançado na natureza selvagem, King se reencontrava com o rapaz e era visível o imprinting que ele tinha deixado em todas as suas frases, licks e solos. É consenso entre críticos e especialistas que Albert King era disparado a maior de todas as influências de Vaughan.

Esse 6 de dezembro de 1983 seria um dos últimos registros dos dois tocando juntos. No ano seguinte, Albert King lançaria seu último disco de inéditas para depois se dedicar a shows esporádicos, até morrer de infarto em 1992. Já Stevie Ray Vaughan estava livre para ganhar o mundo e se tornar uma lenda do blues. Era o começo de sua escalada na montanha (montanha que, ele descobriria depois, era feita de cocaína). A nota triste é que, por uma dessas ironias mórbidas do destino, Vaughan morreu dois anos antes de King, num acidente aéreo.

A parte mais emocionante do encontro acontece no final. Com a banda toda de pé, vemos Albert King deixar sua guitarra no case e acompanhar os momentos finais do solo Vaughan com um sorriso de orelha a orelha. Quando a música encerra, eles trocam um longo e emocionado abraço. Para quem sabe ler nas entrelinhas, aquilo não era só uma confraternização. Era o fim de uma era e começo de uma nova. Albert King sabia muito bem o que estava fazendo. Estava fazendo história. O futuro do blues estava bem ali diante dele.

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2 Responses to “Albert King & Stevie Ray Vaughan – In Session (1983)”

  1. Pedro disse:

    Sinceramente, não os conhecia muito bem, só ouvi falar. Vou começar a ouvi-los.