Blues Pills – Blues Pills (2014)

No final de 2009, escrevi um texto dizendo que não restava muitas alternativas aos fãs do rock dito “clássico” senão seguir os passos das chamadas “superbandas”. Acreditei que tudo o que era possível fazer no rock já tinha sido feito, que uma renovação seria muito difícil e que a saída era reciclar. Cinco anos depois, mudou tudo. Primeiro porque as superbandas não cabiam em si, com tantas estrelas de brilho próprio dentro de uma mesma paisagem. O Black Country Communion se autoimplodiu, o Them Crooked Vultures parou no primeiro disco e o Chickenfoot foi posto em standby por seus integrantes. E segundo porque os sinais da renovação começaram a aparecer fora do rock, com uma nova geração de guitarristas bluseiros com fortes inclinações roqueiras, como Joe Bonamassa, Oli Brown e Gary Clark Jr.

Até que, há algumas semanas, começaram a pipocar e-mails e tuítes perguntando minha opinião sobre essa nova banda chamada Blues Pills. Meu instinto me diz que quando a mesma história chega por diversas fontes confiáveis, vale a pena investigar. Formada em dezembro de 2011, a banda reuniu todo o material que tinha gravado em EPs para lançar oficialmente seu primeiro álbum. E o resultado impressiona, pela pouca estrada. A química da banda vem basicamente da combinação de duas pílulas fabricadas na Suécia: a potência vocal da bela Elin Larsson e a guitarra incendiária do jovem Dorian Sorriaux, de apenas 18 anos.

A marca do Blues Pills já vem impressa logo na capa do álbum, remontando a atmosfera lisérgica do final dos anos 1960. E o som é condizente com o visual, um rock n’ roll de DNA bluseiro e tonalidades de soul, que remetem a Hendrix, Joplin e Cream. A faixa de abertura “High Class Woman” já mostra as credenciais da banda, com um riff marcante, vocais nervosos e espaço para um tipo de experimentação que o Deep Purple fazia muito bem em seus tempos áureos. “Ain’t No Change” parece seguir o rastro dos improvisos deixados e desenvolve um novo tema a partir daí, deixando a sensação de se tratar de uma suíte.

Em “Jupiter” o destaque é Dorian Sorriaux, mostrando que tem um bom repertório de riffs e solos. Já “Black Smoke” começa numa linha soul, mas muda a rota e termina com um rock acelerado. Diferente de “River” e “No Hope Left For Me”, que têm o soul como base do início ao fim e são os momentos de melancolia do disco. Um dos grandes destaques do álbum é “Devil Man”, um hard rock explosivo, lançado como single em 2013. Candidata a clássico. “Astralplane” desce um pouco os decibéis, mas sem perder o ritmo. O disco fecha com Sorriaux prestando seu tributo a Hendrix em “Gypsy” e com Larsson mais uma vez mostrando seu lado Janis Joplin em “Little Sun”.


Dorian Sorriaux (guitarra), Elin Larsson (vocal), André Kvarnström (bateria) e Zack Anderson (baixo)

O resultado é um belo disco de blues-rock, numa linha parecida com Don’t Explain, que Joe Bonamassa gravou com Beth Hart em 2011, mas com a diferença de trazer um som mais orgânico, valvulado e totalmente liberto de teclados e overdubs. Um disco retrô, sim, mas que soa fresco ao ouvinte e proporciona uma experiência nova à geração ProTools — além de ser uma boa alternativa para quem não curte as hashtags e selfies das bandas indie. Aplausos? Sim, mas com parcimônia. Embora os elogios à banda sejam justos, era de se esperar que alguns rótulos incômodos viessem junto.

Da noite para o dia, começaram a falar em “Novo Led Zeppelin”. Um erro. O mesmo erro que vemos acontecer com frequência no futebol. Sempre que surge um novo candidato a craque, a imprensa já o pinta como “novo Pelé”, “novo Neymar”. Tudo o que o Blues Pills não precisa neste momento é desse tipo de comparação. Esse primeiro disco serviu para fincar a estaca e abalar as certezas de quem acreditava que o The Killers e o Black Keys seriam a renovação do rock. A renovação — se é que ela existe — está em guitarristas e bandas derivadas do blues. Isso não quer dizer que eles não devam tomar cuidado com o excesso de reverências em seu som. Kenny Wayne Shepherd é um exemplo: não soube desmamar de suas influências em Stevie Ray Vaughan e se tornou um clone.

O que Blues Pills será no futuro passará muito menos pela emulação de seus ídolos e mais pela busca da identidade própria — a busca mais difícil na carreira de uma banda. Durante esse processo evolutivo, também será crucial eles escaparem dos clichês do mesmo rock que tanto lhes serviu de inspiração. Se a convivência excessiva na estrada, o abuso de “pílulas” e a guerra de egos destruíram as maiores bandas do planeta, por que essa combinação letal também não destruiria o Blues Pills? Essa é a pergunta que os novos fãs, a crítica e a própria banda devem se fazer nesse momento. A resposta, a conferir nos próximos anos.

2 Responses to “Blues Pills – Blues Pills (2014)”

  1. Johnny disse:

    Boa crítica. Ouvi apenas alguns EPs dessa banda a algum tempo atrás mas já senti que tem potencial, ouvirei o álbum com expectativa alta. Só não sei se entendi porque “a renovação está em guitarristas e bandas derivadas do blues”

    • Diogo Salles disse:

      Johnny, quis dizer que as boas novidades do rock atual, na minha opinião, vieram quase todas do blues. Curiosamente é o mesmo fenômeno que ocorreu nos anos 60.

      Grande abraço