U2, Songs of Innocence e a inocência da Apple

Atenção, lovers e haters: o U2 está de volta. E os tempos de inocência parecem estar só do título do disco pois, sonicamente, Songs of Innocence é bem mais acessível e fácil de ouvir do que o melancólico No Line On The Horizon (2009). Quando digo acessível, digo menos autoral e menos ousado — o que não quer dizer ruim. Longe disso. O novo disco marca, acima de tudo, a volta dos refrões marcantes, dançantes e fáceis de cantar junto. Para atingir tal resultado, a banda contou com a tropa de elite dos produtores do momento, como Danger Mouse e Paul Epworth. No todo, o disco soa mais próximo de How To Dismantle An Atomic Bomb (2004), mas com algumas reminiscências do U2 dos anos 80 e 90. A capa é muito bem pensada, simples e elegante.

“The Miracle (Of Joey Ramone)” abre o álbum com o manjado “ô-ô-ô”, mas Bono sabe tirar a música do lugar comum com uma boa melodia e uma letra autobiográfica. Ao mesmo tempo, The Edge aposta num timbre carregado de efeitos, como se fizesse um mix sonoro de “The Fly” com “Vertigo”. “Every Breaking Wave” e “Song For Someone” seguem com a longa tradição de baladas carregadas de metáforas da banda, sendo a primeira mais melódica e a segunda mais grandiosa. “California (There’s No End To Love)” flerta perigosamente com o clichê e possui aquela cara de hit com apelo tanto para rádios quanto para shows. “Iris (Hold Me Close)” é mais um daqueles momentos “Achtung vibe” do disco, onde Bono revisita o maior fantasma de sua vida: a morte de sua mãe.

Por outro lado, “Volcano” e “Raised By Wolves” soam como um U2 vintage, trazendo de volta aquela pegada mais básica e direta, de guitarras “na cara”, soando como nos bons tempos de War (1983). “This Is Where You Can Reach Me Now” é outro belo exemplo de como o U2 sabe criar boas músicas, com um refrão que gruda na cabeça e temperos de pop, reggae e até new wave. “The Troubles” fecha o tracklist com um delicioso clima etéreo. O resultado final é um disco coeso e enxuto, mais inclinado ao pop, mas sem grandes novidades. Embora traga reminiscências do passado, a banda sabe a hora de parar com as autoreferências para não cair no erro de soar como cópia de si mesma. Resumindo: é o U2 que todos conhecemos.

O grande buzz do lançamento, contudo, não passou pelas escolhas musicais e estéticas da banda, e sim pela estratégia mercadológica. A parceria com a Apple e a chegada do disco em conjunto com o Apple Watch preencheu simultaneamente o noticiário de tecnologia e os cadernos de cultura. Foi nesse dia que a Apple mostrou que sua tara pela sincronização não conhece limites. De uma hora para outra, todos os iPhones do mundo se viram invadidos pelo “vírus” U2 e Songs of Innocence pipocou inadvertidamente nos playlists.

Estratégia ousada, mas arriscada. Claro que muita gente quer ouvir o que o U2 tem de novo para mostrar, mas não todos. Muitos usuários chiaram e criaram um tutorial para deletar as músicas dos dispositivos (detalhe para a pegadinha: não há como deletar as músicas da nuvem, apenas deixá-las ocultas). Certamente não passou pelas cabeças de Bono e Tim Cook que vivemos tempos de escolher, selecionar e personalizar ao máximo tudo o que consumimos. Essa viralização forçada do disco soa como uma imposição firmada entre as duas partes, sem deixar qualquer opção ao consumidor e/ou ouvinte. Um tipo de marketing invasivo que, muitas vezes, gera efeitos contrários ao pretendido — como pop-ups cobrindo uma home inteira ou sites que nos obrigam a “curti-los” no Facebook para liberar a leitura. Fora que só a ideia de um disco do, sei lá, Bruno & Marrone invadir o meu playlist sem meu consentimento me dá calafrios.

A grande ironia, porém, aconteceu com este que vos escreve. Embora eu estivesse muito interessado em ouvir Songs of Innocence, havia problemas de configuração no meu iTunes, o que me impedia de baixar as músicas (elas apareciam no playlist, mas não podiam ser tocadas). Depois de resolvido o problema, as músicas sumiram de meu player e no site dava como “comprado”, não havendo opção de clicar para baixar de novo. Não me restou muita alternativa, senão pedir a uma boa alma que me enviasse as músicas via Dropbox. Claro que meu caso deve ter sido daqueles “1 em 1 milhão”, mas deixa algumas pistas sobre os descaminhos da Apple (um relógio, sério?), tanto que a empresa já vê a Amazon tomando seu espaço e se tornando o novo mamute do mercado. Realmente só existe um Steve Jobs.

Quanto ao U2, uma semana depois do lançamento, ficou mais fácil entender qual era a estratégia. Primeiro eles ganham as manchetes, depois cria-se a polêmica do “disco viral”, agora eles colhem os resultados das compras de música digital do catálogo da banda, providencialmente colocado a soldo do novo disco. É a velha estratégia de dar uma parte de graça e vender a outra. No fim, o acordo financeiro de U$ 100 milhões parece ter sido bom só para a banda. De acordo com os números oficiais, 33 dos 500 milhões de usuários acessaram o disco via iTunes. Parece pouco, mas não é. A conta é simples: se há cinco anos 1,1 milhão de pessoas compraram No Line On The Horizon para ouvir, agora o U2 conseguiu chegar a um público 30 vezes maior e ainda foi muito bem pago por isso. E erra quem pensa que o jogo acabou. Em outubro eles voltarão com o disco em formato físico e já se pode prever que chegará cheio de mimos para quem quiser comprar música ao estilo “old school”.

Se por um lado o U2 se mostra bastante agressivo como empresa, com tentáculos em setores estratégicos do mundo do “bísni”, por outro lado, aos fãs, a pergunta que cabe é análoga à que Keith Richards passou a vida fazendo a Mick Jagger: não basta ao U2 simplesmente ser o U2?

4 Responses to “U2, Songs of Innocence e a inocência da Apple”

  1. Caio disse:

    Uma bosta esse disco, afundaram mais ainda na superficialidade que se tornaram:

    Aquela banda num palco legal no multishow com musiquinhas pops e bem vestidos sem nenhum “show” por parte do instrumental…

    • Caio disse:

      Achei o No line mais bem trabalhado tbm, embora não tenha tido tanto sucesso, pelomenos tinha algumas faixas com mais pegada, este esta muito solto, solto o suficiente para ninguem se apegar.

  2. Lucas Gomes disse:

    Diogo,

    Ainda tenho que ouvir muito o álbum pra entendê-lo. Gostei bastante dessa pegada dos antigos álbuns. O tributo a Joey e também à Beach Boys no início de California também. “Coeso” é uma boa expressão para definí-lo. Acredito que não erraram, mas poderiam ter acertado mais.

    Quanto ao marketing junto à Apple é algo que (infelizmente) parece que tem que ser feito assim pra música de qualidade receber atenção das massas.
    Teria necessidade de Foo Fighters fazer uma séria pra lançar um álbum? Não! Mas se faz assim pra receber o devido valor por aqueles não fãs de Foo Fighters, mas que assistem HBO.
    Do ponto de vista saudosista é melhor o U2 ser o U2 mesmo, mas acredito que financeiramente pra eles não poderia ter funcionado de melhor forma.

    Lucas

  3. Diogo Salles disse:

    Caio, um tanto rigorosa a sua análise, embora válida.

    Lucas, errar ou acertar é bastante relativo. O fato é que eles não quiseram arriscar tanto quanto fizeram em 2009.

    Sobre atrair a atenção do público, esse é outro conceito que tem mudado muito nos últimos anos.

    abs
    Diogo