Verdade Oficial nos Bastidores do Pantera – Rex Brown com Mark Eglinton (2014)

O Pantera foi uma das grandes bandas de metal dos anos 90 – tanto em termos de vendagem quanto de influência. Quando um grupo chega em níveis assim de relevância, sua trajetória apresenta muitas histórias e polêmicas. E, como sempre, temos várias versões e opiniões diferentes sobre um mesmo fato. Por isso, foi uma boa novidade o lançamento do livro de memórias do baixista do grupo, Rex Brown – escrito junto com Mark Eglinton – Verdade Oficial nos Bastidores do Pantera. Por ser um membro mais, digamos, discreto – ao menos em relação à exposição da mídia - ele traz uma visão dos fatos com menos ranços do que, por exemplo, as do baterista Vinnie Paul e do vocalista Phil Anselmo, que vivem em conflito. Embora, claro, todo relato particular também tenha muitos vícios.

O livro é de leitura simples e rápida, com boas histórias. Parte do começo da carreira de músico, sua entrada no Pantera, o auge e queda do grupo até seus dias atuais – passando, claro, pelo trágico asssassinato do guitarrista Dimebag Darrell. Talvez o mais interessante em seu depoimento seja contradizer o título do lançamento, que é pretensioso: supostamente traria a “verdade oficial” sobre o grupo. Ao contrário, Rex em dois ou três momentos do livro deixa claro que sua intenção foi apenas a de fazer um relato honesto da sua visão dos acontecimentos de sua carreira.

Rex Brown permeia o livro com algumas boas observações sobre os acontecimentos e o mercado. Por exemplo, de como o lançamento do disco Vulgar Display of Power acabou preenchendo o espaço deixado pelo Metallica após o lançamento do Black Album: enquanto o grupo de Lars Ulrich e cia ia se aproximando de um som mais comercial e do grande público, os amantes de um som mais pesado, cru e sem concessões procuravam alternativas. E o Pantera foi uma delas.

Sobre como construir uma grande banda, algumas sacadas interessantes. Temos, por exemplo, o fator “uau”: como uma banda tem que desenvolver seu som e seu show até o ponto em que se torna tão incrível que não pode ser ignorada. Na opinião de Bown, foi esse um dos fatores que levou o Pantera à fama, em especial quando faziam shows de abetura para bandas maiores: impressionando os presentes e angariando mais fãs. Aliás, ele ressalta o quanto uma base de fãs é vital: embora o grupo nunca tenta tido hits no rádio, tinha fãs fiéis em todo o mundo, que lotavam os shows. E, principalmente, a importância de fazer uma intensa e extensa rotina de shows no começo de carreira: para formar público, entrosar a banda e dar uma certa credibilidade às bandas. Nesse sentido, temos o depoimento do empresário do Pantera, Walter O’ Brien, ressaltando que isso era necessário para criar um forte elo com os fãs. Em suas palavras, sobre o lançamento de Cowboys From Hell:

“Normalmente, bandas de metal tocariam por apenas oito semanas mas eu disse ‘Não, essa banda tem que tocar todos os dias da semana pelo menos por um ano’, porque é assim que você faz uma banda estourar”

Por todo o livro, o baixista vai aos poucos elencando os problemas básicos que levararam o Pantera – e em geral levam toda grande banda – à deterioriação de seu relacionamento. Essa lista inclui: a entrada de grandes quantias de dinheiro, fama, drogas e/ou álcool, crises de estrelismo, excesso de turnê, falta de comunicação. E, também, um item muitas vezes subestimado, mas que atrapalha muito: a influência de terceiros, em especial os puxa sacos e “amigos” da fama.

Um dos momentos mais esperados do livro é, claro, a visão sobre as consequências do assassinato do guitarrista Dimebag Darrell por um “fã”, em 08 de dezembro de 2004 em pleno show do Damageplan – grupo pós Pantera que o guitarrista havia montado com seu irmão Vinnie Paul Abbott. Os detalhes deixo para o livro – incluindo um Eddie Van Halen fora de si no funeral. Mas é curioso que embora Rex Brown não culpe ninguém – apenas o assassino em si – não deixa de criticar (com razão) a parte rasa da imprensa que cutuca declarações polêmicas aqui e ali para ir requentando um caldo de discórdia. Ele não culpa a imprensa pela tragédia, mas reconhece que a constante regurgitação de polêmicas entre os membros do grupo acabou esquentando o clima mais do que o necessário.

Enfim, é um livro altamente recomendado para fãs da banda e de metal. É um relato honesto e direto da visão do baixista sobre as coisas. Certamente está longe de preencher todas as lacunas sobre o grupo, mas é um passo importante para que a história do Pantera comece a ser melhor contada. E, principalmente, que isso seja feito com menos foco em richas pessoais e teimosias, com mais sobriedade. Focando na música e na trajetória do grupo.

Ficha Técnica:
Título: Verdade oficial nos bastidores do Pantera
Autores: Rex Brown com Mark Eglinton
Tradução brasileira: Thiago Silva
Editora: Edições Ideal
Preço médio: R$ 39,90

Outros links geeks:
Tungcast #058 – Discos de 1992 Vol. 02 - que conta com comentário do álbum Vulgar Display Of Power, do Pantera
- Tungcast #083 – Discos de 1994 Vol. 01 – que conta com comentário do álbum Far Beyond Driven, do Pantera

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