Jerry Maguire, para geeks musicais

Os geeks musicais são mesmo seres estranhos. É como um clube cheio de piadas internas, manias estranhas e idiossincrasias. Outro dia, revendo o filme Jerry Maguire, que aqui recebeu o subtítulo de “A Grande Virada”, identifiquei vários esquetes musicais dentro da película. Duvido que o grande público tenha percebido boa parte dessas cenas, pois funcionam como pequenas vinhetas, alheias ao desenvolvimento da trama. Então vou enumerar aqui esses momentos e depois volto para comentar:

* Quando o personagem principal vai buscar os impressos de seu polêmico memorando para distribuí-lo na empresa, o atendente da gráfica é ninguém menos do que Jerry Cantrell, do Alice In Chains, que diz “that’s how you become great, man.” Outro que faz uma ponta no filme é Glenn Frey — um de nossos selecionados no Tungcast One Hit Wonders —, no papel do dirigente do time de futebol americano.

* Enquanto Jerry Maguire cuida de seu maior cliente numa coletiva de imprensa, Rod Tidwell (Cuba Gooding Jr) aguarda a sua vez, meio deslocado. Neste momento, é abordado por um garoto pedindo autógrafo, confundindo-o com um tal de “Hootie”. Pra quem não viveu o cenário musical do mid-90’s, é uma referência à banda Hootie & The Blowfish, que estava hiper-hypada com o seu primeiro álbum Cracked Rear View (1994), que vendeu 16 milhões de cópias.

* Todo mundo tem aquele momento em que transforma o carro (ou o chuveiro) em palco, sem medo de julgamentos alheios. Num desses momentos, Jerry Maguire está no carro procurando no rádio uma música para liberar sua euforia. Sintoniza um Rolling Stones, mas ainda não era aquilo. De repente, ele acha “Free Falling”. Canta a música com tanta eloquência que traz Tom Petty e todos os seus Heartbreakers para dentro do filme. E ele estava mesmo em “queda livre”, pois estava prestes a perder seu maior cliente para a mesma empresa que o demitiu.

* O filme não continha só comentários geeks. Possuía um personagem geek. Entra em cena Chad, a “babá” do menino Ray. E tome Chad colocando o menino para dormir com histórias sobre jazz. O ator Todd Louiso se tornou especialista em interpretar geeks musicais, tanto que viveu um dos vendedores da loja de discos em Alta Fidelidade (2000). Algo me diz que ele interpreta a si mesmo nesses filmes.

* No clímax do filme (para os geeks musicais, é bom ressaltar), Chad desfere seu golpe mortal. Nos momentos que antecedem o sexo entre o personagem principal e Dorothy Boyd (Renée Zellweger, muito antes do botox), ele tem um “papo cabeça” com Jerry. Em vez de lhe entregar a esperada camisinha, ele entrega uma mixtape: Miles Davis e John Coltrane, ao vivo em Estocolmo, 1963. Vale a pena reproduzir seu discurso: “dois mestres da liberdade, tocando numa época em que sua arte ainda não havia sido corrompida por zilhões de artistas de cocktail, que destruíram o legado da única forma de arte americana: o jazz.”

Acontece que a mixtape era uma cilada: Jerry e Dorothy não são geeks musicais e não entenderam absolutamente nada quando rolavam entre os lençóis ao som daqueles improvisos intermináveis, até que Jerry pergunta: “que música é essa?”. Claro que os dois caem na risada. Esta cena representa bem a forma como nós, geeks musicais, somos vistos pelos “normais”.


Jerry Cantrell (o balconista), Glenn Frey (o dirigente), Todd Louiso (o babá) e Cameron Crowe (o diretor)

Reparem que a música em si é algo irrelevante para o enredo, serve apenas como um tempero para os ouvidos áudiofilos. O responsável por isso é um dos maiores papas do geekismo musical: o diretor Cameron Crowe, que transpirou seu vício em Chad, um típico idealista/romântico, que passa boa parte de seu tempo tentando encontrar formas de “preservar” a arte dos mestres da música. Mas Chad (e o filme) foram vítimas da era pré-internet, onde não havia fóruns, redes sociais e sites como este para debater sobre “a única forma de arte americana”.

É por isso que — conforme eu disse em meu primeiro post escrito —, aqui neste espaço somos nós quem debochamos dos não-geeks. E mal sabem eles quantas piadas boas eles perderam nesse filme, por não conhecerem nada de música.

3 Responses to “Jerry Maguire, para geeks musicais”

  1. Gabriel LC disse:

    Ótimo texto. Nunca tinha reparado isso tudo no Jerry Mcguire (não me considero um geek musical, apesar de gostar muito de música).
    Gosto muito do Quase Famosos, do mesmo diretor (Cameron Crowe), que é voltado para o tema música, mais especificamente o rock. O Crowe por si só é um grande geek musical. Além do Quase Famosos ele dirigiu o documentário do Pearl Jam (Twenty), qué muito legal.
    Abs.

  2. Gustavo Sampaio disse:

    Já está um pouco antigo esse post, porém como na internet a gente escreve á caneta, pude aproveitar essa boa leitura em meus minutos de almoço…. Cameron Crowe deixa alguns presentinhos em todos seus filmes.
    Assistindo recentemente ao filme “Compramos um Zoológico” (acho que é esse o nome do filme) me senti da mesma forma.

    Mudando de assunto, quero ler algo sobre retrospectiva de 2014, porque esse ano eu hibernei em sentido musical, chegando as férias preciso me atualizar com que há de bom…. Abraços