9012LIVE: quando o Yes virou mainstream

Nos anos 80, o sucesso do álbum 90125 foi tão estrondoso que o Yes saiu de seu nicho para virar mainstream. Essa fase na carreira da banda representava uma transição pela qual todas as bandas progressivas dos anos 70 tinham de passar se quisessem sobreviver nos anos 80. O Rush já tinha lançado Moving Pictures e investia ainda mais nos teclados em Signals (1982). O Genesis já tinha dado o primeiro passo com Abacab (1981) e seguia em frente dois anos depois com seu autointitulado disco, contendo músicas como “Mama”, “That’s All” e “Home By the Sea”. Nessa primeira metade dos anos 80, as bandas prog estavam se adequando ao jogo ― adicionando elementos pop e até new wave, mas sem perder sua identidade progressiva. Não por acaso, foi nesse período que lançaram seus trabalhos de maior sucesso comercial.

Pouco antes de a turnê de 90125 começar, um fato curioso aconteceu nos bastidores do Yes: Tony Kaye deixou a banda por um curtíssimo período de tempo. Além de ter problemas com o produtor Trevor Horn, Kaye não se sentia seguro com aquela parafernália toda e não estava disposto a encarar uma turnê tão grande. O motivo era basicamente o mesmo que o levou a deixar a banda em 1971. Kaye se considerava apenas um pianista de rock, que toca Hammond, e tinha forte resistência a usar samplers e outros emuladores de som ― tanto que Rabin teve de tocar teclado em várias músicas no disco. No lugar de Kaye, Eddie Jobson é recrutado às pressas, mas essa nova formação do Yes não duraria muito. Há várias versões para o ocorrido. De acordo com Alan White, Jobson fazia um tipo “Prima Dona” e não se encaixava no mesmo esquema dos outros. Uma fofoca que circula entre os fãs até hoje é a de que, depois de um ensaio, Jobson e Trevor Rabin saíram no braço por causa de um baseado. O único fato concreto é que foi exatamente nesse período que eles filmaram o clipe de “Owner of a Lonely Heart”, sendo esta a única aparição oficial de Jobson com a banda. Debochado, Chris Squire disse que, na gravação do clipe, “Jobson did himself no favors by wearing heavy make-up”. De qualquer maneira, Jobson estava fora, pois a banda convence Tony Kaye a retornar e fazer a turnê, onde seria ajudado pelo tecladista e engenheiro de som Casey Young, que ficaria embaixo do palco, operando a parafernália. Ao vivo, era perceptível o uso de backtracks em “Leave It”.

Para todos na banda, era muito confortável voltar como Yes. Menos para Trevor Rabin. O motivo de sua preocupação era justificável. Catalisador desse retorno da banda, foi ele o compositor principal de praticamente todas as músicas. Trevor Horn ajudou-o a formatar o novo conceito, mas Horn era o produtor. Não estava tão exposto. Não demoraria muito para Rabin ser apontado como o responsável pelo “novo som” do Yes e se tornar o alvo número 1 dos proggers xiitas. De qualquer forma, quem estava chegando agora estava adorando o “novo” Yes. Além dos proggers bicho-grilo, agora havia mais mulheres e jovens ouvindo Yes e pesquisando o catálogo da banda. Apesar de algumas críticas, Rabin teve recepção favorável em sua maioria e considerou uma vitória pessoal ver negros indo aos shows em várias partes do mundo, tendo sido ele um militante anti-Apartheid na África do Sul.

A turnê de 90125 jogou o Yes no circuito das mega-produções. Segundo Jon Anderson, esse foi o momento Spinal Tap da banda, com direito a todas as afetações e estrelismos característicos da época. Lotando grandes arenas, a turnê atravessou todo o ano de 1984 e resultou no lançamento do EP 9012LIVE (relançado agora em versão expandida) e do vídeo de mesmo nome, dirigido por Steven Soderbergh, então em início de carreira. A turnê se encerrou de maneira triunfal na América do Sul, sendo um dos headliners do Rock In Rio 1985.

Com o fim da turnê, a banda teve se ajustar para poder compor junta o disco seguinte, já que as gravações de 90125 aconteceram de uma maneira totalmente desordenada, com Anderson chegando no último momento. E ali eles ganhavam novas responsabilidades, com o peso de repetir o mesmo sucesso e manter a banda no topo. Com a saída de Trevor Horn da produção, ela ficou a cargo de Rabin, que recorda a enorme pressão que sofreu na época. “Onde está a próxima ‘Owner’?”, perguntavam a ele os executivos da gravadora a todo momento. Para piorar, Rabin e Anderson travaram inúmeras disputas pelo controle criativo da banda, causando o atraso nas gravações. Foi debaixo desse clima pesado que saiu Big Generator (1987), o disco mais pop e açucarado que o Yes já fez. “Love Will Find a Way” se mostrou bastante representativo do quão constrangedores podiam ser os clipes daquela época.

Contextualizando historicamente, na segunda metade dos anos 80 as bandas prog testam seus limites no pop, levando seus experimentos à saturação. O Yes não estava sozinho nessa. Nesse período, Genesis com Invisible Touch (1986) e Rush com Hold Your Fire (1987) também lançaram seus discos mais “radio-friendly”. Mas, enquanto seus pares proggers decidiram que era hora de mudar de rota, no Yes as coisas azedaram. Ao final da turnê Big Generator em 1988, Anderson deixa a banda para lançar um disco solo (seguindo a mesma moda pop descartável) e depois para formar o ABWH em 1989. No mesmo ano, Rabin lança seu quarto disco solo, Can’t Look Away. O Yes só voltaria à ativa em 1991, com o polêmico Union.

Amando ou odiando essa fase do Yes, hoje se reconhece todo o mérito de Trevor Rabin em manter a banda relevante nos anos 80. Com todos os erros e acertos, ele era o homem certo no lugar certo. Até os xiitas hoje são obrigados a reconhecer isso (mesmo que a contragosto). O próprio Steve Howe, que criticou muito a banda na época por ter usado o nome Yes, hoje não tem como negar “Owner of a Lonely Heart” ao público nos shows. Qualquer que seja sua opinião, uma coisa é certa: depois de 90125 o Yes nunca mais seria o mesmo. Nem seus fãs.

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