Biografia de Renato Russo agrada, mas deixa lacunas

> por Luiz Augusto Lima

É difícil escrever sobre Renato Russo. O roqueiro com alma de trovador transborda sentimentos contraditórios como se ainda estivesse em cena à frente de sua Legião Urbana. Se aqui estou, neste impasse para escrever um post, fico imaginando as agruras pelas quais passou Carlos Marcelo para gestar e parir o bom livro Renato Russo – O Filho da Revolução, lançado em 2009 pela editora Agir. Somente por esta observação, de como é difícil e complicado lidar com Renato Russo, o livro já merece elogios.

A obra fez parte de um grande pacote de lançamentos e eventos sobre o Russo, morto em 1996. Movimento que começou na virada da década e teve como ápice o filme Somos Tão Jovens, de Antonio Carlos da Fontoura (que contou com o livro de Carlos Marcelo como bússola) e o polêmico show da banda com o ator Wagner Moura nos vocais.

Vamos, pois, falar de O Filho da Revolução à luz da recente polêmica sobre a liberdade autoral para com os biografados. Teria Carlos Marcelo, um jornalista de formação e ofício, se saído melhor se contasse com total independência para biografar o líder da Legião?

A resposta é sim. Afinal, apesar de em boa parte dos capítulos deixar o leitor seguro quanto à imparcialidade e faro investigativo do autor, o livro termina com uma boa dose de desapontamento no ar. E a escorregada se dá justamente no final, em momentos chave da vida do compositor.

Faltam informações básicas sobre a vida madura de Renato, como a surpreendente paternidade (em 1989 nasceu Giuliano Manfredini), o relacionamento com o americano Robert Scott Hickmon, e o contágio pelo vírus HIV. Em determinado momento, tem-se a impressão de que o leitor pulou alguma parte inadvertidamente. Mas não, não há explicação aprofundada sobre tais fatos. Outros temas espinhosos, como o alcoolismo e farras noturnas regadas a sexo são abordados, mas de forma um tanto discreta.

O mesmo não se pode dizer sobre a infância de Renato Manfredini Júnior (nome de batismo do cantor), assim como de sua adolescência e o ingresso no mundo do punk rock. Em um bem-vindo paralelo com os acontecimento político e culturais que marcaram a então jovem Brasília, Carlos Marcelo (um paraibano radicado na capital do país) evita a armadilha das biografias com ar de “relatórios” e deixa o livro muito bem temperado.

Fica claro porque aquela cidade perdida no meio do Cerrado virou solo tão fértil para o surgimento de bandas revolucionárias. E porque Renato, com inteligência e bagagem cultural acima da média, logo se tornou um líder involuntário de todo este movimento.

Renato era chato, mas…

Ao final de O Filho da Revolução logo me veio à mente o impagável tumblr Renato Era Chato (Mas Era Gênio). Afinal, para terror de milhares de fãs ensandecidos, a verdade é que o líder da Legião Urbana era mesmo um bocado cansativo. Discursos intermináveis durante os shows, movidos por uma revolta um tanto exacerbada com a situação do Brasil redemocratizado, se tornaram rotina à medida que crescia o sucesso da Legião. Suas belas letras ganhavam conotação messiânica e Renato parecia disposto a surfar nesta onda traiçoeira.

Não fosse este comportamento, a Legião seria hoje uma banda menos cultuada por seguidores fanáticos. Porém, respeitada com maior intensidade por quem curte boas composições e tem saudade de um cenário realmente relevante no rock brasileiro. Os quatro primeiro álbuns da banda (Legião Urbana, Dois, Que País É Este e Quatro Estações) figuram facilmente em qualquer lista das melhores obras do rock nacional. Mas há um certo fastio ao lidar com a Legião, como se a banda se tornasse propriedade exclusiva dos fãs.

Talvez o tempo desfaça este nó, e reaproxime a obra de Renato Russo do público “comum”. Afinal, já não somos tão jovens.

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