Reações Psicóticas: Lester Bangs e a batalha com Lou Reed

Qualquer pessoa que lê sobre rock, já ouviu falar de Lester Bangs. E qualquer pessoa que se aventurou a escrever sobre rock, logo descobriu que ninguém foi tão longe quanto ele no ofício. Com seu estilo combativo e vitaminado pelas “anfetas”, Bangs foi a ponta-de-lança da crítica militante dos anos 70 e braço musical do new jornalism. Escreveu textos em veículos como Rolling Stone, Creem, NME e Village Voice que se tornaram objeto de estudo de musicólogos e musicólatras de todas as estirpes. Teria sido Bangs o primeiro a cunhar expressões que hoje nos parecem banais, como “punk rock” e “heavy metal”. Para seu biógrafo Jim DeRogatis, ele seria Hunter S. Thompson, Charles Bukowski e Jack Kerouac reunidos num só. Ou, como o próprio Bangs definiria ao pupilo Cameron Crowe em Quase Famosos, “honesto e impiedoso“, apenas.

De todos os seus livros, o único traduzido para o português é Reações Psicóticas (Conrad, 2005, 136 págs.), trazendo oito textos que revelam bem a sua influência beatnik. Crítico do “fascismo hedonista” e da “diversão forçada” imposta pelo cenário roqueiro dos anos 60 e 70, bateu de frente com o pensamento reinante da época e se engalfinhou com rockstars no combate ao “culto à celebridade”. Neste livro, ele pinta o Jethro Tull como uma cópia escarrada de bandas arquetípicas do Vietnã; investiga a gélida revolução tecnológica proposta pelo Kraftwerk; laureia Van Morrison e The Guess Who; faz um exame psiquiátrico em Iggy Pop e debocha da comoção geral provocada pelas mortes de Elvis Presley em 1977 e John Lennon em 1980. “Você assistiu aos especiais de TV na terça à noite? Viu todas as aquelas pessoas paradas na rua em frente ao edifício Dakota, cantando “Hey Jude”? O que você acha que o John Lennon real — o cínico, indolente, sarcástico, convulsivamente perspicaz e iconoclasta — teria dito disso tudo?

Mas o clímax da leitura é mesmo a batalha verbal de 1975 travada com Lou Reed, de quem Bangs se dizia fã, mas reconhecia o desejo sádico de pichá-lo, acusando-o de “posar como o patife mais fodido do pedaço”. Negava que aquilo fosse amor e ódio, mas dedicou páginas e mais páginas pendendo entre os dois extremos. Alguns pedaços da carnificina:

“Lou Reed é um sujeito que trouxe dignidade e poesia e rock’n’roll para a droga pesada, as anfetas, o homossexualismo, o sadomasoquismo, o assassinato, a misoginia, a passividade entorpecida e o suicídio e aí resolveu deixar de lado todas as suas conquistas e voltar à lama transformando a coisa toda em uma monumental piada sem graça de si mesmo.”

“Acima de tudo, Lou Reed é um mentiroso, um talento desperdiçado, um artista em fluxo contínuo e um mascate vendendo quilos de sua própria carne. Um gigolô vivendo do niilismo bronco de uma geração anos 70 que carece de energia para cometer suicídio.”

“Quando você fez Transformer você estava bancando o pseudo-decadente para um público que queria comprar uma forma reprocessada de decadência.”

Lou Reed devolvia as acusações no mesmo compasso: “Você é mesmo um cuzão. Ultrapassou a cuzice para algum tipo de moléstia urinária. Na próxima vez que você se sair com uma frase tão boa quanto ‘cortinas laceadas com diamantes tão preciosos para você’, em vez de toda essa besteira de Dee-troit, me avise.” Apesar do clima beligerante, os dois deixavam transparecer a admiração que sentiam um pelo outro. “Estou interessado em algumas coisas que ele tem a dizer, apesar de achá-lo um idiota”, disse Reed à sua agente (ou babysitter, vai saber).

Lester Bangs, Patti Smith e Lou Reed - New York, 1975

Ler (e reler) Lester Bangs ficou ainda mais estimulante a partir do momento em que percebi que discordo dele no princípio mais básico de um debate musical. Para ele, rock é estética, atitude e energia. Para mim, é arte, criatividade e musicalidade. Um exemplo: Bangs dedicou boa parte de seu trabalho a varrer o rock progressivo da paisagem musical. Acusou Yes, Rick Wakeman, Emerson Lake & Palmer e todas as bandas prog dos anos 70 de serem uns desalmados tocando notas à velocidade da luz para satisfazer um desejo narcisístico.

Discordo frontalmente de Bangs, e a discordância vai ainda mais longe quando o papo chega em Lou Reed. Acho Lou Reed um dos maiores picaretas da história do rock. Aparentemente, ele teria capitaneado a contracultura dos anos 70 bancando o poeta maldito, mas a verdade é que ele passou a vida inteira escondendo sua limitação musical debaixo da imagem de junkie degenerado para um público dopado demais para julgá-lo. Não tinha um décimo do talento de um David Bowie, não tinha metade da poesia de um Bob Dylan e não era punk como Iggy Pop. Mesmo o Velvet Underground — que até teve o seu momento nos anos 60, parasitando na órbita de Andy Warhol —, foi (ainda é) uma banda superestimada e hiper-hypada pela intelligentsia. Tal qual fez o White Stripes nos anos 2000, Reed apenas vendeu uma ideia, uma estética de subversão. E a crítica comprou tudo bovinamente, trazendo a soldo todos os punks de butique (hoje hipsters).

Lester Bangs morreu em 1982 e não viveria para ver Lou Reed se tornar o Cauby Peixoto do rock. Nos últimos anos ele se tornou aquela figura mumificada e patética que Bangs tinha ensaiado lá nos anos 70. Um velho bufão e decrépito, que conseguiu a proeza de constranger até mesmo um público diminuto no Sesc Pinheiros. A própria imagem da decadência que, ao morrer, inspirou um sentimento próximo da piedade. Fico pensando o que Bangs diria de um disco como Lulu (2011), onde Reed fez um karaokê ébrio em cima de demos do Metallica. E gostaria também de rediscutir a definição de poesia, porque se “o cheiro do seu ombro/ o gosto do seu suvaco” é poético, eu prefiro ir ao centro de São Paulo. Ali, entre camelódromos e cracolândias, encontramos artistas de rua declamando versos melhores.

Enfim, discordo com toda a veemência dos gostos musicais de Lester Bangs. Mas, acima disso, sou um eterno defensor da discordância, a la Voltaire. Repudio essa atitude — típica de troll de internet — de malhar o cara só porque ele possui uma opinião diferente. Eu vou continuar lendo Lester Bangs e discordando dele sobre Yes, Lou Reed ou o que for, porque é aí que está toda a graça. E vou continuar torcendo para que as editoras acordem e façam novas traduções de sua obra.

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