Stevie Ray Vaughan, Montreux 1982: o sucesso disfarçado de fracasso

Em 1982 Stevie Ray Vaughan — apesar de já possuir fama nos círculos do blues —, era um ilustre desconhecido do grande público. E para que ele recebesse o devido reconhecimento, havia um problema: naquela época, o blues era um gênero ultrapassado, dado como morto. O início dos anos 80 representaram a aurora de um novo tempo na música e no showbizz. O new wave era o símbolo da modernidade e os sons sintetizados dos samplers tomaram conta de toda a paisagem musical. Artistas e bandas de todos os gêneros tentaram se adaptar aos novos tempos, com maior ou menor sucesso. Vaughan e sua banda Double Trouble não sabiam fazer outra coisa que não fosse o blues com uma pegada furiosa de rock. Restritos ao circuito bluseiro do Texas, viajavam de biboca em biboca num caminhão de leite e o destino deles parecia ser esse.

Os ventos começaram a mudar quando, num desses shows, em uma dessas bibocas, conheceram o veterano produtor de R&B Jerry Waxler, que lhes prometeu um lugar na noite de blues no festival de Montreux daquele ano. Era uma oportunidade única. Sairiam do velho circuito pela primeira vez e ainda teriam a chance de tocar num festival de prestígio na Europa. Mas havia um empecilho: a viagem lhes custaria mais de 15 mil dólares (para eles, uma fortuna na época). Acharam que valia o risco. Pediram um empréstimo e rumaram para a Suíça. No backstage, antes do show, cruzaram com Larry Graham, baixista do Sly & Family Stone, que sugeriu uma jam no bis. Exultantes, toparam sem pensar duas vezes. Pouco antes de entrar no palco, um mau presságio: eles notaram que eram a única banda elétrica daquela noite. Todas outras bandas eram acústicas e tocavam um tipo de blues suave, flertando com o folk.

Hora do show. Stevie Ray Vaughan e seu Double Trouble sobem ao palco e fazem as paredes do teatro tremerem com seu som mastodôntico. O público começa a se entreolhar, sem entender bem o que estava se passando. “Nós entramos com o volume no talo e não pensamos sobre isso. As pessoas sempre diziam que Stevie tocava alto demais”, recorda o baixista Tommy Shannon. Já na segunda música, começam as vaias, que foram se intensificando à medida que o show avançava. A hostilidade não impediu Vaughan de cumprir seu set, mas afetou-o profundamente. No fim, o trio saiu do palco debaixo de uma vaia impiedosa. E o que era ruim, ainda podia piorar. Com a reação negativa do público, não haveria o bis e, consequentemente, nem a jam com Larry Graham.

O fatídico show foi fartamente documentado, em fotos, áudio e vídeo e pode ser visto no DVD Live At Montreux 1982 & 1985. Mesmo apupado, Stevie Ray entregou uma performance excelente, apresentando futuros clássicos como “Pride And Joy” e “Love Struck Baby”. Uma meia-dúzia de hippies e porras-loucas dançaram sem parar, como se estivessem em Woodstock, outros poucos aplaudiram timidamente, mas a grande maioria do público não deu trégua. Nem mesmo em “Texas Flood” — onde SRV mostrou sua espetacular técnica ao tocar de costas — eles aliviaram.

Antes de recolher os cacos de uma viagem que parecia desastrosa, uma sucessão de reviravoltas terminaria por torná-la vitoriosa. Depois do show, SRV foi para o “Bar dos Músicos”, onde a fina flor do blues, do jazz, R&B e country confraternizava e fazia jam sessions. Descobriu que, ao contrário da recepção mórbida que teve no show, ali ele era popularíssimo. E foi ali também que duas pessoas — dois geeks musicais! — lhe procuraram para dizer o quanto tinham ficado impressionados com sua performance.

O primeiro era David Bowie, que assistiu ao show por recomendação de Claude Nobs, criador do festival. “Stevie me deixou boquiaberto. Eu não tinha ficado tão impressionado com um guitarrista desde que vi Jeff Beck em Londres vinte anos antes”, disse. Bowie enxergou que a guitarra bluseira que acabara de ouvir era o contraponto ideal para a atmosfera dançante e ao som sintetizado do disco que ele estava gravando. “Stevie entrou no estúdio e tocou notas que ninguém jamais sonharia que funcionariam em minhas músicas”. Não só funcionaram, como ajudaram a fazer de Let’s Dance o maior sucesso comercial de sua carreira. Hoje, chamar bluseiros para tocar em discos de pop, hip-hop ou R&B virou clichê, mas em 1982 foi uma atitude arriscada que só um visionário como Bowie seria capaz de ter.

David Bowie, Stevie Ray Vaughan e Nile Rodgers, nas gravações de Let's Dance

O outro geek da noite de Montreux era Jackson Browne, astro da música country, que ficou tão maravilhado com o show que lhes ofereceu seu estúdio gratuitamente para a gravação do que viria a se tornar Texas Flood, o disco de estreia do power trio de blues. Hoje parece insignificante, porque qualquer bandinha indigente possui um estúdio em sua própria casa, mas no início dos anos 80 só o aluguel de um estúdio profissional (mais a gravação e a mixagem) custava um caminhão de dinheiro — e para uma banda que fazia turnê dirigindo um caminhão de leite, aquilo era o bilhete premiado. Uma coisa foi levando à outra, até que fecharam um contrato com o produtor e empresário John H. Hammond, e Texas Flood saiu pela Epic em junho de 1983. O caminho estava finalmente aberto para Stevie Ray Vaughan se tornar uma lenda do blues e revigorar o gênero, mostrando-o à geração MTV.

“Às vezes o que parece ser um fracasso, na verdade é o sucesso disfarçado”, disse Tommy Shannon. Eu acrescento dizendo que nem sempre o público dá a resposta adequada ao artista. Quando um artista ainda busca seu espaço, muitas vezes a opinião sincera de meia-dúzia de geeks/especialistas vale mais do que a vaia (ou o aplauso) de um horda de leigos. E os especialistas que estiveram lá em Montreux fizeram questão de desautorizar o coro da maioria. O tempo se encarregou do resto, como podemos ver pela estátua de SRV no memorial inaugurado em 1994 em Austin, quatro anos após a sua trágica morte.

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