Era uma vez o rock rebelde

> por Fagner Morais *

O blues e a música clássica dominavam as paradas musicais nos anos 1940 e 1950, e os jovens não tinham muitas opções a não ser ouvir o mesmo que seus pais. Mas desde o momento em que o então Elvis Presley entrou em estúdio para gravar seu primeiro disco, o que seria chamado de rock and roll encontraria um público sedento por alguma novidade.

A partir daí, Buddy Holly, Chuck Berry, Little Richard e outros pioneiros seriam responsáveis por abalar com estruturas conservadoras e alterar o rumo das coisas, mesmo que por apenas curtos cinco anos. Quem consolidaria esse cenário de mudança seria a geração seguinte, a dos anos 1960.

Antes dos anos 1950 não existia o termo “adolescência”, tampouco um mercado para esse pessoal entre 11 e 18 anos. Por isso, a década seguinte serviu para fincar raízes nesse novo estilo de vida que estava crescendo fortemente, com filmes e produtor próprios. Mas a música não conseguiu acompanhar esse ritmo, sempre com os produtores procurando um novo Elvis – ele abandonou a música por ter sido convocado pelo governo para servir dois anos no exército.

Os anos 1960 seriam diferentes graças aos ingleses dos Beatles e dos Rolling Stones. Influenciados pelo blues e rock americanos, as duas bandas fizeram a cabeça de muitas pessoas em pouquíssimo tempo, o suficiente para instalar novos conceitos e bater com o conservadorismo inglês e americano. Na beirada da década, o rock esteve envolvido em protestos contra a Guerra do Vietnã, principalmente nas figuras de Jimi Hendrix, Janis Joplin e John Lennon.

O rock também foi alvo dos conservadores ao tentar proibir as letras de Dee Snider, do Twisted Sister, Jello Biafra, dos Dead Kennedys, Joey Ramone e Frank Zappa em plenos anos 1980. Felizmente, apenas um aviso de que o “material continha letras proibidas para menores” foi colocados nos encartes e tudo foi resolvido (recomendo ver o discurso brilhante de Snider na sessão da Parents Music Resource Center). Antes, o punk inglês serviu para traduzir a insatisfação da classe trabalhadora com Margareth Thatcher.

Todos esses exemplos foram para explicar como o rock foi importante na construção da sociedade simplesmente por estimular o debate de ideias entre os ícones do movimento e os conservadores. Tudo isso foi para mostrar a queda desse movimento em detrimento da música eletrônica ou do banquinho e violão, inofensivos em questões sociais. Hoje em dia esse papel está muito bem ocupado pelo rap, hip-hop e até mesmo o funk.

O rock nasceu para ser rebelde. Se não for, é caixinha de música. E é exatamente o que vem acontecendo nos últimos anos. Nenhuma banda ganhou destaque por ter esse estilo contestador ou por grandes polêmicas. Aliás, todo e qualquer tipo de polêmica envolvendo músicos hoje em dia são tão rasas e patéticas que nem valem a pena.

O grande músico de protestos do século 21 é… Bruce Springsteen, que já faz isso há quase 40 anos. E as músicas que embalam qualquer protesto pelo Brasil são exatamente as mesmas de 50, 40, 30 anos atrás. Triste constatar que o rock virou música de velho e não mexe mais com os poderosos, como Elvis fez há quase 60 anos.

Hoje em dia é mais fácil ser fã do David Guetta ou de qualquer coisa eletrônica que toque na balada do que pensar e refletir sobre alguma coisa, seja ela política ou cultural. Espero que esse panorama mude e que apareçam bandas de rock contestadoras e cheias de energia. Mas parece que esse cenário está longe de acontecer.

* Fagner é editor do blog Music On The Run

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