A arte da gravação

Foto: Flickr Commons

Nosso amigo Julio Daio Borges, editor do Digestivo Cultural, escreveu outro dia: “A arte te dá o que a vida não pode te dar”. É algo próximo da famosa citação de Nietzsche: “We possess art lest we perish of the truth.” (The Will To Power, 822). Algo como “Possuímos arte para não perecer pela verdade”. E isso faz todo o sentido. Extrapolando a lógica de Nietzsche – isto não é um tratado sobre ele – e generalizando: a verdade é o que vivemos no dia a dia, o óbvio, o crível, a repetição, as banalidades, brutalidades e tudo o que temos que enfrentar. A arte nos leva para longe disso, para o incrível: ora para lugares inexistentes, surreais; ora para sublimações de pedaços da vida real. Para nós, geeks, a arte principal é a música.

E na minha relação com a música o registro gravado é o ápice do que a vida não pode (me) dar. E me refiro à gravação em estúdio. Sim, um show é uma grande experiência. Podemos ouvir execuções únicas. A música nasceu e cresceu pelo “ao vivo” – muito antes do advento da gravação.  Mas a apresentação ao vivo está muito mais próxima da vida real: o artista está ali na sua frente, o som é cru, a imperfeição está sempre à espreita. Assim como um registro gravado de um show pode ser antológico, mas não tem as sutilezas, detalhes e dinâmicas do registro em estúdio.

Numa gravação em estúdio a imperfeição também é aceita, mas muito menos presente do que ao vivo. Essa gravação é um resultado polido, a música acabada em seu mais perfeito estado. É o final de um longo processo. É a música em definitivo. É quase uma ilusão. E ela permite a repetição. Pense em algumas de suas músicas preferidas. Quantas vezes você já ouviu sua versão gravada? Para quantos “lugares” elas te levaram? De quantos momentos ruins elas te tiraram? Uma gravação bem acabada é capaz de nos transportar para lugares e sensações que a vida não atinge – e, provavelmente, nem devesse.

Existem tantas coisas entre a ideia inicial da canção e o resultado final…Tive a oportunidade de presenciar a gravação de três discos, desde sua concepção inicial até a versão final, que é comercializada. A diferença é quase sobrenatural. E o trabalho de gravação é um misto de ciência, humanidades e artesanato: temos que lidar com vários aspectos acústicos e tecnológicos. Temos também a interação humana – os músicos, engenheiros, produtores. Além disso, o processo de gravação, mixagem e masterização exige um nível de atenção e detalhamento entre o matemático e o artesanal. Mas tudo isso sempre tendo a música em primeiro lugar, pensando no resultado final global e no ouvinte.

Na gravação você pode ouvir com clareza todos os aspectos de uma música: a estrutura de composição, harmonia, melodia, arranjos, instrumentação, ambientação, dinâmicas, como e onde foi gravada… E sem ter um bêbado ao seu lado falando com o “brother” no celular. Mas a audição de um gravação – embora prioritariamente solitária – pode ser compartilhada. É só juntar alguns geeks musicais e colocar para todar um vinil, CD, MP3 ou até streaming para que comecem a apontar cada detalhe – até mesmo um erro ou algo que não deveria estar ali. Preste bem atenção na gravação original de “Since I’ve Been Loving You”, do Led Zeppelin, e você vai ouvir o rangido de um pedal de bumbo mal lubrificado. Ao final de “A Day In The Life”, dos Bealtes, é possível ouvir um ruído de ar condicionado.

Mas esses são apenas detalhes curiosos. O importante é o resultado final geral. De novo citando os Beatles, em particular George Martin: seus arranjos e experiência e bom gosto nas gravações levou o grupo a lugares inimagináveis musicalmente. Não à toa o auge criativo do grupo se deu quando pararam de fazer shows e focaram apenas em gravações. Ainda no grupo de Liverpool temos mais um exemplo de diferentes resultados finais de gravação a partir de propostas distintas. O disco Let It Be foi lançado em 1970, depois do fim do grupo e com uma abordagem que tinha a mão pesada do produtor Phil Spector e sua “Wall of Sound”. Cada gravação continha muitos overdubs – uma série de diferentes elementos sonoros sobrepostos. Isso era o contrário do que Paul McCartney queria.

Não à toa, em 2003 Macca liderou o lançamento de Let It Be Naked, com uma proposta bem mais simples, sem tantos elementos – muito mais próxima do rock. Inclusive, com uma ordem diferente das músicas – até faixas diferentes. Ouça ambas as versões e entenda como uma mesma gravação – ou pequenas alterações de takes – pode ter resultados finais tão diferentes (uma das faixas mais óbvias para constatar a diferença de takes, arranjo e mixagem é “The Long And Winding Road”).

Nas palavras de Keith Richards: “Bons discos só melhoram com o tempo”. Isso poderia ser transferido para qualquer gravação – mesmo de uma faixa apenas. A cada nova audição vamos (re) descobrindo detalhes importantes que talvez não tenhamos ouvido outras vezes. E quanto mais apuramos o ouvido, mais entendemos as texturas sonoras. Para minha experiência musical, nada bate uma grande gravação.

Comments are closed.