Vampire Weekend e sua vinda ao Brasil

> por Guilherme Carvalhal

Oriundo em uma geração mantenedora de uma relação completamente diferente com a música, acostumada a downloads na internet, comentários em mídias digitais e a encontrar discos inteiros no Youtube, o Vampire Weekend se vale deste novo processo de comunicação para se divulgar, sendo uma banda que começou a aparecer justamente por causa desta nova realidade. Ele alia sua presença na grande rede aos métodos tradicionais, aparecendo nas grandes publicações, fazendo turnês e vendendo seus discos (o grupo alia comercialização no moderníssimo iTunes e no antiquado formato de vinil). São clipes na internet, blog e músicas em seriados e outras mídias — como “Cousins”, que entrou na trilha sonora do jogo Pro Evolution Soccer 2011 — algumas das táticas para apresentar a banda ao ouvinte.

Nesta mesma geração inovadora através da tecnologia, o Vampire Weekend manteve seus pés no passado ao se destacar em premiações mais tradicionais. A revista Rolling Stone elegeu seu último disco como o melhor de 2013. O mesmo álbum alcançou o n° 1 na Billboard, sendo a segunda vez em que atinge esta marca, após seu trabalho anterior também obter tal destaque.

Em meio a esta efervescência internacional em torno do seu nome, o Vampire Weekend foi incluído no lineup do Lollapalooza Brasil 2014. Os brasileiros poderão curtir seu show em 6 de abril, domingo, mesmo dia do Arcade Fire, Soundgarden, Pixies e New Order. Sua presença no Brasil se inclui em uma turnê pela América do Sul, onde também se apresentam no Chile, Argentina, Uruguai e Colômbia. Neste momento, um grupo que cresce internacionalmente, mas que ainda passa batido por boa parte do público brasileiro, estará em solo nacional na turnê de um disco que tem ganhado expressão através da crítica especializada.

Surgida em 2006 pela junção de estudantes já interados de várias influências musicais da Universidade de Columbia, a banda entrou no circuito independente com um estilo definido por eles próprios como “Upper West Side Soweto”. Seus integrantes são Ezra Koenig (vocal, guitarra), Rostam Batmanglij (teclado, guitarra), Chris Tomson (baterista) e Chris Baio (baixista) logo receberam a pecha de fazer um som adolescente. Tem fundamento, pois o som é “alegrezinho”, “legalzinho”. Mas isso não remove a competência mostrada desde o começo. Basta um olhar mais profundo sobre seu trabalho: a estrutura de suas músicas está bem mais próxima do som alternativo do que da música pop. O que se repara é uma fuga de convenções em boa parte de seu material.

Em seu primeiro disco, Vampire Weekend, de 2008, vemos um estilo que prima bastante pela marcação constante de baterias e vários elementos acompanhando esta pegada. Este efeito ocorre porque uma das influências da banda são as percussões africanas (criando o dito “Upper West Side Soweto”). Então há uma mescla cultural desta música com o rock norte-americano. As guitarras soam quase como um detalhe nas composições, sendo leves e fluidas e sem nenhum grande floreio. Os solos são lentos, sem nenhum tipo de brilhantismo. Alguns podem enxergar como insuficiência, outros como estilo de uma banda focada mais nas elaboração do que em demonstrações de virtuosismo.

Seguindo este trabalho veio o disco Contra, de 2010. Aqui já há um primeiro passo no crescimento criativo. A influência africana se dá de cara com a faixa “Horchata”, com teclados simulando marimbas. “White Sky” tem guitarra dedilhada, gritos e vários efeitos musicais. E no disco também está o single “Cousin”, bem elaborado, com uma pegada instigante e um refrão repetido. O trabalho foi bem recebido, apesar da quantidade de críticas vir em igual tamanho, classificando o Vampire Weekend como uma banda “ame ou odeie”.

O que se tem após estes dois trabalhos é uma banda com uma identidade formada. O som é jovial e traz elementos variados nas composições. Porém, ainda havia uma presença forte da música pop, com tendência a formar refrões chiclete, o que gerava comentários negativos por ouvintes mais exigentes. Mistura-se o próprio interesse da banda em fazer algo mais, fechando uma série de discos que eles próprios definem como uma trilogia: estava criado o ambiente para o próximo trabalho.

No terceiro disco Modern Vampires of the City, de 2013, há mudanças significativas em relação aos lançamentos anteriores. O principal é a perda do clima “legalzinho” das músicas. Há uma atmosfera densa, chegando a alguns momentos mais marcantes, como na faixa inicial “Obvious Bicycle”, que traz um clima melancólico com um pouco do ritmo africano, sendo puxada por pianos e com uma estrutura mais simplista. A pretensão de compor músicas alternativas com algumas pegadas pouco ortodoxas saiu da esfera de influências. Nota-se um maior cuidado lírico no disco (como em “Step”), que soa agradável, leve, menos clichê e com um apelo criativo pouco corriqueiro a bandas do circuito mais comercial, mas abrangendo um público maior.

O que se conclui é que o álbum foi um passo bem à frente dado pela banda. Mais maduro, mais direto ao ponto, menos pretensioso e muito bem trabalhado. Apesar de manter as características originais, é como se a banda tivesse criado nos trabalhos anteriores uma grande gama de possibilidades sonoras e agora aparasse as arestas, mantendo apenas o que possui de melhor. As diversas influências soam hoje mais harmônicas, diferente dos trabalhos anteriores em que tudo parecia uma salada precisando de coesão. Há teclados, há efeitos, há quebradas, mas tudo feito de forma comedida. A banda utiliza cada elemento com precisão em vez de lançá-los abruptamente, deixando o álbum mais homogêneo, fluído e ainda mantendo a característica criada anteriormente. Isso tudo com o uso de melodias belas e um clima pesaroso em alguns trechos.

Muitos vão discutir as características da banda bem como o sucesso alcançado. Há abertura a muitas críticas (como o tom juvenil e a pegada comercial), mas uma coisa é certa: a banda está em notória evolução, e este é apenas o começo.

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