Ghost Rider, o autoexílio de Neil Peart

Em 2014 o Rush vai tirar umas férias e, portanto, estará longe tanto do estúdio quanto dos palcos. Mas os fãs não terão do que reclamar. Este ano, além do lançamento da versão deluxe em comemoração aos 40 anos do primeiro álbum, teremos também a tradução para o português do livro Ghost Rider – Travels On The Healing Road (ECW Press, 2002, 458 págs.), de Neil Peart. Doze anos depois de lançado, o livro está sendo editado pela Belas Letras e está previsto para chegar ao Brasil em março. Finalmente o fãs vão poder conhecer detalhes do doloroso autoexílio do baterista, vagando pela “estrada da cura”, como ele definiu no subtítulo.

O mote do livro foi baseado nos acontecimentos mais brutais que um ser humano pode vivenciar. Pouco depois do final da turnê Test For Echo, no dia 10 de agosto de 1997, Peart perdeu sua filha Selena, de 19 anos, num acidente de carro. “Eu sabia que isso era a única coisa com a qual eu não conseguiria lidar”, avisou Jackie (mulher de Peart), antes de ficar doente. Depois de meses sendo torturada por propagandas de roupas juvenis, crianças brincando no parque, famílias felizes passeando, no dia 20 de junho de 1998, era a vez de Jackie. Foi de câncer, disseram os médicos. Mas, segundo o diagnóstico de Peart, ela morreu de dor no coração, pois recusou tratamento e desistiu de viver. Dada a situação, a única pergunta que se faz é: como lidar com isso? Após dois meses de catatonia, Peart pegou sua moto BMW e caiu na estrada, em busca de uma resposta (ou de uma fuga dela).

O conceito do livro foi se autoformulando durante a viagem. Na maior parte do tempo, não havia ninguém. Só Peart e seus fantasmas — das quais ele conseguia se esconder enquanto prestava atenção na estrada e observava a natureza selvagem ao seu redor. Mas durante as paradas, ele encontrava pessoas. Aí não tinha como escapar. Vivia sob a constante ameaça de ouvir a fatídica pergunta “e aí, tem família?”. Foi reconhecido em algumas oportunidades — o que, além de lhe reacender o maior de seus constrangimentos, lhe fez estranhar aquela pessoa que costumava ser “o baterista do Rush”.

Entre refeições ruins e hotéis baratos, ele observava o comportamento humano e deixava escapar os seus pensamentos mais sombrios, rechaçando os modos rústicos dos “rednecks” que ele encontrava pelo caminho. Na Califórnia, eles eram os “califonicators”. Em Las Vegas, paraíso dos yuppies, alienados e viciados de todos as linhagens, foi surpreendente vê-lo disparar sua metralhadora de mágoas. Um trecho sem tradução: “… for the most part I look around at ugly and mean-spirited people and think, ‘Why are you alive’? (…) Pigs! Scum! Cows! Low-life beasts! Die, die, die!” Uma imagem bastante ilustrativa disso pode ser aquela mulher mesquinha que faz a mãe da Hillary Swank no filme Menina De Ouro.

Peart sempre deixou pistas sobre seu ateísmo em músicas como “Freewill” e, mais recentemente, em “Faithless” e “BU2B”. Em Ghost Rider, ele apenas sublinha sua opção (freewill!) pela razão, pela ciência e pela lógica. Respeita, claro, as convicções das pessoas, mas não esconde que prefere manter certa distância dos doutrinários que tentam ajudar os outros a “encontrar Jesus”. A estes, ele lançou uma série de perguntas retóricas: “Existe alguma razão para isso ter acontecido? Qual? Elas mereceram morrer? Eu mereci perdê-las? O mundo não precisava de gente como Jackie e Selena?”. Depois de terem lhe arrancado a família, ele viu ruir sua tese fundamental (“se você fizer o bem, o bem retornará a você”), e agora lutava para reescrever sua própria lógica: “I used to think ‘Life is great, but people suck’, now I’ve had to learn the opposite, ‘Life sucks, but people are great’ ”. Religiões e crenças à parte, Peart se autodefiniu naquele momento como um cínico que, na concepção de Paul Theroux, seria um idealista desiludido.

Em contraste a esses momentos soturnos, Peart reforça a importância das pessoas que o apoiaram. Além de seus companheiros de banda, obviamente, ele agradece a vários amigos e familiares, desconhecidos do público. O ponto fraco do livro são as intermináveis transcrições de cartas ao amigo Brutus, seu parceiro de estrada, que também amargava o exílio e não pôde acompanhá-lo na estrada da cura. Outros “amigos” que aparecem, in memoriam, são seus heróis da literatura. Acredite se quiser: em sua viagem ao fundo do poço, Peart levou uma penca de livros consigo e comprou outros vários na estrada. À medida que ele terminava as leituras, ia mandando-os de volta para sua casa em Toronto ou para Brutus, via correio. Em meio às agruras da vida, Peart divaga sobre Jack London e cita frases de Ernest Hemingway e Mark Twain, entre outros “ghosts writers” que o acompanharam silenciosamente.

Para nós aqui, fãs e geeks musicais, a tendência é sempre atribuir uma força sobrehumana a nossos ídolos — e é impossível para um fã de Rush não colocar Neil Peart nessa condição. Em 2002, o vi pessoalmente no backstage do show em São Paulo e fiquei mortificado por sua presença. Num arroubo de fanatismo juvenil, me senti como tivesse visto o próprio Messias antes do show d’A Santíssima Trindade. Oito anos depois, na turnê Time Machine, vi Neil Peart jogar a baqueta para cima e não conseguir pegá-la de volta. Por anos, achei que Peart não errava. Errou. Um erro bobo e sem importância, é verdade, mas revelador (pelo menos para mim). Peart é e sempre será um gênio em sua arte, mas em Ghost Rider é apenas um homem comum, revelando suas fraquezas, medos e inseguranças.

Para quem se interessou, um aviso: não é uma leitura exatamente musical, pois refletem um período de quase dois anos em que ele nem pensou em tocar bateria, o que ele chamou de “falta de urgência criativa”. Mesmo assim, o livro tem seu “happy end”, com o “herói” se apaixonando de novo. Peart não deixa muitas pistas se continuava um cínico depois de ter conhecido a fotógrafa Carrie Nuttall, mas o fato é que ela o fez reencontrar sua urgência criativa — a ponto de reconhecer que, sem ela, a volta do Rush não teria acontecido. Para os que se embrenharem nessa viagem, Ghost Rider é um relato pungente e corajoso de uma mente observadora e privilegiada. Só mesmo um cara como Peart para aguentar um sofrimento dessa magnitude e ainda conceber um livro desses… Pensando bem, estou começando a achar que Neil Peart não é humano.

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4 Responses to “Ghost Rider, o autoexílio de Neil Peart”

  1. Andy disse:

    Conheço várias pessoas q perderam seus filhos ainda mto jovens e conseguiram enfrentar a dor através da fé.
    Agora essa ladainha de perguntas sobre as razões da morte … sinceramente… são estúpidas, pois a única certeza q temos na vida é q um dia vamos morrer jovens ou velhos.
    Doloroso é sim, porém somos frutos de nossas escolhas e estamos aqui pra sofrer as adversidades q nos cercam. Enfim, as pessoas esquecem q tem uma alma a zelar. Do contrário de q valeria a vida se ela se resumisse ao pó.

    • Diogo Salles disse:

      Andy, a religião não funciona da mesma forma para todos. O grande equívoco dos religiosos é achar que todas as respostas podem ser encontradas através da fé.

      Peart foi buscar sua redenção de outra forma e precisa ser respeitado por isso. Ele fez as perguntas porque elas faziam parte do entendimento da situação. É através da lógica que os ateus (não militantes) buscam suas respostas.

      Agora, se você acha isso tudo uma bobagem, também é direito de qualquer ateu achar que a fé religiosa é bobagem.

      Continue com sua fé, mas esqueça os dogmatismos.

      abraço
      Diogo