The Cure, ontem e hoje

> por Luiz Augusto Lima

Está lá. Guardada na última gaveta de um armário, na casa da minha mãe. Uma edição especial da extinta revista Bizz do início de 1987, sobre a passagem do The Cure pelo Brasil, que me fez entrar no DeLorean e voltar no tempo. Os textos, de Jean-Yves de Neufville (morto precocemente no começo do ano), são de uma riqueza rara de se ver por aqui. Foram páginas e páginas sobre o cotidiano da banda no Brasil (shows em Porto Alegre, BH, Rio e São Paulo), uma entrevista completinha com Robert Smith e uma descrição, música por música, do álbum duplo Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me, que seria lançado meses depois.

Lembrem-se. Estamos falando de 1987. Estamos falando de uma oferta de páginas e de tempo só dedicados a bandas fundamentais (ainda mais nos anos 80). Robert Smith e seus quatro companheiros à época formavam uma espécie de embaixada ambulante do vanguardismo britânico, de toda aquela leva de bandas fundamentais que nasceram com o pós-punk. Falavam “olho no olho” com os Smiths ou o New Order, e deixavam para trás gigantes da linhagem de um Echo And The Bunnymen ou Siouxsie And The Banshees (banda na qual Robert tocou guitarra e buscou inspiração para seu visual).

Se você era crítico, impossível não respeitar álbuns como Seventeen Seconds (1980), Pornography (82) ou The Top (84). Se era fã ou apenas estava no embalo, impossível passar incólume pelo apelo pop de The Head On The Door (85) ou o estrondoso sucesso de vendas da coletânea Standing On A Beach (86) – o famoso álbum do “velhinho na capa”. Banda gótica? Ora, que preguiça, que vontade de rotular! Naquelas faixas havia a crueza do punk, o lirismo e o ‘non-sense’ de quem buscava ser David Bowie e até mesmo o que poderia haver de melhor no New Wave dançante…

Vamos embarcar de novo no DeLorean e fazer uma parada no começo de 1996. Ela pode explicar algumas coisas. O The Cure está tocando com destaque no Hollywood Rock, no Rio e em São Paulo. Faz sucesso? Sim. Mas os anos 90 já haviam chegado, baby. E a última década do século passado foi cruel para aquelas bravas bandas oitentistas. Os Pixies, o Nirvana e todo o movimento grunge jogaram para o limbo os cabelos espetados, as sombras nos olhos e os batons…

E olhem que o álbum Wish (1992) vendeu pra burro. É ele que contém o hit “Friday I’m In Love” e outras músicas que você certamente já ouviu na trilha de algum filme. Mas foi justamente em 1996 que o Cure começava a virar uma banda do passado. Presa às próprias referências e aparentemente incapaz de influenciar de verdade as novas gerações.

Foi o ano de lançamento do fiasco Wild Mood Swings, tão fraco que irritou até os fãs de carteirinha. E nunca mais, três álbuns de inéditas depois, o Cure voltou a chamar a mesma atenção de outrora. Para se ter uma ideia, as páginas (impressas ou virtuais) de maior destaque sobre a banda diziam respeito a relançamentos e a polêmicas de Robert Smith com músicos mais “libertários”. Para quem não sabe, no começo do novo século Robert comprou briga até com o Radiohead por conta de sua ira a respeito da disponibilidade de músicas gratuitas (ou quase isso) na internet. Uma luta quixotesca, convenhamos…

Entramos de novo no nosso DeLorean e avançamos para abril de 2013. Que The Cure foi esse que passou por aqui em shows no Rio de Janeiro e em São Paulo? O que o tempo fez com Robert Smith, além de deixá-lo com os olhinhos ainda mais fechados por conta do aumento de peso?

A resposta reside no mesmo copo, na mesma taça. A verdade, amigo leitor, é a seguinte: o Cure que eu vi no Anhembi, em abril, não tinha mais nada de novo a dizer ou fazer. A única saída era venerar o passado. Este é o lado do copo meio vazio. Não, não se buscou novas sonoridades, alguma evolução de arranjos ou composições. Não, não tivemos um aperitivo do próximo álbum (ele virá?).

Mas, e o lado meio cheio? Fácil: Robert Smith e o resto da banda (muito boa, por sinal, ainda mais com o reforço do veterano Reeves Gabrels na guitarra – o cara tocou com Bowie…), são de um profissionalismo exemplar e sabem venerar o passado muito bem. Foram mais de três horas de espetáculo, passando por todas as fases da banda. Teve lágrimas de fãs (alguém chorei, não sei quem fui), mas teve também uma certa dose de tédio para quem ouvia os riffs históricos da seminal “One Hundred Years” pela primeira vez. Essa era a turma do embalo, de gente que ajuda a encher este tipo de show, mas não tem o conhecimento necessário para encarar todas as doses…

É verdade, também, que as canções de Robert Smith ganharam inúmeros covers de outros artistas nas últimas décadas. Todas, porém, parecem deixar claro o tom de homenagem ao passado. E não de veneração ao vanguardismo. Um bom exemplo? O álbum 21, fenômeno de vendas da cantora britânica Adele, lançado em 2011, traz uma lenta e interessante versão da canção pop “Lovesong” (de 1989). A quem Adele dedica o cover? À própria mãe, segundo ela “grande fã do Cure”. Entenderam o espírito da coisa?

Este é o Cure de hoje. Uma banda com um líder profissional e carismático. Mas que se comporta como uma trupe de artistas a vaguear por festivais, atraindo velhos conhecidos, mas também uma penca de jovens um tanto curiosos com aquele visual “Edward Mãos de Tesoura Sênior” e meio desinteressados por uma música que seus pais e tios ouviam.

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