Procure saber tudo sobre os coronéis da MPB

Praticamente tudo já foi dito sobre a polêmica das biografias. Estou aqui apenas para pontuar algumas questões e apertar a descarga. Antes, para quem chegou agora da lua, um breve histórico do ocorrido. Um grupo de medalhões da MPB, capitaneados pela empresária Paula Lavigne, se insurgiu contra o projeto de lei do deputado Newton Lima (PT-SP), que isenta biógrafos de obter autorização de biografados com “notoriedade pública”. Mas o autointitulado Procure Saber; o grupo formado por Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Milton Nascimento e Djavan; ainda não estava satisfeito. Queria também estabelecer uma cota de 10% sobre as vendas, por entender que o biógrafo estaria “comercializando a vida alheia”. Biógrafos, jornalistas e editores ganharam o apoio maciço da opinião pública, que reagiu contra a atitude venal e autoritária de seus próprios ídolos.

No meio do tiroteio na imprensa e nas redes sociais, o colega Rafael Fernandes fez uma pergunta pertinente: afinal, eles estão brigando pela privacidade, pela autorização ou pelos 10%? Chegou num ponto que nem eles sabiam mais. Quando perceberam o tamanho do absurdo que estavam defendendo, era tarde. Do cume de seu cinismo, Roberto Carlos deu uma entrevista constrangedora ao Fantástico onde brincou com a nossa inteligência dizendo que apoia biografias não-autorizadas, desde que autorizadas. Mas essa discussão em torno da autorização está encerrada: o grupo vai perder de goleada na votação no Congresso Nacional. A ignomínia dos 10% também foi abandonada, já que ficou mais do que provado que nunca um biógrafo ficou rico nesse país por “comercializar a vida alheia”. Ao contrário, escrever biografias se mostrou uma tarefa inglória, digna de uns poucos abnegados que se auto-impoem a custosa missão de revirar o baú (ou a lata do lixo) de nossa história.

Restava, então, a questão da privacidade, que o advogado-celebridade Kakay se prontificou a rebatizar como “intimidade”. Se o último refúgio do canalha é a pátria, no caso dos coronéis da MPB foi a Constituição. Ao colocar os artigos sobre a liberdade de expressão e o do direito à privacidade em conflito, eles tentaram criar um falso debate, fingindo que são contra qualquer censura. Mas não adianta. Djavan pode continuar chorando pelos seus caraminguás, Caetano pode continuar proibindo o improibível e Chico Buarque pode continuar com sua amnésia seletiva. No fim, só resta um fato: o simples ato de querer preservar a intimidade já caracteriza censura prévia, visto que não é possível estabelecer quais fatos da vida pessoal são ou não determinantes para a vida profissional do artista. Se essa brecha for mantida, os biografados mantém também o controle sobre sua própria história.

Alguns artistas de fora dessa panela de (o)pressão, como a cantora Vanessa Da Mata e os atores Wagner Moura e Maria Ribeiro, demonstraram simpatia com o ideário do coronelato emepebista. Não querem ter a privacidade de suas vidas e de suas famílias invadidas. Acontece que, para entender alguém como artista, é preciso entendê-lo também como pessoa. É fundamental explicar as origens, a relação com os pais, o início da carreira. E isso tudo implica em entrar na vida pessoal, envolvendo familiares e amigos que conviveram com o personagem, para mostrá-lo sob vários ângulos. O que os artistas querem é que suas vidas sejam retratadas sob sua exclusiva tutela, de forma asséptica, sem manchas, sem falhas. Um retrato chapa-branca, photoshopado, unidimensional e nada humano.

Todo cidadão tem o direito constitucional de preservar sua intimidade? Certamente, mas nossos queridos artistas esqueceram-se de que a vida de uma pessoa pública é pública. Esqueceram-se, principalmente, que é assim que eles ganham a vida, se apresentando, atuando, se expondo na mídia, divulgando seus trabalhos. Um artista não querer que detalhes de sua intimidade sejam revelados é tão ridículo quanto reclamar que a imprensa não repercutiu seu último trabalho. Mais do que ridículo, o artista não tem esse direito. É o ônus da fama. Quer preservar a intimidade? Que vire funcionário público ou vá… dirigir um táxi.

A classe artística de um modo geral ainda não compreendeu que biografias não são revistas de fofoca. Biografias são obras jornalísticas, documentos históricos que nos ajudam a entender melhor o que é o Brasil. Censurá-las é o mesmo que censurar jornais. Ruy Castro nos contou quem são Carmem Miranda, Nelson Rodrigues e Garrincha. Na música, na literatura e no futebol, compreendemos um pouco de nossa história através desses três personagens fascinantes. Não tem como entender o drama de Garrincha sem falar de seu alcoolismo e de sua conturbada relação com Elza Soares. Não tem como entender a complexidade de Nelson Rodrigues sem conhecer as tragédias de sua vida pessoal. Sem saber, por exemplo, como ele viu o irmão ser assassinado em sua frente, dentro da redação do jornal Crítica, ou sem saber como ele descobriu que seu filho foi torturado pela ditadura militar (que ele próprio apoiava). As marcas de todas essas tragédias ficaram expostas em suas crônicas e peças de teatro ― e foi sua biografia que nos ajudou nessa compreensão.

Falando em ditadura militar, esse período vergonhoso de nossa história vale como prova documental da enorme contradição em que caíram os nossos geriátricos emepebistas, tendo sido, eles próprios, vitimas de todo tipo de censura durante o regime. Exceto, claro, por Roberto Carlos, que tirou proveito da ditadura ficando submisso aos milicos. Em 2006, ele conseguiu fazer ainda pior: atacou judicialmente seu biógrafo Paulo César de Araújo de forma desumana e covarde, algo que faria qualquer censor fardado se refestelar de orgulho. Mas o tempo tratou de corrigir essa grande injustiça e agora o nosso Rei da Cabotinagem vai ter que engolir não um, mas dois livros sobre ele.

A situação fica ainda mais caricata quando percebemos que até uma figura hedionda como José Sarney não impediu a publicação de Honoráveis Bandidos, um retrato virulento sobre as peripécias do clã Sarney no Maranhão. O fato de eu não ser um fã de MPB não me impede de reconhecer o talento musical de Caetano, Gil, Chico e todos os outros (exceto do “rei”, que mais parece um tataravô do Luan Santana). Agora, quando o prócer do coronelismo maranhense fica parecendo um democrata diante de ídolos da música, algo precisa ser repensado. De qualquer forma, todo esse barulho em torno das biografias teve seu lado educativo. Serviu para nos mostrar como pensa a nossa suposta “vanguarda”. Mostrou, acima de tudo, como ainda somos uma república de bacharéis.

Assim, encerro com um pedido a você, admirador de Música Popular Brasileira. Procure saber mais sobre os coronéis da MPB. Procure saber o tipo de gente mesquinha, hipócrita e reacionária que eles são. Procure saber como eles foram mimados durante anos pela nossa “intelligentsia” e agora se julgam intocáveis. Procure saber como eles drenam dinheiro público via leis de incentivo, mamam em patrocínios estatais e ficam com uma grana que deveria servir para impulsionar o surgimento de novos artistas. Procure saber de tudo, quando forem publicadas as suas biografias não-autorizadas.

Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que seja publicado. Todo o resto é publicidade.
George Orwell

4 Responses to “Procure saber tudo sobre os coronéis da MPB”

  1. caio disse:

    Que tipo de imbecil vai ler uma biografia desses caras? deve ser a biografia mais tediosa da face da terra..

    • Diogo Salles disse:

      Caio, gostos musicais à parte, as biografias não-autorizadas dessas figuras poderiam ser tudo, menos tediosas, tamanha a quantidade podres que eles querem manter dentro do armário. Eu, por exemplo, gostaria de ver uma biografia do Roberto Carlos escrita por um não-fã e revelando as abjetas adesões do “rei” a ditaduras sulamericanas.

      Não sei nem se eu leria livros assim, mas só de ver essa gente exposta, seria um serviço de utilidade pública, para acabar com esse endeusamento boboca a esses caras. ;)

      abs

  2. André Luiz disse:

    Fico pensando que em toda esta celeuma a respeito de publicar ou não biografias sobre personas musicais de nosso país, sobram algumas “brechas” que poderiam facilmente ser exploradas por escritores, jornalistas e “pretensos” biógrafos: as reportagens que são conhecidas na grande mídia como ‘perfil’, isto é, guardadas as devidas proporções de espaço e alcance de público, em alguns casos, podem ser “minibiografias” sobre pessoas públicas, já que, em seu cerne, há uma breve apresentação das origens do artista, estampada com fotos de diferentes fases de sua vida, sejam como celebridade ou no aconchego do lar. E se um jornalista ou outro profissional escrevesse um livro de ensaios ou crônicas em que cada capítulo falasse um pouco sobre vida e obra do sujeito “biografado”, mas com o requinte de analisar tal temática em relação ao contexto cultural em que este artista se criou e despontou para o sucesso? Ou se o mesmo jornalista – vendo-se impedido de seguir em frente com seu projeto biográfico – escrevesse sobre as agruras e experiências de tentar biografar alguém “inbiografável”? Pois bem, em países tupiniquins em que se plantando tudo dá, isto seria uma bela maneira de exercer o jeitinho brasileiro.

    • Diogo Salles disse:

      André, nesse caso o livro não seria levado a sério como biografia. Ficaria muito mais próximo dessas “revistas-perfil” que vemos em bancas e não serviria como objeto de pesquisa histórica..

      abs