Dream Theater – Dream Theater (2013)

Em A Dramatic Turn Of Events (2011), o Dream Theater acabou com as dúvidas: poderia, sim, continuar firme e forte sem seu fundador Mike Portnoy. Dream Theater (2013) é a prova final disso, se é que ainda restavam dúvidas. Assim como o anterior, é um disco consistente, mas mais solto – talvez pelo grupo se sentir livre da pressão da mudança. E ambos são, no conjunto, melhores discos que os últimos três com a presença de Portnoy. O fato de o disco ser autointitulado diz muito: é quase um reboot da banda. Não sou o primeiro nem serei o último a escrever isso. E por mais óbvio que seja, é simbólico. É como se fosse uma declaração: “esse é o novo Dream Theater e pretendemos continuar assim por um bom tempo”.

Assim como o anterior, Dream Theater também reafirma a alta capacidade de produção do guitarrista John Petrucci. É um disco equilibrado em termos de repertório, bem pensado na estrutura do tracklist e sonicamente caprichado. E o mais importante: focado. Tanto as músicas quanto as faixas são bem enxutas – ao menos para o padrão Dream Theater. Não temos excessos, tudo é bem encaixado. E o guitarrista parece inspirado, pois a maioria dos solos do álbum são incríveis.

O problema do disco é o que há tempos persegue banda: a mesmice. Tudo soa como deja vu. Parece que o grupo está satisfeito com sua sonoridade e quer apenas tentar fazer o melhor possível dentro desse universo. Além disso, neste Dream Theater, há uma sombra desagradável dos anos 80 pairando sobre todo o álbum. Até mesmo algumas novidades do disco são repetições. A abertura instrumental, a boa “False Awakening Suite”, faz total sentido no disco e é uma viagem com clima cinematográfico. Mas remete à abertura da suíte de Six Degrees Of Inner Turbulence, disco do grupo de 2002.

“The Enemy Inside” é bem amarrada, mas parece um Metallica ou Megadeth genéricos, lembrando ainda o Dream Theater de Train Of Thought (2003). “The Looking Glass”, minha favorita, traz uma combinação certeira de arranjo bem trabalhado com uma canção memorável. Mas o riff inevitavelmente nos leva a Rush e o clima da música relembra “Raise The Knife”, música feita entre o “Awake” (1994)  e o Falling Into Infinity (1997).

“Enigma Machine”, outra instrumental, traz de volta um Dream Theater tocando riffs, licks e quebras de ritmo sem freios e sem medo de assustar a crítica. Mas repete as artimanhas de sempre. “The Bigger Picture” soa como um progressivo genérico – falta personalidade. “Behind The Veil” tem bons momentos – incluindo um solo arrebatador de John Petrucci, um dos melhores de sua carreira. Mas parece presa demais a sonoridades, riffs e timbres dos anos 80. “Surrender To Reason” nos leva de novo ao Rush e também um a clima de fim dos anos 80, com ecos de Images And Words (1992) e uma série de licks, grooves e intenções melódicas já usados pela banda. Já “Along The Ride” é uma daquelas baladinhas clichês e açucaradas, que parecem ser obrigação nos discos do Dream Theater.

Um dos grandes momentos do álbum é a música final, “Illumintation Theory”, um épico de mais de vinte minutos, separado em cinco movimentos bastante distintos. Aqui, vemos um grupo mais maduro, que não precisa mostrar todo seu virtuosismo a toda hora. Nem precisa jogar o máximo de informação em cada compasso. A música se desenvolve com naturalidade. Cada parte tem seu arco, não há transições forçadas. E as partes também fazem sentido juntas. Um dos destaques é “The Embracing Circle”, uma seção instrumental executada com cordas, um momento plácido dentro da intensidade da canção. É uma boa surpresa. Apesar disso, é música é apenas mais um bom épico. O saldo do disco é positivo pela competência dos músicos e por uma banda mais relaxada depois de tanta polêmica. Mas a impressão que fica é de que o grupo está satisfeito com sua proposta musical e vai continuar compondo na sua zona de conforto. Aguardemos os próximos lançamentos.

Veja o lyric video de “The Enemy Inside”:

Outros links geeks:
Tungcast#037: Dream Theater
Dream Theater e Mike Portnoy estão melhores um sem o outro

3 Responses to “Dream Theater – Dream Theater (2013)”

  1. iago barros disse:

    pois é, caro Rafael…Ate quando essa novela mexicana vai durar hein???? rsrsrs
    Fiz questao de comprar o disco (sem ter ouvido ele quando vazou por ai na net) e a única impressao que ficou,foi de um rascunho de boas ídeias;gráficamente e sonicamente.Temo muito queo dt acabe se tornando um Roberto Carlos progger num futuro proximo.E quanto a along for the ride,o nosso tratamento com esse tipo de musica,é o mesmo a mais de 25 anos….ignore

  2. Mateus de Bem disse:

    Rafael Fernandes seus reviews são muito bons, diz realmente o que os discos apresentam. Por que não publica eles no Whiplash? Lá terá maior visibilidade.

    • Rafael Fernandes disse:

      Olá Mateus, obrigado pelo comentário e elogio.

      Quanto à sua sugestão, vou considerar para o futuro. Mas no momento eu e o Diogo preferimos – por uma opção editorial – deixar os textos só por aqui.

      Abs,

      Rafael