90125: o renascimento do Yes


Da esq. para a direita: Alan White, Jon Anderson, Chris Squire, Tony Kaye e Trevor Rabin

Exatos trinta anos depois de lançado, 90125 permanece como um marco na história do prog oitentista. Por sua proposta mais acessível, o disco representou uma reviravolta na carreira do Yes e ainda desperta amores e ódios entre fãs e críticos. Enquanto detratores babam de raiva, admiradores o ouvem de joelhos. Mesmo negligenciado nessas listas de discos em voga hoje (até o livro 1001 Discos o ignorou), 90125 é um dos discos mais importantes dos anos 80. Mas a história por trás de sua composição foi tortuosa e seu lançamento aconteceu quase que por acidente. Uma junção de fatores fez o Yes sair de um período de trevas e renascer das cinzas.

No final dos anos 70, tudo parecia acabado para o Yes. E para o prog rock, que foi atropelado por sua própria autoindulgência e pelo movimento punk. Bandas como King Crimson e Emerson Lake & Palmer já estavam virando página virada da história. Para o Yes o fim já vinha se anunciando desde 1978, quando lançaram o desastroso Tormato, que culminou com a saída de Jon Anderson e Rick Wakeman. Mas Chris Squire resolveu chamar Trevor Horn para os vocais e Geoff Downes para os teclados, com a intenção de modernizar o som do Yes. O resultado se tornou o disco Drama (1980), que tinha boas ideias, mas carecia de força. Fim da turnê, fim da linha para o Yes. Foi cada um para o seu canto. Steve Howe e Geoff Downes foram formar o Asia e Trevor Horn voltou a produzir artistas pop. Só sobraram Chris Squire e o baterista Alan White, que não estavam dispostos a entregar as armas e saíram à procura de novos músicos para um novo projeto.

Em 1981, eles se esbarram em Jimmy Page, ainda de ressaca com o fim do Led Zeppelin, e juntam-se para uma jam. Desse ensaio, saem 4 músicas, que podem ser encontradas em bootlegs sob o nome de XYZ (tirado de eX-Yes-&-Zeppelin). Mas o projeto não iria adiante. Depois de lançar o single “Run With The Fox” com White, Squire vai então fuçar os arquivos da Atlantic, em busca de “new acts” (ou um milagre, talvez), até ouvir a fita de um jovem e desconhecido guitarrista sulafricano. Gostou e o convidou para uma jam.

Depois de lançar três discos solo que caíram na obscuridade, Trevor Rabin já tinha várias músicas compostas para um novo disco e foi tentar a sorte em Los Angeles. Ao apresentar “Owner of a Lonely Heart” a um chefão de uma grande gravadora, ele ouve a seguinte resposta: “Embora achemos que sua voz se encaixe no Top 40, não achamos que essa batida é apropriada nesse momento.” E assim se seguiu em todas as outras gravadoras em que ele tentou. Depois de uma tentativa frustrada de formar uma banda com Keith Emerson e Jack Bruce, e de quase se juntar ao Asia em 1982, Rabin aceita o convite de Squire para formar uma nova banda, batizada de Cinema. Para encorpar o som do trio, Squire queria um tecladista e lembrou-se de Tony Kaye, que havia saído do Yes em 1971. Agora um quarteto, eles começam os ensaios, com Rabin e Squire dividindo os vocais.


Ainda como Cinema (esq. para a direita): Trevor Rabin, Tony Kaye, Alan White e Chris Squire

Meses depois, com as músicas quase prontas, Squire, cheio de más intenções, convida Jon Anderson para ir à sua casa. O encontro dos dois acontece na garagem, às escondidas, pois a mulher de Squire não queria o vocalista por perto. Squire coloca a fita no carro. Eles ouvem “Owner of a Lonely Heart”, “Leave It” e “Hold On”. Anderson fica impressionado e diz que adoraria cantar, mas avisa: “se eu cantar, vai soar como Yes”. Squire assentiu, como se dissesse “essa é a ideia”. Chegando ao estúdio, Anderson grava duas músicas, ouve algumas outras e sugere mudanças nas letras, dando-lhes mais substância. Trabalha pelas 3 semanas seguintes e logo se torna membro da banda. Aí surge a dúvida: que banda, Cinema ou Yes?

Por algum tempo a questão do nome se torna o assunto central das discussões. Já era sabido que havia pelo menos outras duas bandas chamadas Cinema, que ameaçavam processá-los se usassem o nome [nota: não se sabe se elas processaram uma à outra]. No final, com 4 ex-membros do Yes na banda, eles concluem que seria ridículo não usar o nome. Voto vencido, Rabin concorda, e o Yes está de volta. 90125 (número de série do disco no catálogo da Atlantic) é lançado oficialmente em novembro de 1983 e se torna a consagração para a banda, com o single/clipe de “Owner of a Lonely Heart” no topo das paradas. O álbum vendeu 6 milhões de cópias e atingiu uma marca jamais sonhada por uma banda progressiva. Parafraseando Trevor Rabin, você pode não gostar, mas não pode não ouvir esse disco.

A seguir, o tracklist comentado:

1) Owner of a Lonely Heart – foi esse riff que chamou a atenção de Squire e o fez procurar Rabin para uma jam. Durante as gravações, o produtor Trevor Horn foi enfático: “eu não quero saber do resto das músicas enquanto não acertarmos esta, porque será um hit”. É possível perceber a evolução da música ouvindo sua demo, lançada por Rabin no disco 90124.

2) Hold On – com levada mezzo bluesy, mezzo heavy, e sem perder a sofisticação, tornou-se um dos grandes momentos da banda no palco, principalmente pelo solo inspirado de Rabin.

3) It Can Happen – uma das músicas que eles trabalharam quando ainda eram Cinema, antes da chegada de Jon Anderson. Squire canta essa versão inicial e ela só é lançada oficialmente como bônus no box-set YesYears, de 1991. O refrão é o mesmo da versão final, mas nota-se uma grande diferença nos versos e o solo de guitarra também foi retrabalhado.

4) Changes – outra que Rabin já trouxe praticamente pronta ao estúdio e, apesar de Anderson contribuir na letra, os vocais principais continuaram a cargo de Rabin. Se torna um clássico absoluto e um dos melhores momentos de Rabin na banda.

5) Cinema – originalmente intitulada “Time”, é fruto das jams feitas quando ainda eram um quarteto. Conta-se que a primeira versão teria mais de 20 minutos de duração, com muitos solos e improvisos. Na versão final, ela continuou instrumental, mas foi editada para 2 minutos – “to fit the 90125 atmosphere”, segundo Rabin – e venceu o Grammy de “melhor performance de rock instrumental”. Infelizmente, essa versão longa nunca foi lançada e não há nenhum bootleg na praça. Segundo boatos, a fita original dessas jam sessions estaria em poder de Alan White, mas até hoje ninguém o questionou a respeito. O mistério permanece no ar.

6) Leave It – uma música que soa diferente de tudo o que já foi feito, por causa do método pouco ortodoxo usado na gravação. De acordo com Alan White, nesta música eles fizeram tudo ao contrário. Primeiro eles gravaram todos os 27 vocais, depois a bateria e por último adicionaram as guitarras e teclados. É uma música que os vocais são usados como instrumentos e fazem a música se sustentar apenas através deles. Pode-se comprovar isso na versão “a capella” lançada como lado B do single.

7) Our Song – com levada pop e um belo riff de guitarra, acabou sendo ofuscada pelos clássicos e se tornou uma espécie de “lado B” do disco. Foi também a menos tocada na turnê.

8 ) City of Love – com um riff pesado e extremamente simples, causou estranhamento em alguns. Mas a música cresceu e se desenvolveu durante a turnê. Com a adição de solos e improvisos, sugeria um clima de jam e ganhou um verniz mais progger no palco.

9) Hearts – o flerte mais claro com o progressivo. Rabin recorda como ela foi composta: “eu já tinha o refrão e a parte mais pesada, mas faltava algo. Aí Tony Kaye chegou para os ensaios e começou a improvisar o lick que se tornou a introdução da música. Ao ouvir aquilo, gritei na hora ‘é isso! Essa é a parte que falta!’ ”.

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