William DuVall pacificou o Alice In Chains

Desde que o Alice In Chains voltou às atividades, brotam questionamentos sobre a autenticidade dessa nova fase da banda. Roteiro conhecido no rock, sempre que uma banda decide se reunir, muito se debate sobre as reais motivações por trás dessa decisão. A discussão ferve nos fóruns, onde a ala mais radical não consegue evitar a comparação com a versão original. Exemplos pululam. Fãs xiitas do Guns N’ Roses que ainda se iludem com o sonho de ver Slash e Axl juntos, purplemaníacos que não aceitam ver o Deep Purple sem Ritchie Blackmore, etc. No caso do Alice In Chains, o alvo dos detratores é William DuVall. Por um lado, é compreensível, pois Layne Staley era a alma da banda. O carisma, as letras sombrias, os vocais guturais, o desespero juvenil, o impulso suicida. Tudo isso ajudou o AIC a ser uma das pontas-de-lança mais afiadas da invasão de Seattle nos anos 90.

Por outro lado, existem caras que de alguma forma são a banda, encarnando seu espírito e tudo o que ela representa. Não podemos imaginar um Stones sem Mick Jagger, ou um Queen sem Freddie Mercury, ou um The Police sem Sting. Mas Layne Staley não é esse cara no Alice In Chains por uma razão muito simples: ele abdicou do papel. O tempo nos mostrou que o cara era Jerry Cantrell. Sim, é ele o mentor intelectual, o detentor da sonoridade, a força criativa da banda. Depois de terminada a turnê de Dirt em 1993, Staley iniciava sua longa série de derrotas frente às drogas e diminuía suas contribuições à banda, na mesma medida que as responsabilidades de Cantrell aumentavam. O autointitulado disco de 1995 mostrava um AIC deteriorado pela estrada, pelas drogas, pela fama, pela vida. O MTV Unplugged do ano seguinte é o último respiro da banda, que então entra em estado vegetativo.

Com a morte de Layne Staley em 2002, a decisão de voltar caberia exclusivamente a Jerry Cantrell. O que definiria o sucesso ou fracasso dessa volta seria a escolha de seu novo parceiro musical. E aqui cabe uma análise: primeiro de tudo, Cantrell entendeu que simplesmente substituir Staley não só não resolveria o problema, como transformaria o AIC numa caricatura de si mesmo. Era preciso formatar um novo conceito de banda e, para que essa nova história desse certo, ele próprio deveria protagonizá-la. Em vez de um mero coadjuvante (ou figurante), ele precisava de um antagonista. Alguém que cantasse e tocasse guitarra. Alguém que replicasse seu papel ― nem tanto nos holofotes, nem tanto na sombra.

A escolha de William DuVall aconteceu em 2007. Fisicamente parecido com Lenny Kravitz, causou a estranheza em alguns à primeira vista. Quando o Alice In Chains tinha Cantrell/Staley no front, os papéis de cada um eram definidos. Staley comandava o show e Cantrell comandava a sonoridade, dando suporte vocal nos refrões. No estúdio, ambos dividiam a tarefa de escrever as letras e Cantrell fazia todas as músicas. Hoje, Cantrell está à frente em todas as composições (letra e música) no estúdio, com algumas contribuições pontuais dos outros. O que mudou foi a dinâmica no palco. Com a entrada de DuVall, não há mais a figura do “frontman”. Este papel ficou diluído entre os dois. Outra novidade é que DuVall é também guitarrista, o que permite a Cantrell explorar mais as texturas e se lançar em improvisos, sem qualquer prejuízo à sonoridade. “Não temos mais um vocalista principal. É uma continuação do que nós somos, do que a banda evoluiu pra ser”, explica.

DuVall tem um postura diferente no palco. Enquanto Staley se agachava em frente ao público, quase suplicando por sua compaixão (ou tentando puxá-lo para o seu buraco), DuVall está sempre de pé, em pose de alerta, projetando o corpo para frente e olhando o público nos olhos. Uma mensagem corporal, talvez não-intencional, como que dizendo “estamos de volta, e não vamos deixar críticas ou drogas nos derrubar de novo”. Em complemento a isso, ele atinge todas as notas com impressionante vitalidade. O que mais os fãs poderiam querer?, essa é a grande pergunta. “Quando gravamos Black Gives Way To Blue tivemos que nos calar para um monte de coisas e nos concentrar apenas no que queríamos fazer. Fizemos valer nosso direito de existir”, disse DuVall, em entrevista.

Se o AIC hoje não possui a urgência e não oferece o mesmo “perigo” dos anos 90, é uma banda amadurecida, experimentada, segura, que sabe de sua capacidade e não tem nenhuma pretensão que não seja a de fazer música. Uma banda que não abre mão de olhar para o futuro, mas que também não renega o passado. Quem deixa isso claro é o baterista Sean Kinney, quando traz as iniciais “LSMS” gravadas em seu bumbo. “Layne Staley, Mike Starr, eles estão com a gente. Somos uma banda de 6, e estamos todos no palco” diz.

A unidade e a sintonia na banda em relação ao que representam hoje ficou evidente no show do Rock In Rio 2013. Em festivais desse porte, é comum ver bandas disputarem a atenção do público a todo custo, forjando catarses e pieguices por vezes constrangedoras. Sendo o exato oposto disso, o Alice In Chains se manteve firme em sua proposta, com um show sóbrio, por vezes sombrio, mas climático e competentíssimo tecnicamente. Analisando friamente, qual o sentido de o AIC querer arrancar sorrisos e pulos de felicidade de um público cantando “Rain When I Die” e “Down In a Hole”? Não. Os shows contemplam quem realmente gosta de vê-los ao vivo.

Hoje, com dois álbuns lançados e com as duas turnês tendo passado pelo Brasil, é possível dizer com total segurança que a volta do Alice In Chains não é uma reunião caça-níqueis, como foi a do Faith No More. Dos dois discos lançados desde a volta, não ouso apontar o melhor. Produzidos por Nick Raskulinecz (Foo Fighters, Deftones, Rush), ambos possuem sonoridade bem próxima. Black Gives Way To Blue foi o desbravador dessa nova fase e trouxe a agressividade de “Check My Brain”, a grandiosidade de “A Looking In View” e a beleza semiacústica de “Your Decision”. Já em The Devil Put Dinosaurs Here temos o peso melódico de “Lab Monkey”, a leveza de “Voices” e a claustrofóbica “Phantom Limb”. É verdade que hoje eles arriscam menos do que no passado, mas também oscilam menos. A estética soturna continua lá, a tradição de músicas acústicas também. E se antes a guitarra de Jerry Cantrell soava veloz e pesada, hoje soa melódica e mastodôntica. O AIC remontou tudo o que fora construído de bom no passado, estancou as infiltrações, removeu o entulho deixado pelas mortes de seus membros e moldou sua nova catedral.

A grande novidade (e o grande feito) de The Devil Put Dinosaurs Here é a entrada de sola no debate político, afrontando a extrema-direita religiosa. O título e a capa do álbum fazem referência a um grupo de religiosos nos EUA que acredita que satanás enterrou ossos de dinossauros na terra para enganar a humanidade. Diz o refrão da faixa-título: “Jesus não gosta de um viado / O demônio pôs dinossauros aqui / Nenhum problema com a fé, apenas com o medo”. Enigmático, Jerry Cantrell tergiversou sobre o assunto e se limitou a dizer: “Quando você ensina as pessoas que ser homossexual é um pecado mortal e quando uma boa parte das pessoas que pregam isso abusam de crianças, temos um grande problema.” William DuVall foi mais direto ao ponto: “É uma crítica à intolerância de um certo setor da sociedade que decidiu que sua convicção religiosa deve legislar sobre o nosso comportamento. Temos pessoas sendo eleitas que estão tentando tirar a Ciência das escolas. Então não temos que lidar só com o ataque aos direitos reprodutivos das mulheres e essa batalha sobre os direitos legais dos homossexuais, mas eles querem retroceder a evolução? Quando se chega a esse nível de bufonaria, temos que dar uma resposta.”

Então, o que podemos concluir sobre o novo Alice In Chains é o seguinte: 1) hoje eles são uma banda mais consistente do que jamais foram; 2) William DuVall é não só um ótimo músico, mas também o cara que pacificou a banda nessa nova fase (que esperamos que seja longa); 3) as viúvas de Layne Staley precisam dar um jeito de virar a página e seguir em frente; e 4) a entrada do AIC no debate político é muito bem vinda e digna de aplausos.

Links relacionados
Tungcast#049: Alice In Chains
Tungcast#019: Guitarristas em carreira solo – Boggy Depot (Jerry Cantrell)

16 Responses to “William DuVall pacificou o Alice In Chains”

  1. Gabriel LC disse:

    Olá, Diogo e Rafael, tudo bem?

    Ótimo texto, concordo com tudo. Já vi muita gente falando mal dessa nova fase do AIC, que o vocalista canta mal e etc… Eu gosto muito do Duvall e acho q musicalmente o Black Gives Way to Blue é o meu segundo disco favorito do AIC hj (perde só pro Dirt pra mim). O item 3 do fim do texto deveria ser destacado em negrito, rs.

    Aliás, e o show do Living Colour sendo cortado no fim na transmissão do Multishow pra dar passagem a Ivete Sangalo, hein? Triste, muito triste. Ao menos os caras tocaram muito, como sempre.

    Abs!

    • Diogo Salles disse:

      Gabriel, engraçado os conceitos de “cantar mal” desse pessoal. Pra mim, esses 2 últimos discos não ficam nada a dever para os antigos, mas claro que as viúvas do Layne vão discordar.. rss

      Sobre o Multishow, fazer o quê? Uma pena. Living Colour deveria ter passado na íntegra e depois reapresentado várias vezes..

      abs
      Diogo

  2. Ana Elisa disse:

    Achei o texto muito pertinente, o conteúdo bem embasado. Mas faria algumas observações sobre suas impressões/informações.

    1º Acho um tanto quanto cruel e principalmente injusta a afirmação:

    “Por outro lado, existem caras que de alguma forma são a banda, encarnando seu espírito e tudo o que ela representa. Mas Layne Staley não é esse cara no Alice In Chains por uma razão muito simples: ele abdicou do papel.”

    Você simplesmente desmerece toda a obra da qual Layne foi a mais genuína representação do que até hoje é o Alice in Chains. E desconsidera a crucial figura dele enquanto criador do que se tem como característica melódica/temática da banda. Tudo porque ele “abdicou do papel”? Não acho que isso faça sentido.

    2º “No estúdio, ambos dividiam a tarefa de escrever as letras e Cantrell fazia todas as músicas.”

    Nessa parte, só um adendo. Layne ajudou a criar algumas músicas também. Cito “Hate To Feel”, “Head Creeps” e “Angry Chair” como exemplos.

    3º “DuVall tem um postura diferente no palco. Enquanto Staley se agachava em frente ao público, quase suplicando por sua compaixão…”

    Recomendo altamente que você veja shows clássicos como o Live Facelift, Miami 1991, Hollywood 1992, Oakland 1992, Rotterdam 1993 (e posso citar muitos outros). Layne nunca foi essa miséria toda em suas performances ao vivo, muito pelo contrário, ele era um frontman bem altivo, fascinante.

    4º Por que meio se chega à conclusão de que Duvall “pacificou” o Alice in Chains se desde o retorno da banda ele só teve espaço para compor 2 músicas em 2 álbuns? Pra mim tá mais pra convidado especial por enquanto.

    • Diogo Salles disse:

      Oi, Ana Elisa, vamos lá:

      1) A responsabilidade de ser “o cara” no AIC era naturalmente de Staley, tanto que ele ajudou a moldar o som da banda junto com o Cantrell. Ninguém questiona o mérito dele. Sem parceria Staley/Cantrell, provavelmente não haveria AIC. Acho apenas que ele se afastou desse papel de ser “o cara” na banda por vontade própria. Isso não quer dizer que devamos anular o que ele fez anteriormente. Muito pelo contrário.

      2) Staley fez algumas músicas, claro, mas essa responsabilidade era, em tese, do Cantrell. Eu me referia mais à dinâmica deles no estúdio.

      3) Sim, Staley era um frontman muito energético nos primeiros anos, principalmente da turnê Facelift, mas foi perdendo a agressividade e a força à medida que as drogas o combaliam. Esse lance de agachar é só um recorte que fiz para descrever a “desistência” dele.

      4) A banda é do Cantrell. As músicas são dele, o som é dele, a concepção toda é dele. Os outros só colaboram. Isso em estúdio, porque no palco DuVall serve de “espelho” do Jerry. Bem ou mal, a dinâmica funcionou.

      Obrigado pela leitura e pelo debate

      abs
      Diogo

      • Ana Elisa disse:

        4 – Muito pouco o cara ser diminuído a um contraponto, principalmente quando já se conhece suas virtudes e seu potencial. E se tudo “é do Jerry”, então esqueça a alcunha Alice in Chains e lance o Degradation Trip III. Seria mais plausível.

  3. Gabriel Araújo disse:

    Acho que pra nova fase do AiC, o Duvall é sensacional. O AiC praticamente chutou o Grunge desde que voltou, passou pra um estilo que ainda não consegui definir (mesmo que de fato, o AiC jamais tenha sido grunge de fato). O ruim desse negócio de vocalista novo são os clássicos. Me perdoem, não é implicância, mas eu não consigo ouvir nada antigo do AiC com o Willian Duvall, assim como não consegui ouvir Would com o James Hetfield nos vocais. Sabem, o Layne é insubsítuível. Dou toda moral pro AiC voltar, é direito do Cantrell, a banda é dele. Mas na hora dos clássicos no show, eu até evito ouvir.

  4. Adriano disse:

    Parabéns pelas palavras ditas. Concordo plenamente. Layne se fud… com a atitude de não regenerar-se e continuar lutando. Não o critico como músico que foi incrível, mas situação deplorável de ser humano. Cochilou o cachimbo cai. William mostra responsabilidade e uma posição madura, afinal está hoje o que para mim é com certeza umas das bandas a frente do rock, juntamente com Pearl Jam, e só tenho a elogiar os dois álbuns que Duvall participou. Até posso dizer que estou mais satisfeito com o AIC hoje do que tempos antigos e tenho que afirmar que se fosse Cantrell que tivesse morrido, AIC estaria morto por completo sem chances de volta. Essa é minha opinião que claro pode não ser a de muitos, mas respeito.

  5. Diogo Salles disse:

    Gabriel, não tem jeito: ninguém jamais conseguirá cantar as músicas do Layne tão bem quanto ele mesmo. Como isso já não é mais possível, temos de aplaudir o DuVall por conseguir manter o alto nível, certo?

    Adriano, não acho que a regeneração do Layne seja algo tão simples. O lance dele foi pesado. Acho que ele perdeu a batalha anos antes de morrer, até mesmo antes deles gravarem o Unplugged. Os outros integrantes também devem ter se torturado por não terem conseguido ajudá-lo. E pior: Layne levou Mike Starr junto para o buraco dele. Mas que bom que a banda encontrou o DuVall e voltou à ativa com tanto vigor. Se um dia a banda acabar, não será por falta de assunto.. :)

    Ana Elisa, em carreira solo, o Cantrell se permite experimentar mais e sair do contexto do AIC, embora guarde algumas similaridades. Mas não acho que o novo AIC seja um Degradation Trip III. Enfim, opiniões…

    Obrigado a todos mais uma vez
    Diogo

  6. Jéssica disse:

    Texto digníssimo! Parabéns!

  7. Neiva disse:

    A melhor análise que li até agora desde o retorno do Alice, conseguiu descrever muito bem os papéis e importância de cada um.. Apesar de não ser uma viúva do Layne (sou fã do Alice por causa do Jerry), também não era uma entusiasta do William, mas quanto mais conheço do trabalho dele com a banda mais o respeito aumenta, primeiro porque ele teve a grande ousadia de assumir o lugar que foi do espetacular Layne, e se Jerry não tivesse encontrado a segunda voz que é a característica do AiC muito provavelmente a banda não estaria na ativa, então concordo que ele é merecedor do reconhecimento que o texto lhe confere… vi o show do rock in rio pela tv e fui a São Paulo para o show deles, foi o melhor show da minha vida, eles são demais! o único senão foi a curta duração… vida longa ao AiC!

  8. Diogo Salles disse:

    Jéssica e Neiva, obrigado!

    Layne Staley era incomparável e insubstituível. Que bom que o AIC se tornou uma banda diferente com DuVall.

    abs
    Diogo

  9. Caio disse:

    Digam o que quiserem do Duvall e do atual AIC, mas esses dois últimos álbuns dos caras, são impecáveis, conseguiram manter o estilo musical sombrio característico do AIC com bastante originalidade e qualidade. Estão conseguindo cumprir a grande tarefa de me fazer continuar gostando de rock nos tempos atuais. Poucas bandas hoje ainda tem essa capacidade.

  10. Vitor disse:

    Nossa! estou com sono e por isso não estou em condições de dar uma resposta a altura deste texto sensacional, mas o que eu posso dizer… Não tenho palavras para descrever o que o Layne significa pra mim, mas não consigo imaginar outro ser humano que não seja William Duvall para lugar dele, cabeça erguida sempre, Duvall! este cara tem minha total admiração, queria poder dizer pra ele.
    Acho que ninguém vai ver isso, pq este post já tem quase um ano, mas é um texto precioso e todos os fãs do AIC deveriam ler.

  11. Bruno Olegário disse:

    A melhor banda do mundo, mesmo com a morte do Layne, ainda mantém uma regularidade incrível, Duvall vem fazendo um excelente trabalho, sem contar o gênio da banda, o mito, a lenda, o gênio Jerry Cantrell, mesmo sem um dos pilares continuou a banda e fez 2 ótimos albuns

    OBRIGADO POR EXISTIR ALICE IN CHAINS \m/

  12. Renatinho disse:

    Eu achava que o título do disco tinha a ver com o fato de os caras envelhecerem e o rock continuar sendo coisa do capeta! kkk Vida longa aos dinossauros do AIC! Enquanto houver Cantrell haverá AIC!

  13. Johnny disse:

    Puts… Esse cara que escreveu o texto, com certeza não conhece porcaria nenhuma sobre o Alice in Chains. Jerry quem fez quase 100% da letras e músicas do Alice in Chains. E Layne era sim “O cara”, ótimo interprete e grande presença no palco, assim como o Sean na batera, completava totalmente a banda…E ainda mais inútil é falar merdas sobre o Layne com relação as drogas…procure se informar sobre o quanto ele lutou contra elas…
    Lixo de materia…perdi tempo lendo