A cobertura musical na TV e o jornalismo-celebridade

“Pra ser sincero, estou tão alienado e enojado a ponto de me perguntar se quero mesmo fazer algo nos próximos anos. Veja bem, a questão é: tudo está ficando como a revista People. Todo o rádio, toda a imprensa, tudo está ficando assim, até o ramo editorial. Ontem, falando com meu empresário, perguntei a ele: ‘Você acha que, continuando assim, a única coisa vendável vai ser a biografia-putaria de alguma celebridade?’ E ele respondeu: ‘Não sei.’ Entende? Estou aqui e me pergunto se, como escritor, não seria melhor mandar tudo isso às favas. Lógico que não vou ficar fazendo lamentações piegas, porque, como já falei, sei que me dei bem, não preciso acordar cedo e trabalhar numa fábrica das 9 às 5 ou qualquer coisa assim. E ganho lá as minhas cortesias, portanto não causo pena em ninguém. Mas, ao mesmo tempo, todas essas pessoas que conheço estão completamente alienadas, de saco cheio, enojadas com tudo, e sei que boa parte daqueles que trabalham na mídia e nos impingem essas coisas está tão alienada quanto o público. O público compra só porque não lhe é oferecida outra coisa. E, pessoalmente, eu me pergunto quando as pessoas vão começar a dizer ‘Não! Eu me recuso, não quero mais isso!’”

Lester Bangs, em entrevista ao News Blimp, 1980

Já há algum tempo tenho observado a cobertura dos festivais de música na TV e venho me perguntando se existe realmente um jornalismo musical ou cultural ali. Parece que na cobertura televisiva o jornalismo precisa ser provinciano, raso e acéfalo. Parece que a TV exige um selo de mediocridade, uma espécie de ISO9000 às avessas. E parece não fazer a mínima diferença se o evento é um show de rock ou se é o conclave para eleger o papa. Qualquer evento aqui no Brasil é tratado como copa do mundo, com a imprensa comandando a transmissão direto da área “vip” do camarote da Brahma na Sapucaí. O oba-oba jornalístico tomou conta de tudo.

Alguns justificam dizendo que isso acontece porque “brasileiro adora festa”, que “somos um povo alegre”, e todo essa baboseira ufanista (ou, nas palavras de Lester Bangs, o “fascismo hedonista”). Já os coxinhas de plantão ressaltam que é preciso “agradar aos patrocinadores” do evento e pensar apenas “no que é vendável”. Outros, metidos a sociólogos, tentam dar um verniz moderno à discussão dizendo que, com o crescimento da “classe C”, temos de nos adequar às “novas demandas”. Mas será que isso tudo significa que devemos ignorar a informação e tratar leitores e telespectadores como imbecis?

Para ilustrar minha tese em fatos, destaco três shows — todos ocorridos em 2011:

1) Rock In Rio: sem medo de ser feliz, a repórter pergunta aos caras do Slipknot por que eles usavam máscara — algo que até mesmo o “jornalismo Google” não teria dificuldades para descobrir. Se ela tivesse ao menos lido o verbete da banda no Wikipedia, já teria perguntas melhores para fazer. Não à toa, Corey Taylor respondeu à ela com outra pergunta: “Você tem certeza de que você está me perguntando isso?”

2) SWU: lá estava o Sonic Youth, debaixo de especulações de que aquele seria o último show de sua carreira. Obviamente, ninguém se dignou a ir lá perguntar a Thurston Moore ou a Kim Gordon se a banda acabaria mesmo e quais seriam os motivos para essa decisão. Resultado: a informação estava correta. Aquele foi realmente o último show da banda, mas o público só ficaria sabendo os motivos depois do fim do festival, quando eles já tinham retornado aos EUA.

3) Eric Clapton: em sua última turnê pelo Brasil, o guitarrista concede entrevista à TV, onde um dos assuntos mais relevantes ali foi o namoro que ele teve com Carla Bruni nos anos 90. Clapton fundou o Cream, Blind Faith, Derek & The Dominos, depois saiu em carreira solo, se afogou nas drogas e no álcool, transformou tragédias pessoais em clássicos do rock, influenciou milhares de músicos e artistas em todo o mundo e gravou seu nome entre os maiores da história da música… Mas na TV aberta, nada disso parece ser mais importante do que um romance fortuito. De repente, a lenda do blues-rock recebia um tratamento de Justin Bieber (porque na TV Bieber ou Clapton é tudo a mesma coisa, são “celebridades”). Para piorar, eu soube depois (através de fontes de dentro da imprensa escrita), que Clapton ficou tão ofendido com essa entrevista, que recusou todos os outros pedidos de entrevista de outros veículos. Mais uma vitória do jornalismo-celebridade. Por isso que às vezes temos de dar um desconto a artistas que perdem a paciência diante das câmeras. Muricy Ramalho neles!

E aí voltamos ao questionamento do Lester Bangs: será que o público compra esse mau jornalismo porque não lhe é oferecida outra coisa? Vou além: será que uma cobertura realmente musical não faria sucesso em festivais de rock? Será que não existe aí um público que gosta de verdade de música e quer informações, análises e entrevistas interessantes com os artistas? Existe algum sentido em perguntas como “qual é a emoção de entrar no palco?” Será que, mesmo o público não conhecendo muito bem determinado artista, não seria o caso de apresentá-lo de uma forma mais adequada? Ou será que a opinião do ex-BBB e do galã da novela é mais relevante?

Às vésperas de mais uma edição do Rock In Rio, cabe aqui uma cobrança para que a transmissão suba o nível. Duvido que mude alguma coisa em relação ao “hoje é dia de rock, bebê!” de 2 anos atrás, mas se a internet veio mesmo para “democratizar” a mídia tradicional, já passou da hora de questionarmos até que ponto podemos suportar essa cobertura carna-futebolesca.

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5 Responses to “A cobertura musical na TV e o jornalismo-celebridade”

  1. Gustavo Sampaio disse:

    Só para ilustrar. O anúncio que o Pedro Bial fez para o Guns no Rock in Rio II: – Pistolas e Rosas!! eu ainda criança fiquei com vergonha daquilo

  2. Caio disse:

    É uma caretagem total. Até dentro de muitos conhecidos a musica não lhe interessam mais que a vida, os numeros e a atitude dos seus astros.

  3. Diogo Salles disse:

    Gustavo, essa do Bial deixaria corada até a “nave-mãe” no BBB…

    Caio, pelo pouco que consegui ver desse Rock in Rio, a cobertura não foi como a de 2011. Foi pior.

    abs

  4. Pree Mosh disse:

    Vocês se esqueceram do Lollapalooza 2013 que teve em um dos dias uma banda pouco conhecida aqui no Brasil que é o A Perfect Circle. Eu estava lá e vi a cobertura do show só depois. Colocaram uma repórter que não tinha nem se quer consultado o Google pra saber informações básicas sobre a banda, além de fazer comentários “adolescentes” sobre os integrantes que ela nem sabia quem eram! Foi uma vergonha pro Multishow! Qualquer fã que estava na grande faria aquela cobertura com muito mais embasamento e entusiasmo e ficaria menos feio pro canal.