Eu Sou Ozzy, o diário do Madman

Revisitando a discografia do Black Sabbath, enquanto me preparava para gravar os dois volumes do Tungcast especial sobre a banda, mergulhei também nas biografias de seus integrantes. O livro de Tony Iommi apresentou a narrativa mais pelo lado do geek musical, já que era dele a função de compor os riffs e polir os arranjos em estúdio para que, mais tarde, se tornassem as músicas que hoje conhecemos. Faltava ouvir “o outro lado”. Faltava cobrir a história pelo ângulo do hedonismo junkie porra-louca. E foi ao término da leitura de Eu Sou Ozzy (Benvirá, 2009, 384 págs.), a autobiografia do Príncipe das Trevas, que percebi que o quadro musical do Sabbath estava completo do ponto de vista jornalístico.

Nesse sentido, as memórias do Madman — as que ele consegue lembrar, pelo menos — vão na direção contrária às de Tony Iommi. Sem inclinação natural para a música ou para as artes, sem perspectivas de futuro e sem nenhum freio para seus impulsos, John Michael Osbourne desde cedo se dedicou a praticar pequenos delitos e foi preso ainda adolescente. De emprego em emprego (todos medíocres), a vida seguia até que… “Eu estava procurando uma aventura, qualquer coisa que não envolvesse trabalhar numa fábrica. Aí chegaram os Beatles…” Foi a epifania de sua vida: “Uma luz se acendeu na minha cabeça quando ouvi aquele disco [With The Beatles]. Fui sugado. As harmonias de Lennon e McCartney eram mágicas (…) Pode parecer exagerado, mas pela primeira vez senti que minha vida tinha algum sentido.

A relação de Ozzy com as drogas também vem desde seus verdes anos. Ainda jovem, quando trabalhava numa fábrica, perto da máquina de desengraxar havia um tanque de diclorometano, altamente tóxico. “Era como cheirar cola… vezes cem”. Os intervalos entre uma cheirada e outra eram cada vez menores, deixando-o a andar desorientado pela fábrica. Ali já se tinha uma boa noção do quanto Ozzy gosta de ir aos extremos. E dali em diante, o chão era o limite. Desde que começou na música — e assim passou a ter dinheiro para sustentar seus vícios —, Ozzy raramente esteve sóbrio. Viciado em coca nos anos 70, em álcool nos 80 e a toda sorte de pílulas e coquetéis nos 90, seus relatos fazem com que o amor de Keith Richards pela heroína pareça uma paixonite juvenil.

Dos anos iniciais do Sabbath até os desentendimentos que o levaram a sair da banda em 1979, Ozzy foi se autodescobrindo como grande entertainer. Carismático, era dele a função de levar o público à loucura, tarefa que sempre desempenhou com absoluta naturalidade. Tanto é que nem precisava estar totalmente chapado para fazê-lo (ele conta que possui um histórico familiar de esquizofrenia e bipolaridades). A técnica vocal nunca foi seu forte. Dentre as várias vias possíveis no rock, ele seguiu pela estrada do caos, sem freios nem limites de velocidade. E o público foi junto. Nesse aspecto, foi o caminho oposto ao adotado por seu substituto no Sabbath, Ronnie James Dio, grande virtuoso vocal e ideólogo do metal. Ao longo dos anos, os dois se respeitaram mutuamente, no limite, sem esconder a rivalidade.

Outro fato que ele deixa explícito no livro é que se Sharon não tivesse aparecido em sua vida, ele faria parte do obituário do rock há pelo menos 30 anos. Foi dela o papel de reerguer a carreira do marido depois da saída do Sabbath, como também o de administrar todas suas atribulações da vida pessoal e musical. É a partir dessa direção que ela dá ao trabalho solo de Ozzy, forjando aquela estética vampiresca de filme de terror, que se percebe como a visão de negócio faz toda a diferença numa carreira artística. Enquanto Iommi degringolava com o Sabbath depois da saída de Dio em 1982, Ozzy se tornava maior do que sua ex-banda.

Algumas boas histórias ficaram de fora do livro, devido aos blackouts de Ozzy. Ele diz não se lembrar de ter cheirado uma carreira de formigas (os caras do Motley Crue juram que é verdade). Já o fatídico dia de 1989 em que, completamente fora de si, tentou estrangular Sharon foi contado a partir do momento que a sobriedade lhe chegou, quando já estava atrás das grades. Isso não significa que ele estivesse tentando limpar a própria barra. Em nenhum momento ele se preocupa em pintar um retrato bonito de si mesmo. Ao contrário, ele enumera vários de seus arrependimentos, como o histórico de abatedouros e crueldade com animais, além da total falta de consideração que teve por diversas vezes com pessoas próximas. Na parte mais triste do livro, Ozzy detalha sua relação fraternal com Randy Rhoads e a trágica morte do guitarrista em 1982.

De qualquer modo, são relatos que não tiram a graça na leitura. Nem mesmo quando ele se derrete pelos filhos, fato já conhecido desde o reality show The Osbournes (outra sacada mercadológica de Sharon). Estão lá também a famosa história do morcego (teve outra parecida, pouco tempo depois, com uma pomba), e todos os excessos das turnês, principalmente nos anos 80 — o que nos faz perguntar como um sujeito desses pode estar vivo até hoje. Eu Sou Ozzy não dá ao leitor qualquer opção que não seja a de rir com as histórias cabeludas e os comentários sarcásticos do Madman sobre si mesmo, sobre o rock e sobre a vida. Diversão garantida tanto para fãs ocasionais quanto para geeks e historiadores do rock.

Links relacionados
Iron Man, a autobriografia de Tony Iommi
Tungcast#073: Black Sabbath (vol.1) – 1969-1979

2 Responses to “Eu Sou Ozzy, o diário do Madman”

  1. Rafael disse:

    Muito boa resenha. Texto muito bem escrito. Espero comprar o livro o quanto antes.