Clockwork Angels Tour: mais um capítulo da redenção do Rush

> Por Marcelo Freire, de Nikon at Jones Beach, Wantagh (NY), 23 de junho de 2013

Foram 72 shows de Clockwork Angels Tour pela América do Norte e Europa, encerrados em 4 de agosto, em Kansas City, que concluíram uma fase de ouro do Rush. Ela começou em 2002, quando Geddy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart voltaram ao estúdio após um intervalo de cinco anos e, desde então, o power trio não deixou de se reinventar. Essa é uma das explicações para o reconhecimento que os canadenses receberam nos últimos tempos, com várias conquistas: sucesso de público e crítica do documentário Beyond the Lighted Stage (2010); as boas vendas do disco mais recente, Clockwork Angels, que estreou em 2º lugar nas paradas da Billboard; e, finalmente, a entrada no Rock and Roll Hall of Fame. Nascimento para um novo público, reinvenção para os antigos fãs, sucesso inédito no establishment musical.

As novas concepções ficaram explícitas tanto no estúdio quanto nos palcos. A banda lançou três discos completamente diferentes: o pesado, frenético e direto Vapor Trails (2002), o polido e compassado Snakes and Arrows (2007) e Clockwork Angels (2012), o primeiro disco inteiramente conceitual do trio, ainda assim marcado pela sonoridade diversificada de suas 13 faixas. Nesses anos, as turnês se alternaram entre as três dedicadas aos álbuns e duas marcadas pela nostalgia, como foi o caso da Time Machine Tour, que desembarcou no Brasil em 2010.

E se os clássicos mais antigos marcaram o set list em 2010, a intenção com a Clockwork Angels Tour foi oposta. A nova turnê teve o disco atual executado quase que integralmente – 10 das 13 faixas – e recuperou músicas há muito não tocadas, lançadas principalmente entre 1982 e 1991. Isso significa que vários clássicos ficaram de fora, como “Freewill”, “La Villa Strangiato”, “The Trees” e, particularmente nesta noite de 23 de junho, “Working Man”e “Limelight”.

O público americano que lotou a Nikon At Jones Beach Theater na cidade de Wantagh, na região costeira do estado de Nova York, não parecia se importar muito com isso. Acostumados a shows frequentes da banda, os presentes, predominantemente entre 30 e 60 anos, aguardavam com muita ansiedade quando o show começou de forma inusitada com o teclado de “Subdivisions” (1982). Relegado a “quarto instrumento” e menos presente nos discos dos últimos 20 anos, os teclados de Lee dominaram o primeiro set, baseado nos anos 80. “The Big Money”, “Grand Designs”, “Middletown Dreams” e “Territories”, todas de Power Windows (1985), “The Analog Kid” (1982), “Force Ten” (1987), “The Pass” (1989), “Where’s My Thing” (1991) e “Far Cry” (2007) formam a primeira hora. Há tempo para uma série de efeitos visuais (os pequenos filmes nos telões são uma atração à parte) e frequentes brincadeiras no palco, que refletem uma banda que não se leva tão a sério. Uma novidade é o solo de Neil Peart, agora dividido em três partes – a primeira delas durante a instrumental “Where’s My Thing”.

Cinematográfico

A segunda metade do show dá início à overdose de Clockwork Angels e marca a maior inovação da turnê: a entrada de um octeto de cordas para ressaltar os arranjos e “orquestrar” o som da banda. É a primeira vez, fora ocasiões especiais, que Lee, Lifeson e Peart se permitem subir ao palco com outros músicos sob o nome Rush. A reação do público é a melhor possível durante todo o tempo, mas a coesão entre grupo e octeto funciona perfeitamente apenas em alguns momentos. Em outros, mais rápidos, eventualmente ocorria um embaraço entre baixo, guitarra e violinos. “Caravan”, “Clockwork Angels”, “The Anarchist”, “Carnies”, “The Wreckers”, “Headlong Flight”, “Halo Effect”, “Wish Them Well” e “The Garden”, com banda e octeto, formam a sessão do disco novo. Algumas têm recepção um pouco mais calorosa, mas no geral todas são contempladas por uma plateia atenta.

“Carnies” se destaca em meio a uma performance enérgica e agressiva tanto do trio quanto da orquestra, que culmina com uma sequência de explosões e um estouro ensurdecedor no final. “Caravan” e “The Garden”, prólogo e epílogo de Clockwork Angels, alternam peso e suavidade e também são pontos altos desse momento do show, assim como a candidata a clássico “Headlong Flight”. Com seu riff nostálgico, aludindo a “Bastille Day” (1975), “Headlong” tem a segunda parte do solo de Neil Peart, curta, interrompendo um pouco o frenetismo da canção. A temática “steampunk” do novo álbum, elaborada por Peart, trabalha com a concepção de um mundo caótico no futuro a partir do imaginário do século XIX, fazendo referência a vapor, relógios, engrenagens e outros elementos da Revolução Industrial. Mantida tanto musicalmente quanto visualmente, essa concepção produz um aspecto cinematográfico e colabora para que a ausência momentânea de hits não esfrie a apresentação. A grande duração do set, em torno de três horas, é outra vantagem nesse quesito, pois há espaço para (quase) tudo.

A parte final recupera um pouco dos anos 90 com “Dreamline” (1991), antes do último solo de Neil Peart, agora explorando a bateria eletrônica. “Red Sector A” (1984) e a instrumental “YYZ” (1981) são as últimas executadas com o octeto de cordas, trazendo um novo e peculiar arranjo para esses dois hits. “The Spirit of Radio” (1980), que ficou de fora de alguns shows da turnê, está presente nesta apresentação em Jones Beach, para reação efusiva do público. Alternando elementos pop e reggae com a complexidade instrumental dos primórdios do trio, “Spirit” foi a porta de entrada do Rush nos anos 80 e costuma ter uma das melhores recepção nos shows. O bis é composto de dois dos maiores clássicos da banda: “Tom Sawyer” e “2112”, esta última representada nas partes 1, 2 e 7 da suíte original de 20 minutos e sete seções, conferindo ao show um desfecho grandioso, nostálgico e familiar para os fãs.

A Clockwork Angels Tour é mais um capítulo do renascimento do Rush, que mantém sua execução ao vivo no mais alto padrão e não se esquiva de compor material novo e moderno. Aliadas à peculiar estabilidade da formação Lee-Lifeson-Peart, junta há 39 anos, essas qualidades são a fórmula do Rush para suas apresentações grandiosas, sempre com casa cheia. Em um mundo onde as velhas grandes bandas de rock estão cada vez mais próximas da aposentadoria, normalmente com poucos integrantes originais, e os novos músicos não conseguem atingir o mesmo patamar dos gigantes das décadas passadas, quem se mantém no nível de excelência tem prioridade. E o público, do mais antigo ao mais novo, do mais radical ao mais moderado, concedeu atendimento prioritário ao Rush nas bilheterias.

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