Top 5 – Discos pop de artistas solo nos anos 80

Muita gente que vem discutir música comigo vem com uma ideia preconcebida de que eu odeio a música pop e tenta polemizar em cima do tema. Adoro debates musicais, mas é preciso partir de conceitos verdadeiros. Tenho uma visão crítica a respeito desses autointitulados “popstars” do momento, que fazem um som manipulado e talhado para o showbizz, porque acho que essa discussão é mais estética do que musical. Eis a verdade: eu adoro pop, mas o pop pensado e feito com conceito, criatividade, visão artística/autoral e conhecimento musical. Como em todos os gêneros musicais, existem os toscos e os sofisticados, mas no pop os significados muitas vezes ficam invertidos, quase sempre por causa das indústrias que parasitam no seu entorno (celebridade, fofoca, moda…). Na minha visão, os anos 80 foi o período mais prolífico desse pop feito com qualidade, pois foi a partir da popularização dos teclados e samplers e do lançamento de Thriller que se descobriram novas possibilidades e todo um mercado a ser explorado. Portanto, montei aqui uma lista dos discos pop de artistas solo que mais gosto deste período. E fico no aguardo de suas listas.

1) Thriller – Michael Jackson (1982)

Qualquer lista que tenha os termos “anos 80” e “pop” no título começa e termina em Thriller. Existe algo mais a dizer sobre este disco que todo mundo já não saiba de cor? O mais vendido de todos os tempos, a produção de Quincy Jones, o clipe curta-metragem de “Thriller”, o moonwalk em “Billie Jean”, a parceria com Paul McCartney, o vozeirão de Vincent Price… E assim se segue ad infinitum. Já escrevi mais detalhadamente sobre esse fenômeno num especial que participei no Digestivo Cultural, ocorrido pouco depois da morte do “Rei do Pop”. De modo que não vou repetir tudo o que já se sabe. Faço apenas um convite aos geeks para conhecer mais de perto a história por trás da música “Beat It” e o que de fato ocorreu na gravação do hipnótico solo de Eddie Van Halen. Clique aqui e divirta-se.
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2) …Nothing Like The Sun – Sting (1987)

Sting sempre foi um artista muito criticado pelas diversas personas que encarnou fora dos palcos. Ativista ambiental, amigo-do-Raoni, pretensioso, autoindulgente. Ok, ele pode ser um pouco de tudo isso, mas são críticas que apontam só para o lado pessoal, sem levar em conta o músico de talento excepcional que ele é. Depois de encerrar o ciclo do Police (uma das maiores bandas de seu tempo), Sting se lançou numa carreira solo bastante produtiva e foi muito feliz em convidar músicos do quilate de Kenny Kirkland e Brandford Marsalis para dar um acabamento “jazzy” ao seu som. Sua primeira aventura pós-Police seria o ótimo The Dream of the Blue Turtles (1985). Dois anos depois, viria …Nothing Like the Sun, onde encontramos clássicos como “Englishman in New York”, “Fragile” e hits pop como “We’ll Be Together”. Mas o que fez este disco se destacar entre os outros é o “recheio” que veio junto aos singles. E são exatamente músicas como “The Lazarus Heart”, “Be Still My Beating Heart” e “They Dance Alone” e “History Will Teach Us Nothing” que dão coesão ao trabalho e fazem deste o seu mais bem acabado e criativo disco como artista solo. Quem puder ouvi-lo, perceberá que Sting vai muito além do Police e do ativismo eco-chato.
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3) So – Peter Gabriel (1986)

Pouca gente deve ter entendido a decisão de Peter Gabriel ao sair do Genesis em 1975. A banda tinha acabado de lançar o clássico The Lamb Lies Down On Broadway e encontrava-se em seu ápice criativo. Agora pairavam dúvidas tanto sobre o futuro da banda quanto dele próprio como artista solo. Aos poucos, Gabriel foi se redescobrindo, ganhando espaço e conquistando o respeito da crítica, com clássicos como “Solsbury Hill” e “Shock The Monkey”. Depois de lançar o excelente álbum Security em 1982, ele ficou 4 anos longe do estúdio. Lançou álbum um duplo ao vivo para celebrar a boa fase e produziu a trilha sonora de Asas do Desejo, do cineasta Alan Parker. A esta altura, era um artista maduro, experimentado e à frente de seu tempo, mas ainda um tanto hermético, restrito ao seu nicho e distante do grande público. Sem mais nada a provar a ninguém, Gabriel entrou em estúdio em fevereiro de 1985 ao lado do produtor Daniel Lanois (U2) para gravar seu quinto disco solo. Deixando um pouco os experimentalismos de lado, investiu num som mais pop. Mas um pop à sua maneira: sofisticado, moderno e autoral. Assim, um ano depois, nasceu o multiplatinado So, trazendo músicas fortes como “Red Rain”, outras mais introspectivas, como “Mercy Street”, hits pop como “Big Time” e o megassucesso “Sledgehammer”. Para quem ficou curioso, uma dica: saiu há pouco uma versão comemorativa de 25 anos do disco, recheado de saborosos bônus. Um verdadeiro banquete para os geeks. Óbvio que, quando vi essa maravilha em minha frente, não me contive e cliquei em “comprar”.
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4) Let’s Dance – David Bowie (1983)

Depois de lançar marcos do rock, como Ziggy Stardust (1972) e “Heroes” (1977) e de se tornar o artista mais influente da década, David Bowie ainda não tinha mostrado a cara nos anos 80 (fora um single ao lado do Queen em 1981). O conceito do novo disco estava praticamente pronto, idealizado em parceria com o produtor Nile Rodgers (a história está toda contada no blog do André Barcinski). Faltava só o ingrediente final. Depois de ver Stevie Ray Vaughan tocar no festival de Montreux em 1982, Bowie enxergou que sua guitarra bluseira era o contraponto perfeito ao som sintetizado e dançante que ele estava criando. Nile Rodgers confessou não ter entendido a escolha de Bowie: “se você quer um cara que soe como Albert King, então por que não chamamos o próprio Albert King? Pelo menos todo mundo conhece.” Bowie bateu o pé. SRV chegou ao estúdio e gravou seus takes quase a seco. “Só ligamos o tape e deixamos ele detonar. Os amps estavam arrebentando. Era a coisa mais alta que eu já tinha ouvido em toda a minha vida”, disse Rodgers. Depois de gravar o solo na faixa-título, SRV entrou na sala de controle e sorriu: “esse foi em homenagem ao Albert!”. Let’s Dance explodiu nas paradas, vendeu 6 milhões de discos, os singles “Let’s Dance”, “China Girl” e “Modern Love” tocaram até gastar e tudo mudou na vida tanto de Bowie (que se tornou prisioneiro do showbizz pelos anos seguintes), quanto de Vaughan (que se tornaria o responsável pela ressurreição do blues).
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5) Reckless – Bryan Adams (1984)

Mais conhecido por canções românticas e grudentas, Bryan Adams costuma ser ignorado no cenário rock. Seria justo, caso Reckless não tivesse sido lançado. Com um belo riff de guitarra, “Run to You” foi o primeiro single e jogou o quarto álbum do canadense nas paradas de sucesso para não sair mais. “Summer of ’69″ é provavelmente seu maior hit até hoje e é um dos momentos mais roqueiros do disco, ao lado de “Kids Wanna Rock”. Uma pegada mais pop em “Somebody” e “One Night Love Affair”, mas sem perder a essência, e então vem o tiro de misericórdia: o riff de “It’s Only Love” não só deixou muito metaleiro glam de queixo caído como ainda trouxe a potente voz de Tina Turner para aumentar a combustão do som. Um clássico do pop-rock dos anos 80. Como nem tudo é perfeito, o ponto baixo é, obviamente, a insossa balada “Heaven”, mas não chega a comprometer o conjunto da obra. Uma pena que nos trabalhos posteriores Bryan Adams tenha abandonado o rock para se tornar o Roberto Carlos canadense, investido em baladas cada vez mais repugnantes, até atingir os píncaros da escrotidão com “(Everything I Do) I Do It For You” (é exatamente esse tipo de venalidade que eu tanto critico). Mas Reckless é um disco de alta octanagem e mereceu o sucesso que teve.

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2 Responses to “Top 5 – Discos pop de artistas solo nos anos 80”

  1. Ótima lista Diogo! Na minha entraria Phill Collins – Face Value, e o mais Pop do Chefe: Born in the USA

  2. Diogo Salles disse:

    Gustavo, o ‘Born in The USA’ estava na lista, mas foi eliminado na última hora. A causa deve ter sido um gol aos 45 minutos do segundo tempo, marcado pelo Bryan Adams.. rss

    ‘Face Value’ também é dos bons, mas não se classificou para as oitavas de final. :P

    abs
    Diogo