Iron Man, a autobiografia de Tony Iommi

“Tony Iommi é o verdadeiro pai do heavy metal”, afirma Brian May. “É o criador do som pesado”, diz Eddie Van Halen. “Ele é o Riffmaster e eu sou o que sou hoje por causa dele”, exagera James Hetfield. Ninguém hoje seria louco questionar que, se Tony Iommi não tivesse feito o que fez, o heavy metal (e todos os seus subgêneros) não existiriam. Isso ficou perfeitamente estabelecido na contra-capa de sua autobiografia Iron Man – My Journey Through Heaven & Hell With Black Sabbath (Da Capo Press, 2011, 369 págs.), que acaba de ganhar sua versão em português pela editora Planeta do Brasil. Restava mergulhar dentro do livro para conhecer detalhes da vida do pai de todos os headbangers desse planeta.

Se engana quem pensa que Tony Iommi é aquele tipo de gênio nascido e talhado para o sucesso. Sua personalidade, inclusive, mostra o exato oposto. Sua prosa é bastante simples e descreve um cara absolutamente comum, que também cometeu seus erros na vida. Independente disso, ele tinha como único objetivo tocar a música que lhe significasse algo, mas deixa claro que nunca lhe passou pela cabeça se aquilo estaria ou não mudando a história da música. Não surpreende que boa parte de suas descrições terminem com um “and that was it”. Tudo para ele parece ter sido muito simples e casual. O próprio Black Sabbath nunca fez parte de um grande plano. É mais uma daquelas lendárias histórias que chegaram muito perto de não acontecer. Iommi conta como se juntou por um curto período ao Jethro Tull em 1969, quando o Sabbath ainda se chamava Earth e nem possuía músicas próprias.

Nem mesmo as gravações de clássicos como Paranoid ou Sabbath Bloody Sabbath estão envoltas de grandes histórias misteriosas ou cheias de significados. A música “Paranoid”, inclusive, foi gravada aos 45 minutos do segundo tempo, quase que sem querer, apenas porque o produtor disse que ainda tinha um espaço de 3 minutos na bolacha (o disco se chamaria War Pigs e a arte da capa foi feita para este título). É aí que fica nítida a grande capacidade de Iommi em criar riffs pesados. O homem é uma fábrica. A única coisa que parece irrita-lo é essa aura de satanistas, ocultistas e adoradores do demônio que o Sabbath ganhou desde o primeiro disco. Vem daí a justificativa para tantos crucifixos na vida da banda: eles queriam se proteger dos religiosos fanáticos que começavam a ameaça-los.

Iommi também se apressa a desmistificar o cabalístico episódio em que ele decepou a falange de seus dois dedos médios quando trabalhava numa fábrica aos 17 anos (detalhe: aquele era o seu último dia de trabalho). Para muitos, foi ali que nasceu Tony Iommi, o mito, que desenvolveu um método único de tocar. Ele repudia essa tese e descreve toda a dificuldade em encontrar o tipo de corda e as próteses ideais para que ele pudesse tocar. Mas um fato foi interessante conhecer: seu chefe se sentiu tão culpado pelo acidente que lhe deu um presente que poderia servir de incentivo para continuar tocando: um EP do guitarrista de jazz Django Reinhardt, que também tocava apenas usando dois dedos. Ele já estava decidido que era o fim, mas depois de ouvir o disco, mudou de ideia. A partir daí, reinventou a roda ao lado de figuras icônicas como Ozzy Osbourne, Ronnie James Dio, Glenn Hughes e Ian Gillan.

Iommi demonstra modéstia ao dividir os louros do poderoso som do Black Sabbath com o baixista Geezer Butler. Segundo ele, o peso do Led Zeppelin vinha da bateria de John Bonham (de quem era muito amigo), enquanto no Sabbath era a combinação de “massive guitar and bass wall of sound”. Ele explica que, além de escrever quase todas as letras e títulos das músicas, o papel de Geezer na banda era bem maior do que muitos imaginam. Ao longo do livro, Iommi alterna histórias saborosas sobre as maluquices de Ozzy e do jeito ogro de Bill Ward com histórias tristes sobre o estado deplorável em que a banda se encontrou a partir de meados dos anos 80 — isso fora os roubos e processos de empresários safados. E também não faltam momentos emocionantes (como o tributo a Dio em 2010), episódios surreais (como o teste de Michael Bolton para entrar na banda em 1982), e histórias hilárias (como o cenário Stonehenge montado para a turnê Born Again, que acabou virando piada no filme Spinal Tap).

Então, essa é a história: os Beatles inventaram o showbizz, Michael Jackson inventou a indústria, Steve Jobs inventou o iPod… e Tony Iommi inventou o heavy metal. Com Iron Man, todos os seus afilhados, discípulos, fãs, imitadores e seguidores poderão conhecer melhor seu padrinho musical e descobrir que Tony Iommi é o cara, mas também é só um cara.

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Tungcast#073: Black Sabbath (vol.1) – 1969-1979
Tungcast#074: Black Sabbath (vol.2) – 1980-2013
Discos subestimados: Seventh Star
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