Deventter, Empty Set (2013): o protesto antes dos protestos

Quem se lembra das grandes manifestações políticas do país, antes desta que vivemos hoje? Dentre as mais recentes, tivemos a “Diretas Já” em 1984 e o “Fora, Collor” em 1992. Épocas em que o rock nacional tinha uma cena vibrante e a crítica reverberava no país inteiro através de bandas como Ira!, Barão Vermelho, Titãs e Legião Urbana. O tempo foi passando, a cena roqueira foi entrando em declínio, o país foi organizando sua economia e melhorando seus índices sociais. Esqueceram só de pensar uma nova mentalidade política para o país, que respeitasse seus cidadãos e fizesse bom uso do dinheiro público.

De 20 anos para cá, a percepção do “ah, mas as coisas por aqui são assim mesmo” diante dos descalabros diuturnos parece ter se fixado no ideário nacional. Junto a isso, o rock, já em decadência, foi sendo absorvido pelo sistema. O olho gordo em cima das leis de incentivo parece ter cooptado quase toda a classe artística. Em tempos de extremo governismo e de fechamento de gravadoras, incomodar os poderosos não era um bom negócio para quem precisava adular o estado para poder levar algum. Apesar do cenário desolador, existem exceções remando contra essa corrente, mas elas não são visíveis no mainstream, na grande imprensa, na TV e no hype nas redes sociais. A crítica pode ser encontrada em ilhas isoladas (ou periféricas) do cenário musical, em blogs especializados que tratam de nichos específicos. Era só uma questão de pesquisar.

Aí veio essa onda de protestos. Para quem ainda não entendeu o que está acontecendo, trata-se de uma manifestação difusa e reivindicatória, contra essa mesma cultura política — cínica e distante dos anseios da população — que governos de PT e PSDB nos venderam como “o preço que se paga pelo progresso”. E era de se esperar que, devido à falta de oxigenação do rock atual, figuras como Cazuza e Renato Russo fossem trazidas de volta às ruas. Foi dentro desse contexto que encontrei, escondido no gueto do prog e do metal nacional, o novo trabalho do Deventter.

Formada em Campinas em 2001, e gestada durante os 10 anos seguintes, a banda passou por algumas mudanças em sua formação e agora ganha corpo com seu terceiro disco Empty Set. Entre suas influências musicais, os músicos citam Pink Floyd, Metallica, Nine Inch Nails, Dream Theater e Alice In Chains, mas no álbum eles soam mais próximos do Tool e — essa talvez nem a própria banda tenha se dado conta — do Frost*. O disco apresenta boas ideias musicais bem amarradas a melodias vocais (ora agressivas, ora afetadas) do vocalista Felipe Schaffer, que também assina a arte da capa e do encarte.

Mas o que mais me chamou a atenção no novo trabalho do Deventter foi o lado conceitual. Além de tratar de frustrações pessoais e confrontar as hipocrisias da sociedade, Empty Set finca o pé na realidade brasileira, com uma crítica frontal e sem concessões ao estado das coisas. Em tempos de manifestações em massa pelo país, não poderia soar mais atual. Aos que eventualmente possam acusar a banda de oportunismo, o disco foi composto no ano passado e lançado oficialmente no dia 13 de maio deste ano, o que mostra que a indignação da banda já existia bem antes de virar hype.

Hugo Bertolaccini (tecl.); Danilo Pilla (guit.); Felipe Schäffer (voz); Leonardo Milani (baixo); Caio Teixeira (bat.)

O primeiro single “Old Major” já começa chutando a porta: “Pigs are selling rights for us/ And the people blindly pay” e arremata “For all those years we were kept in line/ We’re here to have our rights”. O disco segue com vigor em “Popenstein”, perde um pouco o fôlego em semi-baladas melancólicas a la Dream Theater como “Blank Death” e “I-330”, e retoma a força com “Yellow Paper”. Depois de se aventurar numa linha mais experimental — e interessante — em “In Limbo” e “No… Deal”, “Same River” surge grandiosa, com destaque para as texturas de guitarra e teclado se entrelaçando.

Mas a explosão acontece mesmo em “Progressive Disorder”, que ironiza a “nova ordem” criada pelo pensamento reinante. Entremeada com versos falados em português como “Sequelas de uma história levada sem valor, mescladas a uma cultura invasiva e também incolor”, a letra vai direto na ferida e o refrão nos convida a ir às ruas, ao som de um riff nervoso de guitarra: “This deceiving order/ Bringing just disorder/ And the claimed progress/ Will come as we protest”. Uma bela trilha sonora para a já icônica imagem de manifestantes em Brasília invadindo a marquise do congresso nacional.

“Wallow In Nostalgia” começa melancólica, mas vai ganhando musculatura: “We were smashed by a culture that fried our minds/ Maybe one day we will grow up (…) We’re all accommodated inside this empty set”. Se antes existia realmente uma apatia que parecia ter tomado conta de nós, não mais, porque agora o povo resolveu sair do Facebook e ocupar as ruas.

Com Empty Set, o Deventter cumpre seu papel artístico ao colocar um espelho na cara da sociedade, e mostra que tem disposição para o confronto (de ideias, que fique claro). O disco é bem produzido, mas talvez seja um pouco longo demais e músicas como “Blank Label” e “Curtains Will Retreat”, embora não sejam ruins, também não adicionam muita coisa. De qualquer forma, a banda mostrou que está madura, conhece bem os temas que trata e se consolida como uma das melhores surpresas do rock made in Brazil.

Ainda não é possível saber para onde essa luta política vai nos levar, mas é certo que o Deventter terá muito assunto para tratar em seus próximos discos. Se mantiverem esse espírito combativo, terão um grande futuro — assim como todos nós esperamos que o país também tenha.

Baixe Empty Set gratuitamente no site da banda: http://www.deventter.com.br/

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