The Winery Dogs (2013)

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O álbum de estréia do The Winery Dogs, auto-intitulado, já pode ser considerado uma das maiores sensações dos geeks rockeiros em 2013. Afinal, gerou grandes expectativas e tem tido ótima recepção por parte de comentaristas e amantes da música. Tudo isso porque reuniu um trio fora de série: Richie Kotzen (solo, Mr. Big, Poison) nas guitarras e vocais, Billy Sheehan (Mr Big, David Lee Roth e Talas) no baixo e Mike Portnoy (Dream Theater, Transatlantic) na bateria. Muitos ficaram surpresos pela ótima atuação de Kotzen. Mas conhecendo um pouco de sua carreira, não foi surpresa nenhuma. Apesar de uma discografia solo irregular, nela o guitarrista já mostrara sua capacidade. É um músico de alto nível, com muito mais a dizer do que em suas breves passagens no Poison e no Mr Big.

Também houve quem destacasse a discrição de Mike Portnoy, tocando apenas o necessário – supostamente o contrário do que fazia no Dream Theater. Mas isso não é novidade: Portnoy, mais do que técnico, é um arranjador. Na sua ex-banda já havia mostrado sua faceta mais contida, como em músicas como “Anna Lee”, “I Walk Beside You” e “Burning My Soul”, entre outras. Já Billy Sheehan foi o Sheehan de sempre: um músico espetacular, que sabe a hora de jogar para a banda e a hora de se destacar.

Embora eu não compartilhe de toda empolgação em torno do disco, a estreia do The Winery Dogs é consistente, com boas músicas – apesar de apelar para muitos clichês do hard rock. É essencialmente um disco para diversão. Destaque-se que não traz nenhuma novidade musical e que, como sempre, a personalidade musical de Kotzen se destaca sobre os outros. A estética de sua carreira solo permeia todo o disco. Afinal, sendo o centro harmônico e o vocalista do grupo, é natural que sua persona se sobressaia. Portanto, as treze músicas do disco estão calcadas num hard rock com gosto setentista – às vezes com reminiscências dos anos 80. Há, sim, um flerte com sonoridades mais cruas, dos anos 90 e 2000, mas não é esse o centro sonoro do grupo. Dentro desse contexto, há um cardápio variado de músicas mais rápidas, mid-tempo e semi baladas. As melhores vão de acordo com o gosto do freguês.

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A abertura, com “Elevate”, é uma boa amostra do que vem em seguida: rock setentista com grandes riffs, que se desenvolvem até entregar ao ouvinte um refrão grudento para tocar na rádio – se isso ainda existisse. “Desire” lembra aquele clima safado do rock dos anos 80, embora com menos laquê. O vocal inicial de “We Are One” vai por uma linha mais contida, mas é só impressão: logo Kotzen volta a rasgar a garganta. O grande destaque aqui é mais um refrão empolgante. “I’m No Angel”, pelo título e estilo musical, traz de volta um certo ranço dos anos 80. Uma baladinha mid-tempo, que tiraria muita gente do atraso. Imagino até um clipe meio contemplativo, em branco e preto, com um Richie Kotzen cantando solitário com sua Fender Telecaster, olhando a chuva pela janela, enquanto lembra de uma loira ao estilo Heather Locklear. Enfim, devaneios.

“The Other Side” começa com uma levada de bateria e baixo que já deve ter sido usada em mais de uma centena de músicas, assim como a ponte e o refrão. “You Saved Me”, levada por um two-hands tapping de Billy Sheehan, é outra “quase balada” que poderia ter um clipe contemplativo. “Not Hopeless” tem outra intro de baixo e bateria usada em dezenas de músicas. Apesar disso, é minha preferida: tem ótimos riffs, que não param, e um refrão inspirado – em que o exagero do hard rock se encontra com um tom mais moderado. Kotzen ainda apresenta um solo ultra virtuoso, cheio de notas, que – ainda bem – vai contra a corrente atual de ojeriza a solos de guitarra. “One More Time” tem clima para cima e mais ótimos riffs.

“Damage” me induz a repetir o comentário: mais uma balada com reminiscências dos anos 80. Por algum motivo, sempre que ouço essa música, o Kiss vem à cabeça. Poderia estar na trilha de Top Model. “Six Feet Deeper” salva a sequência, com uma pegada mais pesada e um solo monumental de Kotzen. “Criminal” é um rock apenas “ok”. O começo de “The Dying” mostra uma balada mais decente, mais discreta. Mas o refrão exagerado quebra um pouco o clima. Já “Regret”, a última, é uma das melhores do disco. Uma bela canção com arranjo gospel, e um ar que lembra baladas dos anos 60. Sai um pouco dos clichês e exageros do álbum. É um respiro de ar fresco.

O saldo da estréia do The Winery Dogs é o seguinte: é consistente e um prato cheio para amantes daquele som hard rock dos anos 70 e 80. Porém, se prende muito aos clichês do gênero e à personalidade musical de Richie Kotzen. Para quem não é tão ligado ao estilo, soa enjoativo e exagerado em muitos momentos. Mas a banda só tem craques, conseguiu apresentar boas canções e está na estrada. Quem sabe consiga juntar todo esse potencial com uma marca musical particular e mais diversa no próximo álbum. Capacidade esse trio tem de sobra.

Veja o vídeo oficial de “Elevate”:

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